E saudade não tem cor

“Para o bom entendedor meia palavra… não basta, porque ele sempre exige o ‘porquê’ do seu interlocutor.”

A estrela de Noel Rosa (ilustração Luquefar)

Vem do latim nossa “saudade”, da mesma origem de solidão e solitário e a utilizamos desde o século XIII para definirmos esta espécie de angústia temporal. Talvez por isto todos a conheçam e, do mais simples ao mais escolado cidadão, saibam de cor sua coloração, suas afinidades, seus contrastes: mescla de dor e prazer, de desejo e impossibilidade. A saudade nos afeta, sufoca, chega a matar, mas traz também efeito contrário, quando nos remete às boas coisas da vida e revigora o espírito.

A saudade entranhada do sentimento português é tão especial que outros povos não conseguem conceituá-la com uma só palavra. Tentam através de expressões decifrar seu significado sem, no entanto, defini-la verdadeiramente. Buscam compará-la à nostalgia, melancolia, tristeza. E nada disso representa de fato a saudade – assimilada pelo brasileiro de um modo singular e sobre a qual traz na ponta da língua sua significação.

Nem mesmo dicionários conseguem defini-la bem, por ser palavra única: “sentimento mais ou menos melancólico de incompletude, ligado pela memória a situações de privação da presença” ou “lembrança grata de pessoa ausente ou de coisa de que nos vemos privados”. Certo é que saudade é um efeito complexo do sentir em todo e qualquer ser humano, e nosso processo cultural soube retratá-lo com palavra de grande beleza sonora, simbólica e poética. Saudade é pra ser vivida.

Se no céu do amor brilha a estrela da manhã, seu brilho nos remete ao que vivemos ou que queremos reviver. “Saudade é amor que fica”, diz algum anjo da rua. Quando começa um romance, a alegria toma conta de nós; mas, quando a alegria nos abandona, vem a  saudade… E se esta vier para nos alegrar de novo, que bom, felicidade que vai ser, não é? Uma saudade e um amor presente nos motivam neste centenário. Saudade boa, que não deixa Noel Rosa ir-se embora!

Na próxima edição, domingo, 19 de setembro: A MORADA DO SAMBA

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ESTRELA DA MANHÃ (Noel Rosa-Ary Barroso)

Samba. Primeira gravação em 1934 com Francisco Alves e Madelou Assis (música de 1933).

A estrela da manhã
Quando brilha na amplidão
Faz lembrar uma saudade
Que guardei no coração

Quando à noite olho as estrelas
A brilhar no firmamento
Fico distraída ao vê-las
Esquecendo o meu tormento

A estrela da manhã
Quando brilha na amplidão
Faz lembrar uma saudade
Que guardei no coração

E dos amores que tive
A gozar a mocidade
Só um no meu peito vive
Sob a forma de saudade

Ary Barroso – Ary de Resende Barroso (7/11/1903 – 9/2/1964) de Ubá, MG. Cantor, compositor, pianista, radialista e político. Está entre os sambistas mineiros normalmente lembrados e entre os melhores do Brasil de todos os tempos. Melodista excepcional, deixou obra repleta de preciosidades, como “Na baixa do sapateiro”, “No tabuleiro da baiana”, “Foi ela” e “Aquarela do Brasil”, a música brasileira com mais registros no exterior. Como radialista, além de inovador na locução esportiva, liderou, com fama de impiedoso, um programa de calouros que marcou época. Foi conservador na política, integrando o antigo PSD.

Madelou Assis – Maria de Lourdes de Assis (1915 – 1956) do Rio de Janeiro, RJ. Garota da sociedade, teve repentina participação como intérprete profissional, abandonando a carreira artística ainda na juventude, após seu casamento ocorrido em 1934.

Sobre Francisco Alves – v. o artigo “Prá ninguém zombar de mim”.

SUSPIRO (Noel Rosa-Orestes Barbosa)

Samba-canção. Primeira gravação em 1959 com Aracy de Almeida (música sem data de composição conhecida).

Suspiro anseio secreto
Revelação que o afeto
Gemer que ninguém traduz
Suspiro triste recado
De um coração ansiado
Da desventura na cruz

Suspiro voz da desgraça
Voz da alegria que passa
Dando lugar ao sofrer
Suspiro o peito se cala
Na dor que tanto apunhala
E não se pode dizer

Suspiro anseio secreto
Revelação que o afeto
Gemer que ninguém traduz
Suspiro triste recado
De um coração ansiado
Da desventura na cruz

Suspiro que crueldade!
Tem que nascer da saudade
Enquanto o amor quiser
Eu já dei mais de mil giros
E a fonte dos meus suspiros
É sempre a mesma mulher

Sobre Orestes Barbosa – v. artigo “Prá ninguém zombar de mim”.

Sobre Aracy de Almeida – v. artigo “Era a lua que tudo assistia”.

FELICIDADE (Noel Rosa-Renê Bittencourt)

Samba. Primeira gravação em 1932 por Noel Rosa

Felicidade! Felicidade!
Minha amizade foi-se embora com você
Se ela vier e te trouxer
Que bom, felicidade que vai ser!

Trago no peito
O sinal duma saudade
Cicatriz de uma amizade
Que tão cedo vi morrer
Eu fico triste
Quando vejo alguém contente
Tenho inveja dessa gente
Que não sabe o que é sofrer

Felicidade! Felicidade!
Minha amizade foi-se embora com você
Se ela vier e te trouxer
Que bom, felicidade que vai ser!

O meu destino
Foi traçado no baralho
Não fui feito prá trabalho
Eu nasci prá batucar
Eis o motivo
Que do meu viver agora
A alegria foi-se embora
Prá tristeza vir morar

Felicidade! Felicidade!
Minha amizade foi-se embora com você
Se ela vier e te trouxer
Que bom, felicidade que vai ser!

Felicidade
Não está sempre ao nosso alcance
É o tema de um romance
Onde os corações são dois
Quando começa
A alegria nos domina
Com a tristeza ela termina
E a saudade vem depois

Renê Bittencourt – Renê Bittencourt Costa (23/12/1910 – 21/11/1979) do Rio de Janeiro, RJ. Compositor e jornalista, foi lançado no mundo da música por Noel Rosa, que compôs as três estrofes de “Felicidade”, completando o samba. Segundo João Máximo e Carlos Didier, Renê negou até a morte a participação do poeta da Vila na composição. A terceira estrofe, suprimida por Noel na primeira gravação, só foi revelada em 1952 por Chico Alves, em regravação que omite, entretanto, o nome de Noel no selo do disco. Três anos depois, René processa a gravadora Continental por indicar somente o nome de Noel como autor, em novo lançamento da música. Uma de canções de Renê Bittencourt mais conhecidas é a linda “Sertaneja”.

NUVEM QUE PASSOU (Noel Rosa)

Samba. Primeira gravação em 1932 com Francisco Alves (78 rpm, selo Odeon n° 10.927b)

A nossa imensa felicidade
Foi uma nuvem que já passou
O teu amor que traz saudade
Foi estrela que brilhou
E prá sempre se apagou

A mulher mente brincando
E às vezes brinca mentindo
Quando ri está chorando
E quando chora está sorrindo

Quero lembrar o passado
Por um prazer, uma dor
O amor é um pecado
Mas quem não ama é pecador

A nossa imensa felicidade
Foi uma nuvem que já passou
O teu amor que traz saudade
Foi estrela que brilhou
E prá sempre se apagou

Meu ideal foi desfeito
Não quero mais amizade
Para não trazer no peito
O atroz veneno da saudade

No céu do amor a saudade
Brilhando sempre ficou
E a nossa felicidade
Foi uma nuvem que passou

SILÊNCIO DE UM MINUTO (Noel Rosa)

Samba. Primeira gravação em 1940 com Marília Baptista. Primeira gravação com letra completa em 1951 com Aracy de Almeida (música de 1935).

