E saudade não tem cor

“Para o bom entendedor meia palavra… não basta, porque ele sempre exige o ‘porquê’ do seu interlocutor.”

A estrela de Noel Rosa (ilustração Luquefar)

Vem do latim nossa “saudade”, da mesma origem de solidão e solitário e a utilizamos desde o século XIII para definirmos esta espécie de angústia temporal. Talvez por isto todos a conheçam e, do mais simples ao mais escolado cidadão, saibam de cor sua coloração, suas afinidades, seus contrastes: mescla de dor e prazer, de desejo e impossibilidade. A saudade nos afeta, sufoca, chega a matar, mas traz também efeito contrário, quando nos remete às boas coisas da vida e revigora o espírito.

A saudade entranhada do sentimento português é tão especial que outros povos não conseguem conceituá-la com uma só palavra. Tentam através de expressões decifrar seu significado sem, no entanto, defini-la verdadeiramente. Buscam compará-la à nostalgia, melancolia, tristeza. E nada disso representa de fato a saudade – assimilada pelo brasileiro de um modo singular e sobre a qual traz na ponta da língua sua significação.

Nem mesmo dicionários conseguem defini-la bem, por ser palavra única: “sentimento mais ou menos melancólico de incompletude, ligado pela memória a situações de privação da presença” ou “lembrança grata de pessoa ausente ou de coisa de que nos vemos privados”. Certo é que saudade é um efeito complexo do sentir em todo e qualquer ser humano, e nosso processo cultural soube retratá-lo com palavra de grande beleza sonora, simbólica e poética. Saudade é pra ser vivida.

Se no céu do amor brilha a estrela da manhã, seu brilho nos remete ao que vivemos ou que queremos reviver. “Saudade é amor que fica”, diz algum anjo da rua. Quando começa um romance, a alegria toma conta de nós; mas, quando a alegria nos abandona, vem a  saudade… E se esta vier para nos alegrar de novo, que bom, felicidade que vai ser, não é? Uma saudade e um amor presente nos motivam neste centenário. Saudade boa, que não deixa Noel Rosa ir-se embora!

Na próxima edição, domingo, 19 de setembro: A MORADA DO SAMBA

Músicas relacionadas

ESTRELA DA MANHÃ (Noel Rosa-Ary Barroso)


Samba. Primeira gravação em 1934 com Francisco Alves e Madelou Assis (música de 1933).

A estrela da manhã
Quando brilha na amplidão
Faz lembrar uma saudade
Que guardei no coração

Quando à noite olho as estrelas
A brilhar no firmamento
Fico distraída ao vê-las
Esquecendo o meu tormento

A estrela da manhã
Quando brilha na amplidão
Faz lembrar uma saudade
Que guardei no coração

E dos amores que tive
A gozar a mocidade
Só um no meu peito vive
Sob a forma de saudade

Ary Barroso – Ary de Resende Barroso (7/11/1903 – 9/2/1964) de Ubá, MG. Cantor, compositor, pianista, radialista e político. Está entre os sambistas mineiros normalmente lembrados e entre os melhores do Brasil de todos os tempos. Melodista excepcional, deixou obra repleta de preciosidades, como “Na baixa do sapateiro”, “No tabuleiro da baiana”, “Foi ela” e “Aquarela do Brasil”, a música brasileira com mais registros no exterior. Como radialista, além de inovador na locução esportiva, liderou, com fama de impiedoso, um programa de calouros que marcou época. Foi conservador na política, integrando o antigo PSD.

Madelou Assis – Maria de Lourdes de Assis (1915 – 1956) do Rio de Janeiro, RJ. Garota da sociedade, teve repentina participação como intérprete profissional, abandonando a carreira artística ainda na juventude, após seu casamento ocorrido em 1934.

Sobre Francisco Alves – v. o artigo “Prá ninguém zombar de mim”.

SUSPIRO (Noel Rosa-Orestes Barbosa)


Samba-canção. Primeira gravação em 1959 com Aracy de Almeida (música sem data de composição conhecida).

Suspiro anseio secreto
Revelação que o afeto
Gemer que ninguém traduz
Suspiro triste recado
De um coração ansiado
Da desventura na cruz

Suspiro voz da desgraça
Voz da alegria que passa
Dando lugar ao sofrer
Suspiro o peito se cala
Na dor que tanto apunhala
E não se pode dizer

Suspiro anseio secreto
Revelação que o afeto
Gemer que ninguém traduz
Suspiro triste recado
De um coração ansiado
Da desventura na cruz

Suspiro que crueldade!
Tem que nascer da saudade
Enquanto o amor quiser
Eu já dei mais de mil giros
E a fonte dos meus suspiros
É sempre a mesma mulher

Sobre Orestes Barbosa – v. artigo “Prá ninguém zombar de mim”.

