Prá ninguém zombar de mim…

“O mundo ensina ao homem com mais facilidade aquilo que este não quer aprender.”

 

Noel Rosa, o filósofo do samba (Busto, por Luquefar)

 

Noel Rosa não participa da política e nela jamais será candidato. Mas nem por isto deixa de dar alfinetadas. “Eu sou muito liberal, mas não uso aliança”, diz, em um dos versos do partido “Quem não dança”, com sutil citação da Aliança Liberal de Getúlio Vargas. O partido referido, no caso, é o partido-alto, gênero musical. A política econômica do governo Vargas também é tratada com ironia peculiar: “Seu Jacinto aperta o cinto, bota as calças no lugar!”. A marcha “Seu Jacinto” é gravada em 1933.

Longe da alienação, entretanto, posiciona-se firmemente diante da vida, de suas contradições e mazelas. Faz questão de deixá-las explícitas em sua obra, como fizeram grandes artistas de todos os tempos. A arte tem por essência a natureza de retratar o real, do ponto de vista de seus criadores. Em síntese, na obra de Noel está o Rio de Janeiro em pintura filosofal como símbolo de uma realidade maior, humana, profunda, dolorosa e dolorida, ainda que regada de jocosidade e gracejo.

Aliás, atribui-se a Pitágoras, pensador e matemático grego, definição da filosofia como “o amor pela sabedoria, experimentado apenas pelo ser humano consciente de sua ignorância”. A citação vem do Dicionário Houaiss. Noel jamais se colocará filósofo de coisa alguma, desgarrado que é das questões acadêmicas formais, chegando a abandonar a Faculdade de Medicina. A filosofia penetra sua obra de forma abundante, via a aguda capacidade de observação e abstração que detém.

O vasto mundo de Noel, intrínseco e absolutamente pessoal, feito com poesia e lirismo sofisticados, está à nossa disposição, despertando a atenção de gerações e gerações seguidas. Não falamos de um criador maduro, que teve tempo de repensar a si mesmo, recolocar-se e reestruturar seu trabalho, mas de um garoto amadurecido por intensa vivacidade, responsável também, em última instância, por sua vida efêmera, no sentido temporal. Filósofo, muito embora vagabundo!

Na próxima edição, domingo, dia 20 de junho: DE DONA MARIA, SEU JOÃO E OUTROS

As canções relacionadas

FILOSOFIA (Noel Rosa-André Filho)


Samba. Primeira gravação em 1933 com Mário Reis

O mundo me condena, e ninguém tem pena
Falando sempre mal do meu nome
Deixando de saber se eu vou morrer de sede
Ou se vou morrer de fome

Mas a filosofia hoje me auxilia
A viver indiferente assim
Nesta prontidão sem fim
Vou fingindo que sou rico
Prá ninguém zombar de mim

Não me incomodo que você me diga
Que a sociedade é minha inimiga
Pois cantando neste mundo
Vivo escravo do meu samba, muito embora vagabundo

Quanto a você da aristocracia
Que tem dinheiro, mas não compra alegria
Há de viver eternamente
Sendo escrava dessa gente que cultiva hipocrisia

André Filho – Antônio André de Sá Filho (23/03/1906 – 02/07/1974), do Rio de Janeiro, RJ. Multi-instrumentista, compositor, arranjador, radialista e cantor. Foi o autor de “Cidade Maravilhosa”, uma das mais queridas canções brasileiras, adotada como hino da cidade do Rio de Janeiro. Formou-se em Ciências e Letras. Por volta dos anos 1940, interna-se em clínica psiquiátrica com problemas de saúde, que culminaram, anos depois, em seu afastamento definitivo da vida artística. “Filosofia” é sua única parceria com o poeta da Vila Isabel.