Não te vejo e nem te escuto
O meu samba está de luto
Eu peço o silêncio de um minuto
Homenagem à história
De um amor cheio de glória
Que me pesa na memória

Nosso amor cheio de glória
De prazer e de ilusão
Foi vencido e a vitória
Cabe a tua ingratidão
Tu cavaste a minha dor
Com a pá do fingimento
E cobriste nosso amor
Com a cal do esquecimento

Não te vejo e nem te escuto
O meu samba está de luto
Eu peço o silêncio de um minuto
Homenagem à história
De um amor cheio de glória
Que me pesa na memória

Teu silêncio absoluto
Obrigou-me a confessar
Que meu samba está de luto
meu violão vai soluçar
Luto preto é vaidade
Neste funeral de amor
O meu luto é a saudade
E saudade não tem cor

Sobre Marília Baptista – v. artigo “Eu ando sem l’argent toujours!”

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Sem humor não tem graça

“Se um burro pensasse… oferecia capim ao carroceiro.”

"Na minha casa só se come em prato fun-d-o-do" Noel Rosa (Ilustração Luquefar)

Sem humor não tem graça! – poderia dizer Noel. E não tem mesmo. Nossa alma carece da alegria para aliviar-se, descansar e se refazer da batida diária. Não é fácil tirar alguém do sério (não sendo para tirar-lhe a paciência, deixá-lo com nervos à flor da pele, o que é fácil). Difícil é dominá-lo e conduzi-lo aos prantos do riso. O humor tem tempo milimétrico e mágico. Vem do inesperado, do desconhecido, do ilógico ou do exagero, e vive intimamente integrado à tristeza e amargura, como na figura de Chaplin e de Noel.

Olhem o poeta! Todo o desgosto do mundo cabe no seu coração, e, no entanto, ele é um tipo divertido e astuto. Tem pensamento ágil e domina com maestria o tempo do humor; irônico, satírico, nonsense ou sarcástico. Faz sua obra músico-literária repleta de dissimulações, sutilezas, insinuações e indiretas, geralmente jogadas com bons propósitos. Digo, propósitos do humor… Sempre irreverente, o jovem enche de alegria a criação musical brasileira, deixando novas bossas para seu tempo no rumo da evolução.

A prática está com Noel desde os tempos do colégio São Bento, quando ridicularizava professores nas páginas de um jornalzinho que ele mesmo bolava e editava, sendo também a atração nos recreios cantando suas sátiras das canções da época, principalmente aquelas que derramavam a verborragia parnasiana.

O mestre do samba, do amor, da paixão, é também grande no gracejo. Traz o sonho da felicidade e tem a tristeza repleta de comicidade, de picardia, de tempero. Com muita pimenta. Quem não conhece se espanta com sua genialidade, com o assalto, com a peripécia, tanto para o cômico, quanto para o infortúnio. A vasta obra de Noel Rosa, apesar de interrompida pela vida que lhe foi tirada aos 26 anos, é completa e bem acabada. E para o nosso júbilo, cheia de graça.

Na próxima edição, domingo, 12 de setembro: E SAUDADE NÃO TEM COR

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PRATO FUNDO (Noel Rosa-João de Barro)

Marcha. Primeira gravação em 1933 com Almirante (78 rpm, selo Victor n° 33.623b)

Se como tanto
Aprendi com a minha avó
Na minha casa
Só se come em prato fun-d-o-dó

A minha mana
Para esperar o almoço
Come casca de banana
Depois engole o caroço
E o meu titio
Faz vergonha a todo instante
Foi ao circo com fastio
E engoliu o elefante

Se como tanto
Aprendi com a minha avó
Na minha casa
Só se come em prato fun-d-o-dó

A minha tia
Já engoliu uma fruteira
Estou vendo ainda o dia
Que ela almoça a cozinheira
E depois disso
Leva sempre a dar palpite
Toma chumbo derretido
Para abrir o apetite

Se como tanto
Aprendi com a minha avó
Na minha casa
Só se come em prato fun-d-o-dó

Meu bisavô
Que era um índio botocudo
Devorou a tribo inteira
Com pajé, cacique e tudo
E a minha avó
Que comia à portuguesa
Reduziu dois bois a pó
E inda quis a sobremesa

Sobre João de Barro – v. artigo “Era a lua que tudo assistia”

Sobre Almirante – v. artigo “Prá ninguém zombar de mim”

Marcha – no Brasil, um gênero que virou carnavalesco. Aliás, típica da criatividade brasileira essa transformação de ritmo marcial, rígido, solene em música de foliões, solta e divertida. As marchas eram lançadas anualmente para o público, alguns meses antes da grande festa popular. Assuntos diversos: a vida alheia, o cotidiano, a política, as conquistas amorosas – tudo tratado sempre com muito humor. Bom humor era a regra, era a lei. Noel esteve muito próximo de dois grandes das marchinhas: João de Barro (como nesta “Prato Fundo”) e Lamartine Babo, que virá abaixo.

A E I O U (Noel Rosa-Lamartine Babo)

Marcha. Primeira gravação em 1932 com Lamartine Babo (78 rpm, selo Victor n° 33.503a) música de 1931

(Uma, duas, angolinhas
Finca o pé na pampulinha
Ciranda, cirandinha
Vamos todos cirandar)

A E I O U
Dabliú, dabliú
Na cartilha da Juju, Juju

A Juju já sabe ler
A Juju sabe escrever
Há dez anos na cartilha
A Juju já sabe ler
A Juju sabe escrever
Escreve sal com cê cedilha!

A E I O U
Dabliú, dabliú
Na cartilha da Juju, Juju

Sabe conta de somar
Sabe até multiplicar
Mas, na divisão se enrasca
Outro dia fez um feio
Pois partindo um queijo ao meio
Quis me dar somente a casca!

A E I O U
Dabliú, dabliú
Na cartilha da Juju, Juju

Sabe História Natural
Sabe História Universal
Mas não sabe Geografia
Pois com um cabo se atracando
Na bacia navegando
Foi prá Ásia e teve azia

A E I O U
Dabliú, dabliú
Na cartilha da Juju, Juju

(Vamos para o requêio?
Me dá um bolo?
Deixa eu beber água, deixa?
Fessola, deixa eu comprá um pitolé, deixa?)

A E I O U
Dabliú, dabliú
Na cartilha da Juju, Juju

Sobre Lamartine Babo – v. artigo “Era a lua que tudo assistia”

Angolinhas – galinhas d’angola.

Pampulinha – o mesmo que argolinha.

Dabliú – a letra dábliu (W), na melodia acentuada como oxítona, era muitas vezes utilizada com som da vogal “u”. Pertenceu ao alfabeto português naquela época, e agora, com a nova ortografia, voltou a integrá-lo.

MULHER INDIGESTA (Noel Rosa)

Samba. Primeira gravação em 1932 com Noel Rosa

Mas que mulher indigesta! Indigesta!
Merece um tijolo na testa

Essa mulher não namora
Também não deixa mais ninguém namorar
É um bom center-half prá marcar
Pois não deixa a linha chutar

Mas que mulher indigesta! Indigesta!
Merece um tijolo na testa

E quando se manifesta
O que merece é entrar no açoite
Ela é mais indigesta do que prato
De salada de pepino à meia-noite

Mas que mulher indigesta! Indigesta!
Merece um tijolo na testa

Essa mulher é ladina
Toma dinheiro, é até chantagista
Arrancou-me três dentes de platina
E foi logo vender no dentista

Center-half – beque central, no futebol de campo. A biografia de João Máximo e Carlos Didier atribui a dedicatória da canção à vizinha rabugenta de uma das namoradas de Noel, que não dava sossego ao casal.