Sobre Aracy de Almeida – v. artigo “Era a lua que tudo assistia”.

FELICIDADE (Noel Rosa-Renê Bittencourt)


Samba. Primeira gravação em 1932 por Noel Rosa

Felicidade! Felicidade!
Minha amizade foi-se embora com você
Se ela vier e te trouxer
Que bom, felicidade que vai ser!

Trago no peito
O sinal duma saudade
Cicatriz de uma amizade
Que tão cedo vi morrer
Eu fico triste
Quando vejo alguém contente
Tenho inveja dessa gente
Que não sabe o que é sofrer

Felicidade! Felicidade!
Minha amizade foi-se embora com você
Se ela vier e te trouxer
Que bom, felicidade que vai ser!

O meu destino
Foi traçado no baralho
Não fui feito prá trabalho
Eu nasci prá batucar
Eis o motivo
Que do meu viver agora
A alegria foi-se embora
Prá tristeza vir morar

Felicidade! Felicidade!
Minha amizade foi-se embora com você
Se ela vier e te trouxer
Que bom, felicidade que vai ser!

Felicidade
Não está sempre ao nosso alcance
É o tema de um romance
Onde os corações são dois
Quando começa
A alegria nos domina
Com a tristeza ela termina
E a saudade vem depois

Renê Bittencourt – Renê Bittencourt Costa (23/12/1910 – 21/11/1979) do Rio de Janeiro, RJ. Compositor e jornalista, foi lançado no mundo da música por Noel Rosa, que compôs as três estrofes de “Felicidade”, completando o samba. Segundo João Máximo e Carlos Didier, Renê negou até a morte a participação do poeta da Vila na composição. A terceira estrofe, suprimida por Noel na primeira gravação, só foi revelada em 1952 por Chico Alves, em regravação que omite, entretanto, o nome de Noel no selo do disco. Três anos depois, René processa a gravadora Continental por indicar somente o nome de Noel como autor, em novo lançamento da música. Uma de canções de Renê Bittencourt mais conhecidas é a linda “Sertaneja”.

NUVEM QUE PASSOU (Noel Rosa)


Samba. Primeira gravação em 1932 com Francisco Alves (78 rpm, selo Odeon n° 10.927b)

A nossa imensa felicidade
Foi uma nuvem que já passou
O teu amor que traz saudade
Foi estrela que brilhou
E prá sempre se apagou

A mulher mente brincando
E às vezes brinca mentindo
Quando ri está chorando
E quando chora está sorrindo

Quero lembrar o passado
Por um prazer, uma dor
O amor é um pecado
Mas quem não ama é pecador

A nossa imensa felicidade
Foi uma nuvem que já passou
O teu amor que traz saudade
Foi estrela que brilhou
E prá sempre se apagou

Meu ideal foi desfeito
Não quero mais amizade
Para não trazer no peito
O atroz veneno da saudade

No céu do amor a saudade
Brilhando sempre ficou
E a nossa felicidade
Foi uma nuvem que passou

SILÊNCIO DE UM MINUTO (Noel Rosa)


Samba. Primeira gravação em 1940 com Marília Baptista. Primeira gravação com letra completa em 1951 com Aracy de Almeida (música de 1935).

Não te vejo e nem te escuto
O meu samba está de luto
Eu peço o silêncio de um minuto
Homenagem à história
De um amor cheio de glória
Que me pesa na memória

Nosso amor cheio de glória
De prazer e de ilusão
Foi vencido e a vitória
Cabe a tua ingratidão
Tu cavaste a minha dor
Com a pá do fingimento
E cobriste nosso amor
Com a cal do esquecimento

Não te vejo e nem te escuto
O meu samba está de luto
Eu peço o silêncio de um minuto
Homenagem à história
De um amor cheio de glória
Que me pesa na memória

Teu silêncio absoluto
Obrigou-me a confessar
Que meu samba está de luto
meu violão vai soluçar
Luto preto é vaidade
Neste funeral de amor
O meu luto é a saudade
E saudade não tem cor

Sobre Marília Baptista – v. artigo “Eu ando sem l’argent toujours!”

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