O samba mulato

“O burro só tem uma satisfação: não segue a profissão forçado pela sua família.”

Noel Rosa, Cartola e o samba de morro (Ilustação Luquefar)

“O samba não vem do morro, nem da cidade” – já diz o poeta. Do coração de Noel saem sambas fenomenais, no que dá prá imaginar, não só sua imensa capacidade criativa, como da correção de suas palavras. O samba nasce da inspiração humana, envolvida por aqui, Brasil, em experiências deveras particulares. Práticas que são fruto da sagacidade de populações de locais diferentes do mundo, com encontro marcado neste nosso inspirado pedaço de chão.

Por certo, não haveria samba na Europa, nem em terras ameríndias e muito menos africanas. O samba só nasceria aqui, como se fez, espalhado por uma vasta região e ganharia a forma urbana, como mais o conhecemos, através de dois núcleos: as cidades de São Salvador na Bahia e a de São Sebastião do Rio de Janeiro. Por elas o samba se populariza como estilo de música genial genuinamente brasileira, de complexo ritmo sincopado e invejável linha melódico-harmônica.

Do conhecimento de povos do mundo herdado do sangue de gerações sem fim, depois de misturadas, remexidas por mais e mais gerações no Brasil, é que surge a condição para o samba. Para ele e outras tradições. Música inventiva e diversificada. Complexa e engenhosa salada da existência humana. Assim é que o samba é brasileiro, antes de ser carioca e é universal, como convém a toda criação; é passo e compasso da alegria e da sofisticação. E é o que há nos idos de 1930.

Noel, branco como quê, sai atrás do samba e sobe o morro pra roubar-lhe um pedaço. Tira seu chapéu ao Cartola, chega ao negro Canuto e ao coração crioulo do Puruca, que bate marca-passo na cuíca do Gradim, querendo o melhor pedaço da percussão do Alcebíades, pra descobrir a verdade da batida do Manuel. Volta e conta pro Ismael: o samba não tem escola. Não tem escola e não tem cor. Não tem cor e não tem raça. A nossa melhor canção é mulata, é miscigenação. O samba é paixão. É nossa cachaça!

Na próxima edição, domingo, 8 de agosto, A ARTE DA DOR.

As músicas relacionadas

NÃO FAZ AMOR (Noel Rosa-Cartola)


Samba. Primeira gravação em 1932 com Francisco Alves (78 rpm, selo Odeon n° 10.927-a)

Não faz, amor, deixa-me dormir
Oh, minha flor, tenha dó de mim
Sonhei, acordei assustado
Receoso que tivesses me enganado
(Eu não durmo sossegado)

Só tens ambição e vaidade
Não pensas na felicidade
E eu não descanso um momento
Por pensar que o teu amor é só fingimento

Mas eu vou entrar com meu jogo
E vou pôr à prova de fogo
A tua sincera amizade
Para ver se tu falaste verdade

Não faz, amor, deixa-me dormir
Oh, minha flor, tenha dó de mim
Sonhei, acordei assustado
Receoso que tivesses me enganado
(Eu não durmo sossegado)

Amar sem jurar é bem raro
O verbo cumprir custa caro
Amor é bem fácil de achar
O que acho mais difícil é saber amar

O mundo tem suas surpresas
Mas nós temos nossas defesas
Por isso eu estou prevenido
Prá saber se sou ou não traído

Cartola – Angenor de Oliveira (11/10/1908 – 30/11/1980), do Rio de Janeiro, RJ. Compositor e cantor, foi um dos principais compositores do samba, no Rio de Janeiro. Um dos grandes da MPB. Amicíssimo de Noel Rosa, que freqüentava sua casa em Mangueira, foi parceiro do poeta da Vila em dois sambas. Apesar de ter músicas gravadas na década de 1930, só viu seu nome relembrado trinta anos depois, nos registros de Nara Leão. Mas, somente a partir de seu primeiro LP em 1974, da gravadora Marcos Pereira, aos 66 anos de idade veio o reconhecimento!

Sobre Francisco Alves – v. artigo “Pra ninguém zombar de mim”.

