O Rio de Noel

“A vocação é necessária até para se dar um laço na gravata.”

“Foi juntinho ao Corcovado, que Jesus Cristo nasceu” Noel Rosa

Pouco mais de um milhão de habitantes cercam o jovem Noel Rosa, ávido por aventuras na Capital Federal no final dos anos 1920. Afoito para mostrar suas habilidades no bandolim e no violão, procura o samba, que floresce e se fortifica em botequins, nas esquinas, nos morros. Vila Isabel, bairro musical, proporciona-lhe muitas oportunidades em encontros casuais com a música; e o samba ainda o rodeia e ao seu bairro pela Mangueira, Salgueiro, morro do Macaco, Grajaú e tantos outros.

O Rio de Janeiro arrebata esse rapaz, que não tem no pensamento ser general ou presidente da República: “Que valia o próprio fastígio dos reis – escreve – dos soberanos absolutos, diante do encanto comunicativo dos criadores de ritmo? Eu também não sonhava com ópera. Queria mesmo a música popular, ou seja, a música do povo inteiro, música generosa, música acessível a todos, que a todos embriaga, que vai de alma em alma, comunicando uma mesma e religiosa emoção”.

Assim madurece cedo a natureza de Noel Rosa, orgulhoso de seu bairro, sua cidade e facilmente inspirado de paixão ardente por faceiras donzelas e por canções. Mais que mulheres, a música lhe interessa e fascina. Sinhô, criador de sucesso atrás de sucesso, lhe é encantador: quem sabe um dia não vai poder conhecê-lo? Quem sabe ainda será famoso como o “rei do samba”? Nem pode imaginar a condição miserável de vida por que passa seu ídolo na música brasileira.

Abraça as oportunidades que aparecem e assina com os amigos Almirante, Alvinho, Braguinha e Henrique, um grupo – Bando de Tangarás – que vai focar a raiz sertaneja e nordestina, misturada ao samba e à marcha. Em 1929, com seus amigos, alcança o disco e vê realizado seu sonho maior. Daí em diante, tudo vai depender muito do instinto criativo que persegue. Mas encontra amparo em sua “cidade ventura”, como fonte de inspiração. O Rio é, e em última instância, a razão do Noel que festejamos.

Na próxima edição, domingo, 22 de agosto: AMOR TOM DE CINZA

Músicas relacionadas

EU VOU PRÁ VILA (Noel Rosa)

Samba. Primeira gravação em 1931 com Almirante e Bando de Tangarás (música de 1930)

Não tenho medo de bamba
Na roda do samba
Eu sou bacharel
(Sou bacharel)
Andando pela batucada
Onde eu vi gente levada
Foi lá em Vila Isabel

Na Pavuna tem turuna
Na Gamboa gente boa
Eu vou prá Vila
Aonde o samba é da coroa
Já saí de Piedade
Já mudei de Cascadura
Eu vou prá Vila
Pois quem é bom não se mistura

Não tenho medo de bamba
Na roda do samba
Eu sou bacharel
(Sou bacharel)
Andando pela batucada
Onde eu vi gente levada
Foi lá em Vila Isabel

Quando eu me formei no samba
Recebi uma medalha
Eu vou prá Vila
Pro samba do chapéu de palha
A polícia em toda a zona
Proibiu a batucada
Eu vou prá Vila
Onde a polícia é camarada

Sobre Almirante – v. o artigo “Prá ninguém zombar de mim”.

Sobre Bando de Tangarás – v. o artigo “Eu ando sem l’argent toujours”.

Turuna – É valente, brigão, por aí…

A turma da cozinha – Naqueles tempos não era usual o registro de percussão em gravações, até por dificuldades técnicas. Neste, entretanto, estão presentes percussionistas do samba de morro carioca, parceiros de Noel, o que concede um toque especial e histórico à gravação.

PALPITE INFELIZ (Noel Rosa)

Samba. Primeira gravação em 1936 com Aracy de Almeida (música de 1935, 78 rpm selo Victor n° 34.007-a)

Quem é você que não sabe o que diz?
Meu Deus do céu, que palpite infeliz!
Salve Estácio, Salgueiro, Mangueira
Oswaldo Cruz e Matriz
Que sempre souberam muito bem
Que a Vila não quer abafar ninguém
Só quer mostrar que faz samba também

Fazer poema lá na Vila é um brinquedo
Ao som do samba dança até o arvoredo
Eu já chamei você prá ver
Você não viu porque não quis
Quem é você que não sabe o que diz?

Quem é você que não sabe o que diz?
Meu Deus do céu, que palpite infeliz!
Salve Estácio, Salgueiro, Mangueira
Oswaldo Cruz e Matriz
Que sempre souberam muito bem
Que a Vila não quer abafar ninguém
Só quer mostrar que faz samba também

A Vila é uma cidade independente
Que tira samba mas não quer tirar patente
Prá que ligar a quem não sabe
Aonde tem o seu nariz?
Quem é você que não sabe o que diz?