Mário Reis – Mário da Silveira Meirelles Reis (31/12/1907 – 05/10/1981), do Rio de Janeiro, RJ. Intérprete de cadência magistral, soube tirar proveitos vocais de interpretação com a gravação eletrônica, novidade tecnológica de sua época. Dividiu o título de melhor cantor do Brasil com Francisco Alves nos anos 1930. No auge de sua popularidade, abandonou a carreira em 1938, voltando a gravar somente de modo esporádico.

Prontidão – termo com amplo significado, muito utilizado, na época, especificamente na gíria popular para situações de falta de dinheiro, miséria.

FEITIO DE ORAÇÃO (Noel Rosa-Vadico)


Samba. Primeira gravação em 1933 com Francisco Alves e Castro Barbosa

Quem acha vive se perdendo
Por isso agora eu vou me defendendo
Da dor tão cruel desta saudade
Que, por infelicidade
Meu pobre peito invade

Por isso agora lá na Penha vou mandar
Minha morena prá cantar com satisfação
E com harmonia
Esta triste melodia
Que é meu samba em feitio de oração

Batuque é um privilégio
Ninguém aprende samba no colégio
Sambar é chorar de alegria
É sorrir de nostalgia
Dentro da melodia

Por isso agora lá na Penha vou mandar
Minha morena prá cantar com satisfação
E com harmonia
Esta triste melodia
Que é meu samba em feitio de oração

O samba na realidade não vem do morro
Nem lá da cidade
E quem suportar uma paixão
Sentirá que o samba então
Nasce do coração

Francisco Alves – Francisco de Morais Alves, o Chico Alves (19/08/1898 – 27/09/1952), do Rio de Janeiro, RJ. Cantor e compositor, foi o intérprete mais requisitado por artistas e querido pelo público brasileiro, carregando o título de “cantor das multidões”. Aparece também como autor de algumas canções, por exigir parceria em muitas de suas gravações. Noel Rosa e Ismael Silva foram mestres nestas cessões. Morreu em acidente de carro na Via Dutra.

Castro Barbosa – Joaquim Silvério de Castro Barbosa (07/05/1905 – 20/04/1975), mineiro de Sabará, cantor, humorista e compositor, vem de família artística: irmão do cantor Luiz Barbosa e do humorista Barbosa Jr. Até 1954 registrou em disco dezenas de canções, quando se afastou da música profissional. Dividiu com Francisco Alves a gravação de lançamento do clássico “Feitio de Oração”.

Escola de Samba – esta expressão, nova na época, foi criada por Ismael Silva, mestre da música brasileira, parceiro de Noel, para qualificar a “Deixa Falar”, agremiação do carnaval carioca originária das atuais escolas. Mas, nesta canção, o poeta da Vila brinca com seu amigo do Estácio: o samba não tem escola!

POSITIVISMO (Noel Rosa-Orestes Barbosa)


Samba. Primeira gravação em 1933 com Noel Rosa

A verdade, meu amor, mora num poço
É Pilatos lá na Bíblia quem nos diz
E também faleceu por ter pescoço
O infeliz autor da guilhotina de Paris

Vai, orgulhosa, querida
Mas aceita esta lição:
No câmbio incerto da vida
A libra sempre é o coração

O amor vem por princípio, a ordem por base
O progresso é que deve vir por fim
Desprezastes esta lei de Augusto Comte
E fostes ser feliz longe de mim

Vai, coração que não vibra
Com teu juro exorbitante
Transformar mais outra libra
Em dívida flutuante

A intriga nasce num café pequeno
Que se toma para ver quem vai pagar
Para não sentir mais o teu veneno
Foi que eu já resolvi me envenenar

Orestes Barbosa – Orestes Dias Barbosa (07/05/1893 – 15/08/1966) do Rio de Janeiro, RJ, do mesmo bairro de Noel Rosa. Compositor, poeta, escritor e jornalista, importante nome da imprensa brasileira. Coleciona dezenas de parcerias com destaques da música, que incluem além de Noel, Ari Barroso, Wilson Batista, Nássara, Custódio Mesquita, dentre outros. Um de seus livros é de 1933: “Samba”, com curiosidades sobre artistas populares brasileiros.