JÁ NÃO POSSO MAIS (Noel Rosa-Canuto-Puruca-Almirante)


Samba. Primeira gravação em 1932 com Almirante e Bando dos Tangarás

Adeus, mulher fingida
Eu já vou-me embora
Tu estás arrependida
Já não posso mais
Deus me perdoe pelo que fiz
Deixando abandonada
Aquela pobre infeliz

O teu mau procedimento
Fez meu coração sofrer
E teu arrependimento
Não me pôde comover

Tu encheste meus ouvidos
Com frases de ocasião
Nem sempre os arrependidos
Nos merecem o perdão.
(Agora)

Adeus, mulher fingida
Eu já vou-me embora
Tu estás arrependida
Já não posso mais
Deus me perdoe pelo que fiz
Deixando abandonada
Aquela pobre infeliz

Se tu fosses processada
Diante de um auditório
Tu ficavas bem calada
Pois tens culpa no cartório

Há bastantes testemunhas
Do que fui e do que sou
Quando me botaste as unhas
Meu dinheiro se pirou.
(Por quê?)

Canuto – Deocleciano da Silva Paranhos (data de nascimento desconhecida – falecido em 27/11/1932), do Rio de Janeiro, RJ. Ritmista, compositor do morro do Salgueiro, foi parceiro de João de Barro e Noel Rosa, ambos do Bando de Tangarás. Sua primeira participação em estúdio se deu em 1929, no registro histórico de “Na Pavuna”, com o grupo de Noel, onde, pela primeira vez, foi registrada percussão numa gravação. Como o poeta, ainda novo morreu tuberculoso. Sobre o parceiro Puruca, infelizmente, só sabemos que era também compositor e ritmista do mundo do samba de morro carioca.

Sobre Bando de Tangarás – v. o artigo “Eu ando sem l’argent toujours”.

Sobre Almirante – v. o artigo “Prá ninguém zombar de mim”.

QUERO FALAR COM VOCÊ (Noel Rosa-Gradim)


Samba. Primeira gravação em 1933 com João Petra de Barros (música de 1932 – 78 rpm, selo Odeon n° 10.950-a)

Quero falar com você
Mas em segredo
Que ninguém venha saber do nosso amor
Será que para sempre
Havemos de guardar
Para a felicidade algum dia nos chegar

O amor se declara em segredo
Quem tem seu amor já aprendeu
Não posso deixar de ter medo
Que alguém subtraia o seu amor do meu

Amor não tem dia nem tem hora
Prá vir não tem antes nem depois
Só tem dia para ir-se embora
Dividindo a tristeza por dois
(Que número, faz favor?)

Quero falar com você
Mas em segredo
Que ninguém venha saber do nosso amor
Será que para sempre
Havemos de guardar
Para a felicidade algum dia nos chegar

O amor é castigo e é brinquedo
Depende da hora em que vem
Faz mal se não é em segredo
Quando os outros não sabem é mal que nos faz bem

Somando a ilusão com alegria
Assim é o começo do amor
Depois prá maior nostalgia
Multiplica a saudade por dor
(Em comunicação)

Quero falar com você
Mas em segredo
Que ninguém venha saber do nosso amor
Será que para sempre
Havemos de guardar
Para a felicidade algum dia nos chegar
(Não responde)

Gradim – Lauro dos Santos. Datas de nascimento e falecimento desconhecidas. Também compositor de Mangueira, dentre os muitos parceiros que Noel colecionou nos morros do Rio de Janeiro. Outro dos bons que morreu tuberculoso! Foi jogador de futebol, chegando a jogar com o craque Leônidas da Silva, o inventor da “bicicleta”.

João Petra de Barros – (23/06/1914 – 11/01/1947) do Rio de Janeiro, RJ. Cantor, gravou “Até Amanhã” de Noel e Ismael em disco de estréia em 1933, se destacando por seu timbre afinado, semelhante ao de Francisco Alves – ídolo da música brasileira. Depois de acidente, no qual perdeu a perna, ainda jovem, suicidou-se.

Letra aritmética – É bem característica de Noel esta letra surpreendente, agora afiada nas contas (com um toque da sala de aula). Vinte e cinco anos mais tarde, Marino Pinto e Tom Jobim – por certo bons alunos – compuseram a bossa “Aula de matemática”, também relacionando cálculos e amor.

FUI LOUCO (Noel Rosa-Bide)


Samba. Primeira gravação em 1933 com Mário Reis

Fui louco
Resolvi tomar juízo
A idade
Vem chegando e é preciso
Se eu choro
Meu sentimento é profundo
Ter perdido a mocidade na orgia
Maior desgosto do mundo!

