Noel por Noel

SÉRIE: NOEL E SEUS INTÉRPRETES

Esta é a antepenúltima edição do Blog. Em sua nova fase, enfoca Noel Rosa relacionado aos cantores, principais responsáveis por torná-lo conhecido do grande público, com a gravação de sua obra. A série original NOEL ROSA – 100 CANÇÕES PARA O CENTENÁRIO já se completou e você pode acompanhá-la integralmente clicando artigos anteriores a 31 de outubro de 2010.

NOEL POR NOEL

Noel por Noel (auto-retrato de Noel Rosa)

O cantor Noel Rosa afirma, seguro, o pensamento do compositor. Cadenciado, sem pressa, sem pedantismos, sem presunção, a interpretação de Noel marca o tom da modernidade na música nos anos 1930. A asserção da nacionalidade da arte na Semana de 1922 chega à música popular comercial na década de Noel Rosa. A melodia ganha maior conexão com a terra, seus versos ditos com elegância, candura e com a maciez da voz, mais próxima do tom natural da fala.

O pensamento de Noel Rosa se expressa através da música, de sua lavra. Seu modo de ver o mundo é crítico – irônico, satírico; o jovem compositor não abre mão de dizer o que pensa, desde os primeiros passos na investida profissional. A vida, em tom de brincadeira, é coisa séria: cenas corriqueiras, hipocrisias, desigualdades sociais se expõem através de sua criação. E o Brasil vê-se bem retratado. Até sua morte, Noel Rosa foi o seu principal intérprete, gravando a maior parte de suas composições.

Ninguém mais adequado que o próprio Noel para dizer seu pensamento. A voz mirrada adquire força e forma convincentes ao cantar com precisão os belos versos de sua extensa obra. Doloridos e, ao mesmo tempo, cheios de graça. Versos inspirados na experiência cotidiana, fruto de seu olhar astuto e observador; produto de sua personalidade incomum, de sua sabedoria. Compositor talentoso, poeta divino, domina a magia do canto com simplicidade.

E quem quiser entender o papel inovador de Noel Rosa para o seu tempo, além de atentar à sua proposição melódica, que redefine o samba, de compreendê-lo em seu texto, que aproxima ainda mais o texto das melodias brasileiras da poesia, terá que ouvir atentamente os seus importantes registros fonográficos, entre 1930 e 1936. Talvez por isso só tenha encontrado melhor reconhecimento anos depois de morrer. O cantor Noel Rosa é imprescindível à música brasileira.

Próxima edição, domingo, 5 de dezembro: NOEL VIVO NO SÉCULO XXI

Músicas relacionadas

FESTA NO CÉU (Noel Rosa)

Toada. Primeira gravação em 1930 com Noel Rosa (78 rpm, selo Parlophon nº 13.185. Música de 1929)

O leão ia casá
Com sua noiva leoa,
E São Pedro, prá agradá
Preparou uma festa boa
Mandou logo um telegrama
Convidando o bicho macho
Que levasse todas dama
Que existisse cá por baixo

Pois tinha uma bela mesa
E um piano no salão
Findo o baile, por surpresa
No banquete do leão
Os bicho todo avisado
Tavam esperando o dia
Tudo tava preparado
Prá entrá enfim na orgia

E no tar dia marcado
Os bicho tomaro banho
Foru pro céu alinhado
Tudo em ordem por tamanho
O mosquito entrou na sala
Com um charuto na boca
Percevejo de bengala
E a barata entrou de toca

Zunindo qual uma seta,
Veio o pingüim do Pólo
O peixe de bicicleta
Como o tamanduá no colo
O siri chegou atrasado
No bico de um passarinho
Pois muito tinha custado
Prá bota seu colarinho

E o gato foi de luva
Para assisti o casório
Jacaré de guarda-chuva
E a cobra de suspensório
O porco de terno branco
Com um sapato sem sola
E o tigre de tamanco
De casaco e de cartola

De lacinho à borboleta
Veio o veado galheiro
E o burro de luneta
Montado num carroceiro
O macaco com a macaca
Com rouge pelo focinho
Estava engraçada a vaca
De porta-seio e corpinho

Vou breviá o discurso
Prá não dizê tantos nome
Lá foi a mulhê do urso
De cabeleira a la home
Quando o leão foi entrando
São Pedro muito se riu
E pro bicho foi gritando
– Caiu 1º de abril!