GAGO APAIXONADO (Noel Rosa)

Samba. Primeira gravação em 1931 com Noel Rosa (78 rpm, selo Colúmbia n° 22.023b)

Mu-mu-mulher, em mim fi-fizeste um estrago
Eu de nervoso estou-tou fi-ficando gago
Não po-posso com a cru-crueldade da saudade
Que que mal-maldade, vi-vivo sem afa…go

Tem tem pe-pena deste mo-moribundo
Que que já virou va-va-va-va-ga-gabundo
Só só só só por ter so-so-sofri-frido
Tu tu tu tu tu tu tu tu
Tu tens um co-coração fi-fi-fingido

Mu-mu-mulher, em mim fi-fizeste um estrago
Eu de nervoso estou-tou fi-ficando gago
Não po-posso com a cru-crueldade da saudade
Que que mal-maldade, vi-vivo sem afago

Teu teu co-coração me entregaste
De-de-pois-pois de mim tu to-toma-maste
Tu-tua falsi-si-sidade é pro-profunda
Tu tu tu tu tu tu tu tu
Tu vais fi-fi-ficar corcunda!

Carro-chefe -  Luiz Barbosa, cantor e ritmista, dá um show de percussão batendo um lápis nos dentes. O grande músico Luiz Americano brinca no clarinete, enquanto Noel canta e se acompanha ao violão. O Gago Apaixonado tornou-se uma espécie de carro-chefe do repertório de Noel.

Se-sen…sa-saci…onal! – É como nos diria um ga-gago ao ouvir este sam-samba.

O QUE É QUE VOCÊ FAZIA (Noel Roa-Hervê Cordovil)

Marcha. Primeira gravação em 1936 com Carmem Miranda (78 rpm, selo Odeon n° 11.324ª) música de 1935

Deitado num trilho de um trem
Estando amarrado e amordaçado
Sabendo que o maquinista
Não é seu parente
Nem olha prá frente
O que é que você fazia?
Eu nesse caso nem me mexia

Sentado, olhando um cachorro
Que da sua mão tirou o seu pão
Sabendo que o seu bilhete
Que está premiado
Também foi roubado
O que é que você fazia?
Eu nesse caso nem me mexia

Se um dia sua sogra bebesse
Um gole pequeno de um grande veneno
E por um capricho da sorte
Ou de algum doutorzinho
Ela ficasse mais forte
O que é que fazia o senhor?
- Eu nesse caso matava o doutor
E o que é que você fazia?
Eu nesse caso desaparecia

Hervê Cordovil – (3/2/1914) de Viçosa, MG. Compositor, pianista e advogado. Teve destacada atuação como pianista, integrando conjuntos que atuaram no rádio brasileiro nos anos 1930 até 1960. Foi autor de “Sabiá lá na Gaiola” em parceria com Mário Vieira, sucesso de Carmélia Alves. Para seu filho Ronnie Cord  compôs o rock“Rua Augusta” e fez a versão  “Biquíni de bolinha amarelinha”.

Sobre Carmem Miranda – v. artigo “Amor tom de cinza”.

Eu nem me mexia! – Este é um exemplo de interpretação que confirma todo o talento de Carmen Miranda. Sem dúvida, onde Elis Regina também buscou inspiração.

O veneno da sogra – Nesta marcha Noel, de uma nova perspectiva, retoma um tema de início de carreira, tratado em “Cordiais Saudações” (v. o artigo “Eu ando sem l’argent toujours”).

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O fado dos mestres

“A mulher é o aperitivo que ajuda o homem a comer o prato indigesto da vida”

O olhar de Noel Rosa (Ilustração Luquefar)

Clara, Fina, Lindaura, Juninha e Ceci são garotas que inquietam o coração de Noel. Chamam-lhe a atenção. Lindaura, a mais jovem, engravida-se dele, o que o obriga a firmar compromisso. Mesmo perdendo o filho durante a gestação, vai acompanhá-lo como esposa inclusive nos momentos de grave crise de saúde, cada vez mais comuns, até o seu final que não virá distante. Na verdade, os dois jamais viverão juntos de fato. E ela já bem conhece o mal do amor…

Os olhos de Noel estão voltados para outra atração: a dançarina de um cabaré da Lapa; desde o primeiro encontro estão caídos pela dama. Querem conquistá-la. Estão hipnotizados pela grande paixão. Formosa, irretocável, sublime é como a vêem estes olhos desvairados de amor cego e não correspondido. Ceci vai roubar pensamentos em cada minuto da vida deste encantado, que lhe dedica canções extraordinárias e cruéis, típicas de quem sofre tanto quanto ama. Mas sofre demais.

Noel conhece o amor na sua forma profunda e contundente. Amor de marcar o peito e arrebatar de paixão. Por que há de ser assim tão difícil, meu Deus?  Por que sofrer de amor, por quê? Será um momento decisivo para quem também se vê condenado pelo mal de saúde que já destrói outros conhecidos e que torna frágil sua existência. Às noitadas (sem as quais não há sentido algum), aos amigos, à bebida e ao cigarro que não o abandona, soma-se agora o amor impossível por Ceci.

Quando vem ao mundo parece predestinado, como se fez, ao sofrimento. Mas Noel cumpre fado mais digno, de mestres, que padecem para harmonizar, para trazer boas novas. Vai amar profundamente e morrer do amor e, sem que tenha ciência, fará com que nunca mais sejamos os mesmos, para não mais deixá-lo morrer. Morrer do amor ou sobreviver dele é o desígnio maior dos melhores poetas da vida, daqueles que sabem sem modéstia sofrer com arte, como Noel Rosa.

Na próxima edição, domingo, 5 de setembro: SEM HUMOR NÃO TEM GRAÇA!

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DAMA DO CABARÉ (Noel Rosa)

Samba. Primeira gravação em 1936 com Orlando Silva (78 rpm, selo Victor n° 34.085a)

Foi num cabaré na Lapa
Que eu conheci você
Fumando cigarro
Entornando champanhe no seu soirée
Dançamos um samba,
Trocamos um tango por uma palestra
Só saímos de lá meia hora
Depois de descer a orquestra

Em frente à porta um bom carro nos esperava
Mas você se despediu e foi prá casa a pé
No outro dia lá nos Arcos eu andava
À procura da dama do cabaré

Eu não sei bem se chorei no momento em que lia
A carta que recebi, não me lembro de quem
Você nela me dizia que quem é da boemia
Usa e abusa da diplomacia
Mas não gosta de ninguém

Sobre Orlando Silva – v. artigo “Era a lua que tudo assistia”.

PELA PRIMEIRA VEZ (Noel Rosa-Cristóvão de Alencar)

Samba. Primeira gravação em 1936 com Orlando Silva (78 rpm, selo Victor n° 34.061a)

Pela primeira vez na vida
Sou obrigado a confessar que amo alguém
Chorei quando ela deu a despedida
Ela me vendo a chorar chorou também
Meu Deus, faça de mim o que quiser
Mas não me faça perder
O amor desta mulher

Na estação, na hora de partir o trem
Ela me vendo a chorar chorou também
Depois fiquei olhando a janela
Até sumir numa curva o lenço dela

Pela primeira vez na vida
Sou obrigado a confessar que amo alguém
Chorei quando ela deu a despedida
Ela me vendo a chorar chorou também
Meu Deus, faça de mim o que quiser
Mas não me faça perder
O amor desta mulher

Se meu amor não regressar, irei também
À estação na hora de partir o trem
E nunca mais assisto uma partida
Prá não lembrar mais daquela despedida

Cristóvão de Alencar – Armando de Lima Reis (8/1/1910 – 23/11/1983) paulistano, desde criança criado em Vila Isabel. Compositor, jornalista e radialista, teve como parceiros figuras especiais da música brasileira, sendo Noel uma delas.