Neste mundo ingrato e cruel
Eu já desempenhei o meu papel
E da orgia então
Consegui minha demissão

Fui louco
Resolvi tomar juízo
A idade
Vem chegando e é preciso
Se eu choro
Meu sentimento é profundo
Ter perdido a mocidade na orgia
Maior desgosto do mundo!

Felizmente mudei de pensar
E quero me regenerar
Já estou ficando maduro
E já penso no meu futuro

Bide – Alcebíades Maia Barcelos (25/7/1902 – 18/3/1975), fluminense de Niterói. Compositor, percussionista, residiu no bairro do Estácio, onde freqüentava rodas de samba e conheceu Ismael Silva, com quem fundou a “Deixa Falar”. Formou famosa dupla Bide & Marçal (com o mestre Armando Marçal), responsável por pérolas da música brasileira, como o samba “Agora é cinza”.

Sobre Mário Reis – v. artigo “Pra ninguém zombar de mim”.

SÓ PRÁ CONTRARIAR (Noel Rosa-Manuel Ferreira)


Samba. Primeira gravação em 1932 com Almirante e Bando dos Tangarás

O prazer que tu sentes é quando
Estás me contrariando
Sem razão
Enquanto estou a sorrir
Tu choras sem sentir
Só por contradição

Não posso mais sofrer assim
Tudo tem que ter seu fim
Não existe eternidade
É melhor viver sozinho
Sem dinheiro, sem carinho
Com sossego e liberdade

O prazer que tu sentes é quando
Estás me contrariando
Sem razão
Enquanto estou a sorrir
Tu choras sem sentir
Só por contradição

Andando em tua companhia
Já peguei esta mania
Das vinganças imprudentes
E quando o jejum me come
Prá contrariar a fome
Fico mastigando os dentes

Manuel Ferreira (07/01/1913), do Rio de Janeiro, RJ. Compositor e instrumentista do cavaquinho e do violão, serralheiro, fez diversos parceiros no samba, incluindo entre eles Noel Rosa. No Império Serrano, foi companheiro de Silas de Oliveira e Mano Décio da Viola, com quem dividiu a criação de “Heróis da Liberdade”, um samba-enredo antológico.

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Sobre o “Ismael” citado neste artigo – v. Ismael Silva na edição anterior.

NOTAS DOS ORGANIZADORES

Próxima sexta-feira , 6 de agosto, vamos comemorar o centenário de nascimento do compositor Adoniran Barbosa. João Rubinato foi o nome de nascença deste filho de imigrantes italianos, nascido em Valinhos, no interior do Estado paulista. Quatro meses e quatro dias mais velho que Noel Rosa, radialista, radio-ator, cantor, humorista e genial compositor, iniciou sua carreira na música em 1934, em São Paulo, aprovado em concurso de calouros, cantando, nada mais, nada menos que a então recém-lançada “Filosofia” de Noel Rosa e André Filho. Adoniran e Noel nunca puderam se conhecer, mas guardam muitos paralelos no fazer artístico com originalidade. Assim como Noel, dedicou-se com sua música ao registro do cotidiano da cidade onde viveu a maior parte dos seus dias – São Paulo. Foi consagrado artisticamente e, até hoje, é relembrado como um dos maiores nomes da música brasileira. Sua primeira gravação ocorreu somente em 1955, com o registro de “Saudosa Maloca”, sucesso marcante em sua carreira. Morreu em 23/11/1982. Com esta pequena nota, nosso viva ao Adoniram!

Anotações com arte – Lembrando seu centenário foi lançado este ano a agenda “Adoniran Barbosa – anotações com arte 2010” , com edição bem cuidada , com muitos dados biográficos do compositor e diversos depoimentos de amigos. Criação de Paulo T. S. Hardt e Idealização e autoria de Fred Rossi, Editora Anotações com Arte Ltda.

1910 poderia ser considerado um ano especial  para a música brasileira, pois temos o nascimento de outros importantes compositores. Vamos citar aqui alguns deles – os parceiros de Noel Rosa nas canções deste blog: Cristóvão de Alencar (8/1), Custódio Mesquita (25/4), Vadico (24/06), Luiz Barbosa (7/7) e Renê Bittencourt (23/12). Todos mereceriam centenas de comemorações. No entanto, este país ainda tem memória curta!

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