O Brasil de Noel

“Comparo o meu Brasil a uma criança perdulária, que anda sem vintém, mas tem a mãe que é milionária”

Noel Rosa, a cara do Brasil (Ilustração Luquefar)

Alguns estudiosos apresentam Noel de Medeiros Rosa como figura descomprometida politicamente. Até alienada. Se muito, compromissada com a rua. Não é bem assim… Que o moço de Vila Isabel não tem filiação política e não se liga a correntes organizadas de esquerda de sua época é certo. Mas, preocupam-lhe, entretanto, a vida das pessoas e as injustiças flagrantes naquele Brasil de 1930. Se não abraça a bandeira jovem de mudar o mundo, quer dizer ao mundo o que pensa!

Noel não abre mão deste desejo e com isso deixa contribuição preciosa às propostas de transformação. Realiza-a, a seu modo, a seu tempo, com elegância incomum. Seu protesto acontece através da música mostrando a dura realidade brasileira, como poucos profissionais da política fazem e com resultados mesmo interessantes. Na balança política torna-se peso favorável no lado dos mais fracos, por intuição de pensamento. E usa o samba para projetar o seu Brasil.

Para início de conversa, o Brasil de Noel está na voz de Noel. O poeta sabe cantar com gracejo (voz macia), como cantam as pessoas simples, sambistas de alma. Faz questão de cantar quase como se fala, pronunciando palavras sem afetações vocais, então em voga. O Brasil de Noel vive na sua aptidão de escrever com conhecimento de causa sobre assuntos diversos, com ousadia e irreverência: “tudo aquilo que o malandro pronuncia, com voz macia, é brasileiro, já passou de português”, dirá.

O Brasil de Noel se faz na simplicidade e no propósito que o impulsionam a observar e aprender com os cidadãos comuns. Noel se mistura a eles, aos seus jeitos de compor e de falar, e os mistura em sua criação melódica, brejeira e inspirada. O Brasil de Noel, finalmente, persiste no álbum de retratos preto e branco que coleciona com suas canções, imagem verídica de seu âmago e da natureza do mundo que o cerca. O Brasil que Noel deseja é o país que ajudamos hoje idear.

Na próxima edição, domingo, 17 de outubro: ÚLTIMO DESEJO

Músicas relacionadas

SÃO COISAS NOSSAS (Noel Rosa)

Samba. Primeira gravação em 1932 com Noel Rosa

Queria ser pandeiro
Prá sentir o dia inteiro
A tua mão na minha pele a batucar
Saudade do violão e da palhoça
Coisa nossa, coisa nossa
O samba, a prontidão
E outras bossas,
São nossas coisas
São coisas nossas!

Malandro que não bebe
Que não come
Que não abandona o samba
Pois o samba mata a fome
Morena bem bonita lá da roça
Coisa nossa, coisa nossa
O samba, a prontidão
E outras bossas
São nossas coisas
São coisas nossas!

Baleiro, jornaleiro
Motorneiro, condutor e passageiro
Prestamista e vigarista
E o bonde que parece uma carroça
Coisa nossa, muito nossa
O samba, a prontidão
E outras bossas
São nossas coisas
São coisas nossas!

Menina que namora
Na esquina e no portão
Rapaz casado com dez filhos, sem tostão
Se o pai descobre o truque dá uma coça
Coisa nossa, muito nossa
O samba, a prontidão
E outras bossas
São nossas coisas
São coisas nossas!

Prontidão – Novamente Noel citando a falta de dinheiro, como situação generalizada.

Motorneiro – Aquele que dirige o bonde.

Prestamista – O que empresta dinheiro a juros.

SAMBA DA BOA VONTADE (Noel Rosa-João de Barro)

Samba. Primeira gravação em 1931 com Noel Rosa, João de Barro e o Bando de Tangarás

(Campanha da boa vontade)

Viver alegre hoje é preciso
Conserva sempre o teu sorriso
Mesmo que a vida esteja feia
E que vivas na pinimba
Passando a pirão de areia

Gastei o teu dinheiro
Mas não tive compaixão
Porque tenho a certeza
Que ele volta à tua mão
Se ele acaso não voltar
Eu te pago com sorriso
E o recibo hás de passar
(Nesta questão solução sei dar)

Viver alegre hoje é preciso
Conserva sempre o teu sorriso
Mesmo que a vida esteja feia
E que vivas na pinimba
Passando a pirão de areia

Neste Brasil tão grande
Não se deve ser mesquinho
Quem ganha na avareza
Sempre perde no carinho
Não admito ninharia
Pois qualquer economia
Sempre acaba em porcaria
(Minha barriga não está vazia)

Viver alegre hoje é preciso
Conserva sempre o teu sorriso
Mesmo que a vida esteja feia
E que vivas na pinimba
Passando a pirão de areia

Comparo o meu Brasil
A uma criança perdulária
Que anda sem vintém
Mas tem a mãe que é milionária
E que jurou batendo o pé
Que iremos à Europa
Num aterro de café
(Nisto eu sempre tive fé)

Sobre João de Barro – v. artigo “Era a lua que tudo assistia”.

Sobre Bando de Tangarás – v. artigo “Eu ando sem l’argent toujours”.

Pinimba – É coisa funesta, coisa ruim. Na música, miséria mesmo.

QUEM DÁ MAIS? ou LEILÃO DO BRASIL (Noel Rosa)

Samba. Primeira gravação em 1933 com Noel Rosa (78 rpm, selo Odeon nº 10.931-a – música de 1930)

Quem dá mais?