Ela me vendo a chorar, chorou também – Ceci (Juracy Correia de Moraes) conta sobre o “Pela primeira vez” com orgulho, relatando a partida de Noel para Belo Horizonte, em busca de clima mais ameno e da cura da tuberculose.

QUANTOS BEIJOS (Noel Rosa-Vadico)

Samba. Primeira gravação em 1936 com Noel Rosa e Marília Baptista (78 rpm, selo Victor n° 34.040b)

Quantos beijos
Quando eu saía
Meu Deus, quanta hipocrisia!
Meu amor fiel você traía
Só eu é quem não sabia
(Ai, ai, meu Deus mas quantos beijos)

Não andava com dinheiro todo dia
Para sempre dar o que você queria
Mas quando eu satisfazia os seus desejos
Quantas juras… quantos beijos…

Quantos beijos
Quando eu saía
Meu Deus, quanta hipocrisia!
Meu amor fiel você traía
Só eu é quem não sabia
(Ai, ai, meu Deus mas quantos beijos)

Não esqueço aquelas frases sem sentido
Que você dizia sempre ao meu ouvido
Você porém mentia em todos os ensejos
Quantas juras… quantos beijos…

Sobre Marília Baptista – v. artigo “Eu ando sem l’argent toujours”.

DEIXA DE SER CONVENCIDA (Noel Rosa-Wilson Batista)

Samba. Primeira gravação em 1951 com Roberto Paiva (samba de 1935)

Deixa de ser convencida
Todos sabem qual é
Teu velho modo de vida
És uma perfeita artista, eu bem sei
Também fui do trapézio
Até salto mortal
No arame eu já dei

E no picadeiro desta vida
Serei o domador
Serás a fera abatida
Conheço muito bem acrobacia
Por isso não faço fé
Em amor, em amor de parceria
(Muita medalha eu ganhei)

Wilson Batista – Wilson Batista de Oliveira (3/7/1913 – 7/7/1968) de Campos, RJ. Sambista de marca maior, é sempre lembrado entre três grandes, junto a Geraldo Pereira e Noel. Com este último desenvolveu polêmica musical que marcou os anos 1930, na qual o poeta da Vila se sai melhor. Esta parceria sela “as pazes” entre os dois…

Roberto Paiva – Helim Silveira Neves (8/2/1921) do Rio de Janeiro, RJ. Cantor. Muito requisitado pelos compositores por sua postura de voz correta. Foi o intérprete do LP original “Orfeu da Conceição” de Tom Jobim e Vinícius de Moraes. Gravou com regularidade até o início da Bossa Nova. Seu LP mais recente é de 1985.

Deixa de ser convencida – Na verdade a gravação de Roberto Paiva foi feita para o programa de Almirante da Rádio Tupi, que enfocava a polêmica Noel X Wilson Batista. A canção  tinha o título de “Terra de Cego”, com letra do próprio Wilson Batista. Noel Rosa pediu ao compositor para fazer outra letra, intitulando-a “Deixa de ser convencida”. O registro constou do LP da Collector’s em 1989 “Os ídolos do Rádio – Roberto Paiva”.

SÓ PODE SER VOCÊ (Noel Rosa-Vadico)

Samba. Primeira gravação em 1937 com Aracy de Almeida (música de 1935 – 78 rpm, selo Victor n° 34.152a)

Compreendi seu gesto
Você entrou naquele meu chalé modesto
Porque pretendia somente saber
Qual era o dia em que eu deixaria de viver

Mas eu estava fora
Você mandou lembranças e foi logo embora
Sem dizer qual era o primeiro nome
De tal visita
Mais cruel, mais bonita que sincera

E pelas informações que recebi já vi
Que essa ilustre visita era você, porque
Não existe nessa vida
Pessoa mais fingida
Do que você!

Sobre Aracy de Almeida – v. artigo “Era a lua que tudo assistia”.

A ilustre –  Todas as canções desta edição foram dedicadas a Ceci. No caso de “Só pode ser você”, diz da visita à casa de sua mãe, no Rio, enquanto estava em Belo Horizonte , tratando da saúde.

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Amor tom de cinza

“A mulher original é aquela que não procura se diferençar das outras.”

Ilustração Luquefar

"Não durou muito a chuva e eu achei uma luva depois que ela desceu..." Noel Rosa; (Ilustração Luquefar)

A música é tarefa cotidiana de Noel Rosa e a inspiração parece não ter fim. Conceber nova linha melódica, escrever sobre um tema qualquer, terminar uma canção compondo sua segunda parte ou a letrando, é tarefa para a qual está afiado o garoto de Vila Isabel. Assuntos diversos causam-lhe interesse e seus versos muito terão a nos dizer, por gerações e gerações. Alguns só serão mesmo compreendidos depois, muitos anos depois de sua morte. Para nossa sorte, Noel compõe na década de 1930.

Noel conhece o início do que hoje chamamos indústria cultural: os primeiros anos do processo de registro fonográfico, o advento da gravação elétrica com o uso do microfone e do rádio. Participa das primeiras experiências dos programas radiofônicos com música ao vivo, realizados em estúdios com a presença de público. Nesta época a “máquina da cultura” em formação ainda respeita o criador, a criação e admite a diversidade. Hoje talvez não conseguisse mostrar seu trabalho.

As oportunidades são incentivos inspiradores que Noel aproveita para desenvolver, brincando, o trabalho do qual não imagina a importância e significação. Compor é falar do que vê, do que o mundo lhe oferece, do que vivem seus amigos, de seus sentimentos. De encantos e desencantos. Tem o olhar atento. E com a facilidade de se expressar melodicamente, de criar versos e rimas com originalidade, garante destaque em seu meio. E, para si, o encantado olhar feminino.

Rapaz de paixão fácil, sonhador, vai fazer do samba, apaixonadamente, motivo para registrar as experiências amorosas que lhe aparecem. A estas vai dedicar boa parte do que realizou na música. Mulheres terão lugar controverso em sua obra e seus amores serão tema obrigatório. Cidadão do mundo, traz o coração aberto ao amor idealizado, o qual nunca conseguirá viver em plenitude. Vai persegui-lo sem descanso, até seu final.

Na próxima edição, domingo, 29 de agosto: O FADO DOS MESTRES

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PROVEI (Noel Rosa-Vadico)

Samba. Primeira gravação em 1936 com Marília Baptista e Noel Rosa (78 rpm selo Odeon n° 11.422-a)

Provei
Do amor todo amargor que ele tem
Então jurei
Nunca mais amar ninguém
Porém, eu agora encontrei alguém
Que me compreende
E que me quer bem

Quem fala mal do amor
Não sabe a vida gozar
Quem maldiz a própria dor
Tem amor mas não sabe amar

Provei
Do amor todo amargor que ele tem
Então jurei
Nunca mais amar ninguém
Porém, eu agora encontrei alguém
Que me compreende
E que me quer bem

Nunca se deve jurar
Não mais amar a ninguém
Ninguém pode evitar
De se apaixonar por alguém

Sobre Vadico e Marília Baptista – v. artigo “Eu ando sem l’argent toujours”.

TENHO UM NOVO AMOR (Noel Rosa-Carlola)

Samba. Primeira gravação em 1932 com Carmem Miranda (78 rpm selo Victor n° 33.575b)

Tenho um novo amor
Tenho um novo amor
Que vive pensando em mim
Não quer me ver triste nem zangada
Gosta que eu ande assim engraçada

Eu não quero dar a perceber
Que gosto demais do meu amor
Se ele compreender
Vai se convencer
De que tem para mim um enorme valor

Tenho um novo amor
Tenho um novo amor
Que vive pensando em mim
Não quer me ver triste nem zangada
Gosta que eu ande assim engraçada

Se acaso algum dia se apagar
Do seu pensamento o meu amor
Para não chorar
E não mais penar
Mando embora a saudade prá livrar-me da dor

Sobre Cartola – v. artigo “O samba mulato”.