A presença do nordeste – “Festa no Céu” foi a música de estréia na vida profissional de Noel, no tempo do Bando dos Tangarás – grupo do qual participou, que trazia forte influência da estética caipira e do nordeste. “Minha viola” e “Mulata fuzarqueira” têm também esta marca.

MINHA VIOLA (Noel Rosa)

Embolada. Primeira gravação em 1930 com Noel Rosa (78 rpm, selo Parlophon nº 13.185. Música de 1929).

Minha viola
Tá chorando com razão
Por causa duma marvada
Que roubou meu coração

Eu não respeito cantadô que é respeitado
Que no samba improvisado
Me quisé desafiá
Inda outro dia fui cantá no galinheiro
O galo andou o mês inteiro
Sem vontade de cantá

Nesta cidade todo mundo se acautela
Com a tar de febre amarela
Que não cansa de matá
E a dona Chica que anda atrás de mal conselho
Pinta o corpo de vermelho
Pro amarelo não pegá

Minha viola
Ta chorando com razão
Por causa duma marvada
Que roubou meu coração

Eu já jurei não jogá com seu Saldanha
Que diz sempre que me ganha
No tal jogo do bilhar
Sapeca o taco nas bola de tal maneira
Que eu espero a noite inteira
Prás bola carambolá

Conheço um véio que tem a grande mania
De fazê economia
Prá modelo de seus filho
Não usa prato, nem moringa, nem caneca
E quando senta é de cueca
Prá não gastar os fundilho

Minha viola
Ta chorando com razão
Por causa duma marvada
Que roubou meu coração

Eu tive um sogro cansado dos rega-bofe
Que procurou o Voronoff
Doutô muito creditado
E andam dizendo que o enxerto foi de gato
Pois ele pula de quatro
Miando pelos telhado

Adonde eu moro tem o bloco dos filante
Que quase que a todo instante
Um cigarro vem filá
E os danado vem bancando inteligente
Diz que tão com dor de dente
Que o cigarro faz passá

Minha viola
Ta chorando com razão
Por causa duma marvada
Que roubou meu coração

Carambolar – No jogo de bilhar, é o choque sucessivo de uma bola contra as outras duas.

Rega-bofe – Festa com muita comida e bebida.

Voronoff – Em 1928 o Dr. Serge Voronoff, de descendência incerta, visitou o Brasil para divulgar sua técnica de “xenotransplante”, que é o transplante de células, tecidos ou órgão de uma espécie para outra. Ele prometia rejuvenescimento e longevidade! Chegou a realizá-lo em pacientes brasileiros e de várias nacionalidades (utilizando órgãos de animais). Caiu nas graças dos nossos compositores – Noel, com “Minha viola” e os parceiros Lamartine Babo e João Rossi com “Seu Voronoff”: “(…) A velhice na cidade / Canta em coro a nova estrofe / Já se sente a mocidade / Que lhe trouxe o Voronoff / Seu Voronoff / Seu Voronoff / Numa grande operação / Faz da tripa coração (…)”.

MULATA FUZARQUEIRA (Noel Rosa)

Samba. Primeira gravação em 1931 com Noel Rosa e Bando dos Tangarás (78 rpm, selo Parlophon nº 13.327)

Mulata fuzarqueira, artigo raro
Que samba de dá rasteira
E passa as noite inteira em claro
Não qué mais sabê de prepará as gordura
Nem cuidá mais das costura
O bom exemplo já te dei
Mudei a minha conduta
Mas agora me aprumei

Mulata fuzarqueira da Gamboa
Só anda com tipo à toa
Embarca em qualquer canoa
Mulata fuzarqueira da Gamboa
Ô… ô… embarca em qualquer canoa