Por uma mulata que é diplomada
Em matéria de samba e de batucada
Com as qualidades de moça formosa
Fiteira, vaidosa e muito mentirosa?
Cinco mil réis, duzentos mil réis, um conto de réis!

Ninguém dá mais de um conto de réis?
O Vasco paga o lote na batata
E em vez de barata
Oferece ao Russinho uma mulata

Quem dá mais?

Por um violão que toca em falsete
Que só não tem braço, fundo e cavalete
Pertenceu a Dom Pedro, morou no palácio
Foi posto no prego por José Bonifácio?
Vinte mil réis, vinte e um e quinhentos, cinqüenta mil réis!

(Ninguém dá mais de cinqüenta mil réis?)
Quem arremata o lote é um judeu
Quem garante sou eu
Prá vendê-lo pelo dobro no museu

Quem dá mais?

Por um samba feito nas regras da arte
Sem introdução e sem segunda parte
Só tem estribilho, nasceu no Salgueiro
E exprime dois terços do Rio de Janeiro?

Quem dá mais? Quem é que dá mais de um conto de réis?
(Quem dá mais? Quem dá mais? Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três!)
Quanto é que vai ganhar o leiloeiro
Que é também brasileiro
E em três lotes vendeu o Brasil inteiro?
Quem dá mais?

Russinho – João Máximo e Carlos Didier na biografia de Noel relatam sobre um concurso nacional em 1930, patrocinado por uma companhia de cigarros, que mexeu com o país e, no qual, o campeão foi Russinho do Vasco da Gama, com mais de 2,9 milhões de votos! O rapaz foi premiado com uma “baratinha” da Chrysler – como eram chamados os carros de corrida da época!

ONDE ESTÁ A HONESTIDADE? (Noel Rosa-Francisco Alves)

Samba. Primeira gravação em 1933 com Noel Rosa

Você tem palacete reluzente
Tem jóias e criados à vontade
Sem ter nenhuma herança, nem parente
Só anda de automóvel na cidade…
E o povo já pergunta com maldade:
Onde está a honestidade?
Onde está a honestidade?

O seu dinheiro nasce de repente
E, embora não se saiba se é verdade
Você acha nas ruas diariamente
Anéis, dinheiro e felicidade…
E o povo já pergunta com maldade:
Onde está a honestidade?
Onde está a honestidade?

Vassoura dos salões da sociedade
Que varre o que encontrar em sua frente
Promove festivais de caridade
Em nome de qualquer defunto ausente…
E o povo já pergunta com maldade:
Onde está a honestidade?
Onde está a honestidade?

Sobre Francisco Alves – v. artigo “Prá ninguém zombar de mim”.

NÃO TEM TRADUÇÃO (Noel Rosa)

Samba. Primeira gravação em 1934 com Francisco Alves (música de 1933)

O cinema falado
É o grande culpado da transformação
Dessa gente que sente
Que um barracão
Prende mais que o xadrez
Lá no morro, seu eu fizer uma falseta
A Risoleta
Desiste logo do francês e do inglês

A gíria que o nosso morro criou
Bem cedo a cidade aceitou e usou
Mais tarde o malandro deixou de sambar, dando pinote
E só querendo dançar o fox-trot

Essa gente hoje em dia
Que tem a mania da exibição
Não se lembra que o samba
Não tem tradução
No idioma francês
Tudo aquilo
Que o malandro pronuncia
Com voz macia é brasileiro
Já passou de português

Amor lá no morro é amor prá chuchu
As rimas do samba não são I love you
E esse negócio de alô
Alô boy, alô Johnny
Só pode ser conversa de telefone

Hello? – Apesar da importancia do idioma francês , de influência mundial, a partir principalmente da década de 30, o inglês começa a se alastrar pelo domínio econômico e tecnológico americano. A novidade do cinema falado é um vetor importante para a proliferação do inglês no Brasil, influenciando nosso modo de comunicação e de expressão. Noel, como sempre magnífico, criativo e com finíssima ironia, trata do assunto. E até Francisco Alves cede, diante da naturalidade dos versos desta “Não tem tradução”, com interpretação “falada”, ao gosto Noel Rosa.

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6 respostas para O Brasil de Noel

  1. José Carlos Alves disse:

    Parabéns, pelo seu belo artigo, como vemos o Brasil continua como dantes no quartel de Abrantes, quer seja na vida social, política, educação, economica e por aí vai, o povo continua na mesma, os políticos são sempre os mesmos, usando das mesmas artimanhas. E aí lhe pergunto: ONDE ESTÁ A HONESTIDADE???????????

    • toninhocamargos disse:

      José Carlos

      Agradecemos por mais este seu comentário. O Brasil se orgulha de filhos como Noel Rosa.

      Um abraço,

      Toninho / Regina / Luiz Henrique

  2. OSWALDO CRUZ VIDAL disse:

    Noel, se referindo à “PRONTIDÃO” está se referindo ao governo e exército que estava sempre “de prontidão” devido a revoltas populares e pequenos (ou grandes) surtos revolucionários. Nada a haver com falta de dinheiro no sentido de “estar pronto”

    • toninhocamargos disse:

      Oswaldo,
      Agradecemos pela colaboração e por mais esta interpretação. Acompanhe as novidades.

      Um abraço,
      Regina / Luiz Henrique / Toninho

  3. CARLINHOS NOGUEIRA disse:

    Se tentássemos traduzir NOEL ROSA, concluiríamos o seguinte:
    NOEL ROSA, “NÃO TEM TRADUÇÃO”.
    CARLINHOS NOGUEIRA – Cantor e Compositor

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