Carmem Miranda – Maria do Carmo Miranda da Cunha (9/2/1909 – 5/8/1955) Marco de Canavezes, Portugal. Cantora, atriz e dançarina. Veio para o Brasil com dois anos e meio de idade para tornar-se uma das mais destacadas intérpretes do mundo. Levou o samba e clássicos brasileiros para os Estados Unidos, país onde se encontrou com o sucesso.

Sem os versos originais – Carmen Miranda não quis cantar os versos que diziam: “Não quer me ver sujo, nem rasgado. Gosta de me ver assim; bem trajado.” E fez esta alteração na letra original (ver marcação em itálico, acima).

CANSEI DE PEDIR (Noel Rosa)

Samba. Primeira gravação em 1935 com Aracy de Almeida (78 rpm selo Victor n 33.949b)

Já cansei de pedir prá você me deixar
Dizendo que não posso mais continuar
Amando sem querer amar
Meu Deus, estou pecando
Amando sem querer
Me sacrificando
Sem você merecer!

Amar sem ter amor é um suplício
Você não compreende a minha dor
Nem pode avaliar
O sacrifício que eu fiz
Para ver você feliz!

Já cansei de pedir prá você me deixar
Dizendo que não posso mais continuar
Amando sem querer amar
Meu Deus, estou pecando
Amando sem querer
Me sacrificando
Sem você merecer!

Com a ingratidão eu não contava
Você não compreende a minha dor
Você, se compreendesse
Me deixava sem chorar
Para não me ver penar

Sobre Aracy de Almeida – v. artigo “Era a lua que tudo assistia”.

O MAIOR CASTIGO QUE EU TE DOU (Noel Rosa)

Samba. Primeira gravação em 1937 com Aracy de Almeida (música de 1934 – 78 rpm selo Victor n° 34.176b)

O maior castigo que eu te dou
É não te bater
Pois sei que gostas de apanhar
Não há ninguém mais calmo
Do que eu sou
Nem há maior prazer
Do que te ver me provocar

Não dar importância
A sua implicância
Muito pouco me custou
Eu vou contar em versos
Os teus instintos perversos
É este mais um castigo
Que eu te dou

A porta sem tranca
Te dá carta branca
Para ir onde eu não vou
Eu juro que desejo
Fugir do seu falso beijo
É esse mais um castigo
Que eu te dou

COR DE CINZA (Noel Rosa)

Samba-canção. Primeira gravação em 1955 com Aracy de Almeida (música de 1933)

Com seu aparecimento
Todo o céu ficou cinzento
E São Pedro zangado
Depois, um carro-de-praça
Partiu e fez fumaça
Com destino ignorado

Não durou muito a chuva
E eu achei uma luva
Depois que ela desceu
A luva é um documento
Com que provo o esquecimento
Daquela que me esqueceu

Ao ver um carro cinzento
Com a cruz do sofrimento
Bem vermelha na porta
Fugi impressionado
Sem ter perguntado
Se ela estava viva ou morta

A poeira cinzenta
Da dúvida me atormenta
Nem sei se ela morreu
A luva é um documento
De pelica e bem cinzento
Que lembra quem me esqueceu

Impressionismo – sobre “Cor de Cinza”: “Trata-se do mais belo e hermético poema impressionista do nosso cancioneiro popular”, escreve Paulo Mendes Campos na revista “Manchete” em 1974.

Carro-de-praça – é como eram chamados os taxis naquela época, cujos pontos eram geralmente nas praças.

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A ilustração deste post foi realizada sobre cena de um antigo “film noir“.

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O Rio de Noel

“A vocação é necessária até para se dar um laço na gravata.”

“Foi juntinho ao Corcovado, que Jesus Cristo nasceu” Noel Rosa

Pouco mais de um milhão de habitantes cercam o jovem Noel Rosa, ávido por aventuras na Capital Federal no final dos anos 1920. Afoito para mostrar suas habilidades no bandolim e no violão, procura o samba, que floresce e se fortifica em botequins, nas esquinas, nos morros. Vila Isabel, bairro musical, proporciona-lhe muitas oportunidades em encontros casuais com a música; e o samba ainda o rodeia e ao seu bairro pela Mangueira, Salgueiro, morro do Macaco, Grajaú e tantos outros.

O Rio de Janeiro arrebata esse rapaz, que não tem no pensamento ser general ou presidente da República: “Que valia o próprio fastígio dos reis – escreve – dos soberanos absolutos, diante do encanto comunicativo dos criadores de ritmo? Eu também não sonhava com ópera. Queria mesmo a música popular, ou seja, a música do povo inteiro, música generosa, música acessível a todos, que a todos embriaga, que vai de alma em alma, comunicando uma mesma e religiosa emoção”.

Assim madurece cedo a natureza de Noel Rosa, orgulhoso de seu bairro, sua cidade e facilmente inspirado de paixão ardente por faceiras donzelas e por canções. Mais que mulheres, a música lhe interessa e fascina. Sinhô, criador de sucesso atrás de sucesso, lhe é encantador: quem sabe um dia não vai poder conhecê-lo? Quem sabe ainda será famoso como o “rei do samba”? Nem pode imaginar a condição miserável de vida por que passa seu ídolo na música brasileira.

Abraça as oportunidades que aparecem e assina com os amigos Almirante, Alvinho, Braguinha e Henrique, um grupo – Bando de Tangarás – que vai focar a raiz sertaneja e nordestina, misturada ao samba e à marcha. Em 1929, com seus amigos, alcança o disco e vê realizado seu sonho maior. Daí em diante, tudo vai depender muito do instinto criativo que persegue. Mas encontra amparo em sua “cidade ventura”, como fonte de inspiração. O Rio é, e em última instância, a razão do Noel que festejamos.

Na próxima edição, domingo, 22 de agosto: AMOR TOM DE CINZA

Músicas relacionadas

EU VOU PRÁ VILA (Noel Rosa)

Samba. Primeira gravação em 1931 com Almirante e Bando de Tangarás (música de 1930)

Não tenho medo de bamba
Na roda do samba
Eu sou bacharel
(Sou bacharel)
Andando pela batucada
Onde eu vi gente levada
Foi lá em Vila Isabel

Na Pavuna tem turuna
Na Gamboa gente boa
Eu vou prá Vila
Aonde o samba é da coroa
Já saí de Piedade
Já mudei de Cascadura
Eu vou prá Vila
Pois quem é bom não se mistura

Não tenho medo de bamba
Na roda do samba
Eu sou bacharel
(Sou bacharel)
Andando pela batucada
Onde eu vi gente levada
Foi lá em Vila Isabel

Quando eu me formei no samba
Recebi uma medalha
Eu vou prá Vila
Pro samba do chapéu de palha
A polícia em toda a zona
Proibiu a batucada
Eu vou prá Vila
Onde a polícia é camarada

Sobre Almirante – v. o artigo “Prá ninguém zombar de mim”.

Sobre Bando de Tangarás – v. o artigo “Eu ando sem l’argent toujours”.

Turuna – É valente, brigão, por aí…

A turma da cozinha – Naqueles tempos não era usual o registro de percussão em gravações, até por dificuldades técnicas. Neste, entretanto, estão presentes percussionistas do samba de morro carioca, parceiros de Noel, o que concede um toque especial e histórico à gravação.