Samba filosofal – do Império Romano ao Positivismo, passando pela Revolução Francesa, com direito a desencanto amoroso: desta canção, estilo “samba do crioulo doido”, primorosa, cabem comentários interessantes. O médico francês Joseph-Ignace Guillotin foi “o autor da guilhotina de Paris”, usada na pena de morte. Mas, pelo visto, foi outro Guillotin, também médico, que se juntou aos demais 15 mil para perder o pescoço no aparelho, durante o processo revolucionário na França. “Amor por princípio, Ordem por base e Progresso por fim” evidencia o outro detalhe: o lema do positivismo de Auguste Comte influenciou também republicanos brasileiros, que estamparam em nossa bandeira “ORDEM E PROGRESSO”. Esqueceram-se do amor, entretanto. Noel, não!

Libra – Noel a utiliza com dois sentidos: a balança e a moeda. Sofisticações do poeta…

VOCÊ, POR EXEMPLO (Noel Rosa-Francisco Alves)


Marcha. Primeira gravação em 1934 com Almirante (música de 1933)

Há muita gente que apesar do pince-nez
Passa por nós, dá esbarrão e não nos vê
Anda depressa, mas vai sempre com atraso
Você por exemplo… Você por exemplo
Está neste caso!

Há muitas santas no mundo
Que vivem fora do templo
Santas de olhar bem profundo…
Você, por exemplo! Você, por exemplo!

Quanto barbado que não paga engraxate
Muda de casa e deixa mudo o alfaiate
Quanto barbado que jejua mais que Gandhi
Você, por exemplo… Você, por exemplo
Não tem barba grande!

Há muitas santas no mundo
Que vivem fora do templo
Santas de olhar bem profundo…
Você, por exemplo! Você, por exemplo!

Quanta menina por ouvir no telefone
Uma voz grossa feito solo de trombone
Pega o automóvel, vai parar não sei aonde
Você, por exemplo… Você, por exemplo
Não anda de bonde!

Há muitas santas no mundo
Que vivem fora do templo
Santas de olhar bem profundo…
Você, por exemplo! Você, por exemplo!

Há muita gente que só sabe dar palpite
Pois tem cabeça, mas já teve meningite
E muita gente vive bem sem um pulmão
Você, por exemplo… Você por exemplo
Não tem coração!

Almirante – Henrique Foréis Domingues (19/02/1908 – 22/12/1980) do Rio de Janeiro, RJ, de Vila Isabel. Cantor, compositor, radialista, pesquisador, foi o líder do Bando dos Tangarás, grupo de estréia de Noel na música. Seu trabalho teve grande importância para o início do rádio no Brasil, quando se tornou renomado produtor radiofônico. Detalhista e cuidadoso, colecionou abrangente arquivo, com documentos históricos da música popular, hoje pertencente ao Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro.

Pince-nez – Mais uma prova da influência francesa na época. Pince-nez são aqueles óculos sem hastes, que se prendem ao nariz, do tipo Machado de Assis…

MAIS UM SAMBA POPULAR (Noel Rosa-Vadico)


Samba. Primeira gravação em 1954 com Ana Cristina (música de 1934)

Fiz um poema prá te dar
Cheio de rimas que acabei de musicar
Se por capricho
Não quiseres aceitar
Tenho que jogar no lixo
Mais um samba popular

Se acaso não gostares
Eu me mato de paixão
Apesar de teus pesares
Meu samba merece aprovação

Eu bem sei que tu condenas
O estilo popular
Sendo as notas sete apenas
Mais eu não posso inventar

Ana Cristina – Esta gravação conta com a participação de Luis Bittencourt e seu conjunto, em selo Sinter 346, disco de 78 RPM. Não encontramos dados biográficos da intérprete.

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