Sobre Aracy de Almeida – v. artigo “Era a lua que tudo assistia”.

FEITIÇO DA VILA (Noel Rosa-Vadico)

Samba. Primeira gravação em 1934 com João Petra de Barros

Quem nasce lá na Vila
Nem sequer vacila
Ao abraçar o samba
Que faz dançar os galhos
Do arvoredo e faz a lua
Nascer mais cedo

Lá, em Vila Isabel
Quem é bacharel
Não tem medo de bamba
São Paulo dá café
Minas dá leite
E a Vila Isabel dá samba

A Vila tem
Um feitiço sem farofa
Sem vela e sem vintém
Que nos faz bem
Tendo nome de princesa
Transformou o samba
Num feitiço decente
Que prende a gente

O sol na Vila é triste
Samba não assiste
Porque a gente implora:
Sol, pelo amor de Deus
Não vem agora
Que as morenas
Vão logo embora

Eu sei por onde passo
Sei tudo o que faço
Paixão não me aniquila
Mas, tenho que dizer
Modéstia à parte
Meus senhores
Eu sou da Vila!

Sobre João Petra de Barros – v. artigo “O samba mulato”.

Sem cadeado – Aracy em 1966 gravou com o MPB4 a polêmica Noel-Wilson, acrescentando os versos “A zona mais tranquila / É a nossa Vila / O berço dos folgados / Não há um cadeado no portão / Por que na Vila não dá ladrão”.

O X DO PROBLEMA (Noel Rosa)

Samba. Primeira gravação em 1936 com Aracy de Almeida (78 rpm, selo Victor n° 16.319-b)

Nasci no Estácio
Eu fui educada na roda de bamba
Eu fui diplomada na escola de samba
Sou independente, conforme se vê

Nasci no Estácio
O samba é a corda e eu sou a caçamba
E não acredito que haja muamba
Que possa fazer eu gostar de você

Eu sou diretora da escola do Estácio de Sá
E felicidade maior neste mundo não há
Já fui convidada para ser estrela do nosso cinema
Ser estrela é bem fácil
Sair do Estácio é que é o “x” do problema

Você tem vontade
Que eu abandone o largo de Estácio
Prá ser a rainha de um grande palácio
E dar um banquete uma vez por semana

Nasci no Estácio
Não posso mudar minha massa de sangue
Você pode crer que palmeira do mangue
Não vive na areia de Copacabana

Eu sou diretora da escola do Estácio de Sá
E felicidade maior neste mundo não há
Já fui convidada para ser estrela do nosso cinema
Ser estrela é bem fácil
Sair do Estácio é que é o “x” do problema

CIDADE MULHER (Noel Rosa)

Marcha-rancho. Primeira gravação em 1936 com Orlando Silva (78 rpm, selo Victor n° 34.085b)

Cidade de amor e ventura
Que tem mais doçura
Que uma ilusão
Cidade mais bela que o sorriso
Maior que o paraíso
Melhor que a tentação

Cidade que ninguém resiste
Na beleza triste
De um samba-canção
Cidade de flores sem abrolhos
Que encantando nossos olhos
Prende o nosso coração

Cidade notável
Inimitável
Maior e mais bela que outra qualquer
Cidade sensível
Irresistível
Cidade do amor, cidade mulher

Cidade de sonho e grandeza
Que guarda riqueza
Na terra e no mar
Cidade do céu sempre azulado
Teu sol é namorado
Da noite de luar

Cidade padrão de beleza
Foi a natureza
Quem te protegeu
Cidade de amores sem pecado
Foi juntinho ao Corcovado
Que Jesus Cristo nasceu

Cidade notável
Inimitável
Maior e mais bela
Que outra qualquer
Cidade sensível
Irresistível
Cidade do amor
Cidade mulher

Sobre Orlando Silva – v. artigo “Era a lua que tua assistia”.

O Rio de Noel – O nosso poeta sempre teve predileção especial pelo Rio de Janeiro, a quem dedicou esta marcha, trilha de um filme no início do cinema nacional. E pode ter feito mais: há muita gente que garante a autoria noelina de “Cidade Maravilhosa”, a canção que virou o hino do Rio de Janeiro. O livro “Noel Rosa – uma biografia” mostra alguns depoimentos a respeito. O irmão de Noel,  Hélio Rosa, assegurava que André Filho desembolsou oitocentos mil-réis pela marcha-rancho!

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Visita imaginária de Noel ao Corcovado – A ilustração desta edição traz trabalho digital de Luquefar, com a figura de Noel sobre postal histórico do Rio de Janeiro de 1930, do fotógrafo alemão Theodor Presing, pertencente à Coleção Pirelli/Masp de Fotografia, aos quais pedimos a licença pela a livre concepção.

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2 respostas para O Rio de Noel

  1. mariza santos disse:

    Nasci em 1957 e passei minha infância toda ouvindo Noel e tantos outros “seres iluminados”, não existe nada mais sublime que ouvir boa música.

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