PALPITE INFELIZ (Noel Rosa)

Samba. Primeira gravação em 1936 com Aracy de Almeida (música de 1935, 78 rpm selo Victor n° 34.007-a)

Quem é você que não sabe o que diz?
Meu Deus do céu, que palpite infeliz!
Salve Estácio, Salgueiro, Mangueira
Oswaldo Cruz e Matriz
Que sempre souberam muito bem
Que a Vila não quer abafar ninguém
Só quer mostrar que faz samba também

Fazer poema lá na Vila é um brinquedo
Ao som do samba dança até o arvoredo
Eu já chamei você prá ver
Você não viu porque não quis
Quem é você que não sabe o que diz?

Quem é você que não sabe o que diz?
Meu Deus do céu, que palpite infeliz!
Salve Estácio, Salgueiro, Mangueira
Oswaldo Cruz e Matriz
Que sempre souberam muito bem
Que a Vila não quer abafar ninguém
Só quer mostrar que faz samba também

A Vila é uma cidade independente
Que tira samba mas não quer tirar patente
Prá que ligar a quem não sabe
Aonde tem o seu nariz?
Quem é você que não sabe o que diz?

Sobre Aracy de Almeida – v. artigo “Era a lua que tudo assistia”.

FEITIÇO DA VILA (Noel Rosa-Vadico)

Samba. Primeira gravação em 1934 com João Petra de Barros

Quem nasce lá na Vila
Nem sequer vacila
Ao abraçar o samba
Que faz dançar os galhos
Do arvoredo e faz a lua
Nascer mais cedo

Lá, em Vila Isabel
Quem é bacharel
Não tem medo de bamba
São Paulo dá café
Minas dá leite
E a Vila Isabel dá samba

A Vila tem
Um feitiço sem farofa
Sem vela e sem vintém
Que nos faz bem
Tendo nome de princesa
Transformou o samba
Num feitiço decente
Que prende a gente

O sol na Vila é triste
Samba não assiste
Porque a gente implora:
Sol, pelo amor de Deus
Não vem agora
Que as morenas
Vão logo embora

Eu sei por onde passo
Sei tudo o que faço
Paixão não me aniquila
Mas, tenho que dizer
Modéstia à parte
Meus senhores
Eu sou da Vila!

Sobre João Petra de Barros – v. artigo “O samba mulato”.

Sem cadeado – Aracy em 1966 gravou com o MPB4 a polêmica Noel-Wilson, acrescentando os versos “A zona mais tranquila / É a nossa Vila / O berço dos folgados / Não há um cadeado no portão / Por que na Vila não dá ladrão”.

O X DO PROBLEMA (Noel Rosa)

Samba. Primeira gravação em 1936 com Aracy de Almeida (78 rpm, selo Victor n° 16.319-b)

Nasci no Estácio
Eu fui educada na roda de bamba
Eu fui diplomada na escola de samba
Sou independente, conforme se vê

Nasci no Estácio
O samba é a corda e eu sou a caçamba
E não acredito que haja muamba
Que possa fazer eu gostar de você

Eu sou diretora da escola do Estácio de Sá
E felicidade maior neste mundo não há
Já fui convidada para ser estrela do nosso cinema
Ser estrela é bem fácil
Sair do Estácio é que é o “x” do problema

Você tem vontade
Que eu abandone o largo de Estácio
Prá ser a rainha de um grande palácio
E dar um banquete uma vez por semana

Nasci no Estácio
Não posso mudar minha massa de sangue
Você pode crer que palmeira do mangue
Não vive na areia de Copacabana

Eu sou diretora da escola do Estácio de Sá
E felicidade maior neste mundo não há
Já fui convidada para ser estrela do nosso cinema
Ser estrela é bem fácil
Sair do Estácio é que é o “x” do problema

CIDADE MULHER (Noel Rosa)

Marcha-rancho. Primeira gravação em 1936 com Orlando Silva (78 rpm, selo Victor n° 34.085b)

Cidade de amor e ventura
Que tem mais doçura
Que uma ilusão
Cidade mais bela que o sorriso
Maior que o paraíso
Melhor que a tentação

Cidade que ninguém resiste
Na beleza triste
De um samba-canção
Cidade de flores sem abrolhos
Que encantando nossos olhos
Prende o nosso coração

Cidade notável
Inimitável
Maior e mais bela que outra qualquer
Cidade sensível
Irresistível
Cidade do amor, cidade mulher

Cidade de sonho e grandeza
Que guarda riqueza
Na terra e no mar
Cidade do céu sempre azulado
Teu sol é namorado
Da noite de luar

Cidade padrão de beleza
Foi a natureza
Quem te protegeu
Cidade de amores sem pecado
Foi juntinho ao Corcovado
Que Jesus Cristo nasceu

Cidade notável
Inimitável
Maior e mais bela
Que outra qualquer
Cidade sensível
Irresistível
Cidade do amor
Cidade mulher

Sobre Orlando Silva – v. artigo “Era a lua que tua assistia”.

O Rio de Noel – O nosso poeta sempre teve predileção especial pelo Rio de Janeiro, a quem dedicou esta marcha, trilha de um filme no início do cinema nacional. E pode ter feito mais: há muita gente que garante a autoria noelina de “Cidade Maravilhosa”, a canção que virou o hino do Rio de Janeiro. O livro “Noel Rosa – uma biografia” mostra alguns depoimentos a respeito. O irmão de Noel,  Hélio Rosa, assegurava que André Filho desembolsou oitocentos mil-réis pela marcha-rancho!

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Visita imaginária de Noel ao Corcovado – A ilustração desta edição traz trabalho digital de Luquefar, com a figura de Noel sobre postal histórico do Rio de Janeiro de 1930, do fotógrafo alemão Theodor Presing, pertencente à Coleção Pirelli/Masp de Fotografia, aos quais pedimos a licença pela a livre concepção.

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A arte da dor

“Qual o crime que o burro cometeu para ser condenado a trabalhos forçados?”

Noel Rosa: eu sei sofrer (ilustração Luquefar)

Dor e alegria são faces de uma mesma moeda. A dor é nossa companheira mais contumaz, a que melhor nos faz refletir e pode mais nos ensinar, se com ela dialogamos francamente. Sem dor não existiria felicidade, que é o ponto de chegada de quem vai ao encontro de qualquer questão de vida. A felicidade oferece sentido ao viver, mas traz o sofrimento como parte indissolúvel e inevitável da procura. Desde o berço experimentamos seu amargor.

São poetas os entendedores da dor, capazes de vivê-la intensamente. Noel Rosa, o grande poeta da alegria, do deboche, da ironia, do sarcasmo, da irreverência e do humor, traz a alma profundamente dorida. Marcado em seu nascimento por um parto de fórceps, que lhe causa deformação facial, sofre com a rejeição estética e quando adulto, em meio a grandes desventuras amorosas, ainda fica doente do pulmão – o órgão humano da tristeza. Vitima da tuberculose,  numa época em que ainda não havia penicilina.

O níquel de tostão que Noel lança ao ar no jogo da vida e da sorte, tem os dois lados do sofrer. O seu defeito no queixo, a vergonha do deboche na infância , o medo ao desprezo na adolescência, amores e paixões mal compreendidas, e a moeda sempre lhe cai na mão na face visível da dor. Vale-se, desde cedo, de seu talento e vivacidade exuberantes: “eu nascendo pobre e feio, ia ser triste o meu fim. Mas crescendo a bossa veio. Deus teve pena de mim”.

O poeta da dor sai em busca da felicidade nas ruas e becos escuros do Rio de Janeiro, sobe seus morros, vasculha seus segredos. Torna-se o cantor do Rio, o canto de um país desigual e injusto. Então, atento à sua própria miséria, sofre e chora; ama, amarga-se e de amargura se entrega à cidade e aos seus viventes. A cerveja, o amor, a paixão e a lua, que iluminam o Rio e convidam ao samba, contam com a adesão convicta e idealista deste ilustre Noel de Medeiros Rosa.