Mulata, vou contá as minhas mágoa
Meu amô não tem erre
Mas é amô debaixo d’água !
Não gosto de te vê sempre a fazê certos papel
A se passá pros coronel …
Nasceste com uma boa sina
Se hoje andas bem no luxo
É passando a beiçolina

Mulata fuzarqueira da Gamboa
Só anda com tipo à toa
Embarca em qualquer canoa
Mulata fuzarqueira da Gamboa
Ô… ô… embarca em qualquer canoa

Mulata, tu tem que te prepará
Prá recebê o azá
Que algum dia há de chegá
Aceita o meu braço e vem entrá nas comida
Prá começá outra vida
Comigo tu podes vivê bem
Pois aonde um passa fome
Dois pode passá também

Mulata fuzarqueira da Gamboa
Só anda com tipo à toa
Embarca em qualquer canoa
Mulata fuzarqueira da Gamboa
Só anda com tipo à toa
Embarca em qualquer canoa

Passar Beiçolina – Passar “beiço”. Deixar de pagar dívidas. Dar calote

Fuzarqueira – Aquela que gosta de fuzarca, bagunceira, farrista.

BOM ELEMENTO (Noel Rosa-Quindinho)

Samba. Primeira gravação em 1931 com Arthur Costa e Noel Rosa (78 rpm, selo Colúmbia nº 22.023. Música de 1930).

Entrei no samba
Os malandros perguntaram
Se eu era bamba
No bater do tamborim
E o batuque
Eles logo improvisaram
Eu dei a cadência assim:

Meu bem, o valor dá-se a quem tem
A Vila e a Aldeia não perdem prá ninguém
(O que é que tem?)
Meu bem, o valor dá-se a quem tem
A Vila e a Aldeia não perdem prá ninguém

Com violência
Enfrentei a batucada
A harmonia
Do meu simples instrumento
Fez toda a turma
Ficar muito admirada
Porque sou bom elemento

Meu bem, o valor dá-se a quem tem
A Vila e a Aldeia não perdem pra ninguém
(Não diga, meu bem…)
Meu bem, o valor dá-se a quem tem
A Vila e a Aldeia não perdem prá ninguém

Quindinho (Euclydes Josephino Silva e Silveira). Compositor. Provavelmente do Rio de Janeiro, da Aldeia Campista, bairro vizinho à Vila Isabel. O livro de João Máximo e Carlos Didier o descreve como branco, alto, magro, com gestos e gírias do morro carioca.

Sobre Arthur Costa – v. artigo “Eu ando sem l’argent toujours”.

NUNCA… JAMAIS (Noel Rosa)

Samba. Primeira gravação em 1931 com Noel Rosa (78 rpm, selo Victor nº 33.488)

Meu bem,
Não me faças sofrer
Tu queres ter
Liberdade demais
Os homens
Tu conquistas um por um
Sem amar nenhum
Não, não pode ser
Nunca… jamais
Em tempo algum

Qualquer dia eu morro de um acesso
Só por ver o teu processo
De iludir os coronéis
Qualquer dia eu perco a paciência
Digo uma inconveniência
E depois te meto os pés
(E vou pagar vinte mil réis)

Deste a todo mundo tua mão
E teu pobre coração
Mas parece uma estalagem
Para salvação o que desejo
É mandar fazer o despejo
Pra poder descer bagagem
(Mas é preciso ter coragem)

Meu bem
(Meu bem)
Não me faças sofrer
(Não me faças sofrer)
Tu queres ter
(Tu queres ter)
Liberdade demais
(Liberdade demais)
Os homens
Tu conquistas um por um
Sem amar nenhum
Não, não pode ser
Nunca… jamais
Em tempo algum

Nada de ti posso aproveitar
Nada tens para me dar
Nem tens nota prá pintura
Todo mundo sabe que és pobre
Não herdaste o sangue nobre
E abusaste da feiúra
(Pra quem é pobre a lei é dura)

Noel cantor – Além das gravações desta semana, em 15 dos 21 primeiros posts do blog você encontrará o Noel cantor. São registros magníficos que merecem atenção especial.

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