Na próxima edição, domingo, 15 de agosto: O RIO DE NOEL

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EU SEI SOFRER (Noel Rosa)

Samba. Primeira gravação em 1937 com Aracy de Almeida (78 rpm, selo Victor n° 34.176-a)

Quem é que já sofreu mais do que eu?
Quem é que já me viu chorar?
Sofrer foi o prazer que Deus me deu
Eu sei sofrer sem reclamar
Quem sofreu mais que eu não nasceu
Com certeza Deus já me esqueceu

Mesmo assim não cansei de viver
E na dor eu encontro prazer
Saber sofrer é uma arte
E pondo a modéstia de parte
Eu posso dizer que sei sofrer

Quem é que já sofreu mais do que eu?
Quem é que já me viu chorar?
Sofrer foi o prazer que Deus me deu
Eu sei sofrer sem reclamar
Quem sofreu mais que eu não nasceu
Com certeza Deus já me esqueceu

Quanta gente que nunca sofreu
Sem sentir, muitos prantos verteu
Já fui amado, enganado
Senti quando fui desprezado
Ninguém padeceu mais do que eu

Sobre Aracy de Almeida – v. artigo “Era a lua que tudo assistia”.

A arte da dor – O registro fonográfico de “Eu sei sofrer” foi realizado um mês após a morte de Noel. Está entre suas últimas criações. Apesar de já muito debilitado pela tuberculose, assim como em “Pra que mentir”, o poeta encontra força de inspiração magnífica.

É BOM PARAR (Noel Rosa-Rubens Soares)

Samba. Primeira gravação em 1936 com Francisco Alves (78 rpm, selo Victor n° 30.038-a)

Por que bebes tanto assim, rapaz?
Chega, já é demais!
Se é por causa de mulher, é bom parar
Porque nenhuma delas sabe amar

Se tu hoje estás sofrendo
É por que Deus assim quer
E quanto mais vais bebendo
Mais lembras dessa mulher

Não crês, conforme suponho
Nestes versos de canção:
Mais cresce a mulher no sonho
Oi! Na taça e no coração

Por que bebes tanto assim, rapaz?
Chega, já é demais!
Se é por causa de mulher, é bom parar
Porque nenhuma delas sabe amar

Sei que tens em tua vida
Um enorme sofrimento
Mas não penses que a bebida
Seja um medicamento

De ti não terei mais pena
É bom parar por aí
Quem não bebe te condena
Oi! Quem bebe zomba de ti

Rubens Soares – (29/5/1911 – 13/6/1998), do Rio de Janeiro, RJ. Compositor, lutador de boxe, membro da Polícia Especial, que arrumou parceria com o poeta da Vila. E que parceria! Rubens também tem músicas com Nelson Gonçalves, David Nasser, Nássara, dentre outros.

Sobre Francisco Alves – v. artigo “Prá ninguém zombar de mim”.

É bom parar! – Um dos maiores sucessos do samba em todos os tempos, não traz na gravação original o nome de Noel Rosa como parceiro. Mas sua participação é aceita por seus biógrafos João Máximo e Carlos Didier, apesar das constantes negativas do boxeador. “Nunca conheci Noel Rosa” – jurava! Rubens teria oferecido o refrão da música a Francisco Alves, que, com muito custo, conseguiu de Noel a criação das estrofes, vendidas ao cantor por duzentos mil-réis!

Na taça e no coração – Fazia um ano brigado com o Chico Alves, Noel utiliza no samba um verso da música “A mulher que ficou na taça”, de Orestes Barbosa e Francisco Alves: “na taça e no coração”. Pura ironia noelina…

TRÊS APITOS (Noel Rosa)

Samba. Primeira gravação, em acetato, de 1936 com Orlando Silva (samba de 1933)

Quando o apito da fábrica de tecidos
Vem ferir os meus ouvidos
Eu me lembro de você
Mas você anda
Sem dúvida bem zangada
E está interessada
Em fingir que não me vê

Você que atende ao apito
De uma chaminé de barro
Por que não atende ao grito
Tão aflito
Da buzina do meu carro

Você no inverno
Sem meias vai pro trabalho
Não faz fé com o agasalho
Nem no frio você crê
Mas você é mesmo
Artigo que não se imita
Quando a fábrica apita
Faz reclame de você

Nos meus olhos você lê
Que eu sofro cruelmente
Com ciúmes do gerente
Impertinente
Que dá ordens a você

Sou do sereno
Poeta muito soturno
Vou virar guarda-noturno
E você sabe por quê
Mas você não sabe
Que enquanto você faz pano
Faço junto ao piano
Estes versos prá você

Sobre Orlando Silva – v. artigo “Era a lua que tudo assistia”.

Três apitos – a letra apresentada neste post refere-se à gravação de 1951 com Aracy de Almeida. A gravação de Orlando Silva traz o registro incompleto da letra e não foi lançada comercialmente na época. Trata-se de um verdadeiro achado da gravadora Revivendo, incluído na coleção Noel Rosa – o poeta da Vila.

PRAZER EM CONHECÊ-LO (Noel Rosa-Custódio Mesquita)

Samba. Primeira gravação em 1932 com Mário Reis (78 rpm, selo Odeon n° 10.943-b)

Quantas vezes nós sorrimos sem vontade
Com o ódio a transbordar no coração
Por um simples dever da sociedade
No momento de uma apresentação

Se eu soubesse que em tal festa te encontrava
Não iria desmanchar o teu prazer
Porque, se lá não fosse eu não lembrava
Um passado que tanto nos fez sofrer

Lá no canto vi o meu rival antigo
Ex-amigo
Que aguardava o escândalo fatal
Fiquei branco, amarelo, furta-cor
De terror
Sem achar uma idéia genial

Ainda lembro que ficamos de repente
Frente a frente
Naquele instante, mais frios do que gelo
Mas, sorrindo, apertaste a minha mão
Dizendo então: tenho muito prazer em conhecê-lo!

Quantas vezes nós sorrimos sem vontade
Com o ódio a transbordar no coração
Por um simples dever da sociedade
No momento de uma apresentação

Mas eu notei que alguém impaciente
Descontente
Ia mais tarde te repreender
Tão ciumento que até nem quis saber
Que mais prazer
Eu teria em não te conhecer

Custódio Mesquita – Custódio Mesquita de Pinheiro (25/4/1910 – 13/3/1945) do Rio de Janeiro, RJ. Compositor, pianista, regente, foi um dos nomes de destaque da música brasileira dos anos 1930, 1940, com extensa obra e parceiros importantes. É autor de clássicos como “Nada além”, composta com Mário Lago, ou “Saia do caminho”, com Evaldo Rui, e considerado um dos precursores da bossa-nova.

Sobre Mário Reis – v. artigo “Prá ninguém zombar de mim”.

QUEM RI MELHOR (Noel Rosa)

Samba. Primeira gravação em 1936 com Noel Rosa e Marília Baptista (78 rpm, selo Victor n° 34.140-a)

Pobre de quem já sofreu neste mundo
A dor de um amor profundo
Eu vivo bem sem amar a ninguém
Ser infeliz é sofrer por alguém
Zombo de quem sofre assim
Quem me fez chorar
Hoje chora por mim
Quem ri melhor
É quem ri no fim

Felicidade
É o vil metal quem dá
Honestidade
Ninguém sabe onde está
Acaba mal quem é ruim
Pois quem me fez chorar
Hoje chora por mim
Quem ri melhor
É quem ri no fim

Pobre de quem já sofreu neste mundo
A dor de um amor profundo
Eu vivo bem sem amar a ninguém
Ser infeliz é sofrer por alguém
Zombo de quem sofre assim
Quem me fez chorar
Hoje chora por mim
Quem ri melhor
É quem ri no fim.

Sabendo disso
Eu não quero rir primeiro
Pois o feitiço
Vira contra o feiticeiro
Eu vivo bem
Pensando assim
Pois quem me fez chorar
Hoje chora por mim
Quem ri melhor
É quem ri no fim!

Sobre Marília Baptista – v. artigo “Eu ando sem l’argent toujours”.

Como é que você se chama? – O livro “Noel – uma biografia” conta esta história: Noel estava na Rádio Clube acompanhando a apresentação de uma estreante trazida por Jacob do Bandolim. Admirado com sua voz, puxa conversa e lhe oferece uma música inédita, para uma próxima apresentação na emissora. A música era “Quem ri melhor”. “Se você quiser, é claro!” – diz Noel. “Mas eu quero!”, entusiasma-se a garota Elizeth Cardoso, que o tempo mostrou ser uma de suas intérpretes mais dedicadas.

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O samba mulato

“O burro só tem uma satisfação: não segue a profissão forçado pela sua família.”

Noel Rosa, Cartola e o samba de morro (Ilustação Luquefar)

“O samba não vem do morro, nem da cidade” – já diz o poeta. Do coração de Noel saem sambas fenomenais, no que dá prá imaginar, não só sua imensa capacidade criativa, como da correção de suas palavras. O samba nasce da inspiração humana, envolvida por aqui, Brasil, em experiências deveras particulares. Práticas que são fruto da sagacidade de populações de locais diferentes do mundo, com encontro marcado neste nosso inspirado pedaço de chão.

Por certo, não haveria samba na Europa, nem em terras ameríndias e muito menos africanas. O samba só nasceria aqui, como se fez, espalhado por uma vasta região e ganharia a forma urbana, como mais o conhecemos, através de dois núcleos: as cidades de São Salvador na Bahia e a de São Sebastião do Rio de Janeiro. Por elas o samba se populariza como estilo de música genial genuinamente brasileira, de complexo ritmo sincopado e invejável linha melódico-harmônica.

Do conhecimento de povos do mundo herdado do sangue de gerações sem fim, depois de misturadas, remexidas por mais e mais gerações no Brasil, é que surge a condição para o samba. Para ele e outras tradições. Música inventiva e diversificada. Complexa e engenhosa salada da existência humana. Assim é que o samba é brasileiro, antes de ser carioca e é universal, como convém a toda criação; é passo e compasso da alegria e da sofisticação. E é o que há nos idos de 1930.

Noel, branco como quê, sai atrás do samba e sobe o morro pra roubar-lhe um pedaço. Tira seu chapéu ao Cartola, chega ao negro Canuto e ao coração crioulo do Puruca, que bate marca-passo na cuíca do Gradim, querendo o melhor pedaço da percussão do Alcebíades, pra descobrir a verdade da batida do Manuel. Volta e conta pro Ismael: o samba não tem escola. Não tem escola e não tem cor. Não tem cor e não tem raça. A nossa melhor canção é mulata, é miscigenação. O samba é paixão. É nossa cachaça!

Na próxima edição, domingo, 8 de agosto, A ARTE DA DOR.

As músicas relacionadas

NÃO FAZ AMOR (Noel Rosa-Cartola)

Samba. Primeira gravação em 1932 com Francisco Alves (78 rpm, selo Odeon n° 10.927-a)

Não faz, amor, deixa-me dormir
Oh, minha flor, tenha dó de mim
Sonhei, acordei assustado
Receoso que tivesses me enganado
(Eu não durmo sossegado)

Só tens ambição e vaidade
Não pensas na felicidade
E eu não descanso um momento
Por pensar que o teu amor é só fingimento

Mas eu vou entrar com meu jogo
E vou pôr à prova de fogo
A tua sincera amizade
Para ver se tu falaste verdade

Não faz, amor, deixa-me dormir
Oh, minha flor, tenha dó de mim
Sonhei, acordei assustado
Receoso que tivesses me enganado
(Eu não durmo sossegado)

Amar sem jurar é bem raro
O verbo cumprir custa caro
Amor é bem fácil de achar
O que acho mais difícil é saber amar

O mundo tem suas surpresas
Mas nós temos nossas defesas
Por isso eu estou prevenido
Prá saber se sou ou não traído

Cartola – Angenor de Oliveira (11/10/1908 – 30/11/1980), do Rio de Janeiro, RJ. Compositor e cantor, foi um dos principais compositores do samba, no Rio de Janeiro. Um dos grandes da MPB. Amicíssimo de Noel Rosa, que freqüentava sua casa em Mangueira, foi parceiro do poeta da Vila em dois sambas. Apesar de ter músicas gravadas na década de 1930, só viu seu nome relembrado trinta anos depois, nos registros de Nara Leão. Mas, somente a partir de seu primeiro LP em 1974, da gravadora Marcos Pereira, aos 66 anos de idade veio o reconhecimento!

Sobre Francisco Alves – v. artigo “Pra ninguém zombar de mim”.

JÁ NÃO POSSO MAIS (Noel Rosa-Canuto-Puruca-Almirante)

Samba. Primeira gravação em 1932 com Almirante e Bando dos Tangarás

Adeus, mulher fingida
Eu já vou-me embora
Tu estás arrependida
Já não posso mais
Deus me perdoe pelo que fiz
Deixando abandonada
Aquela pobre infeliz

O teu mau procedimento
Fez meu coração sofrer
E teu arrependimento
Não me pôde comover

Tu encheste meus ouvidos
Com frases de ocasião
Nem sempre os arrependidos
Nos merecem o perdão.
(Agora)

Adeus, mulher fingida
Eu já vou-me embora
Tu estás arrependida
Já não posso mais
Deus me perdoe pelo que fiz
Deixando abandonada
Aquela pobre infeliz

Se tu fosses processada
Diante de um auditório
Tu ficavas bem calada
Pois tens culpa no cartório

Há bastantes testemunhas
Do que fui e do que sou
Quando me botaste as unhas
Meu dinheiro se pirou.
(Por quê?)

Canuto – Deocleciano da Silva Paranhos (data de nascimento desconhecida – falecido em 27/11/1932), do Rio de Janeiro, RJ. Ritmista, compositor do morro do Salgueiro, foi parceiro de João de Barro e Noel Rosa, ambos do Bando de Tangarás. Sua primeira participação em estúdio se deu em 1929, no registro histórico de “Na Pavuna”, com o grupo de Noel, onde, pela primeira vez, foi registrada percussão numa gravação. Como o poeta, ainda novo morreu tuberculoso. Sobre o parceiro Puruca, infelizmente, só sabemos que era também compositor e ritmista do mundo do samba de morro carioca.

Sobre Bando de Tangarás – v. o artigo “Eu ando sem l’argent toujours”.

Sobre Almirante – v. o artigo “Prá ninguém zombar de mim”.

QUERO FALAR COM VOCÊ (Noel Rosa-Gradim)

Samba. Primeira gravação em 1933 com João Petra de Barros (música de 1932 – 78 rpm, selo Odeon n° 10.950-a)

Quero falar com você
Mas em segredo
Que ninguém venha saber do nosso amor
Será que para sempre
Havemos de guardar
Para a felicidade algum dia nos chegar

O amor se declara em segredo
Quem tem seu amor já aprendeu
Não posso deixar de ter medo
Que alguém subtraia o seu amor do meu

Amor não tem dia nem tem hora
Prá vir não tem antes nem depois
Só tem dia para ir-se embora
Dividindo a tristeza por dois
(Que número, faz favor?)

Quero falar com você
Mas em segredo
Que ninguém venha saber do nosso amor
Será que para sempre
Havemos de guardar
Para a felicidade algum dia nos chegar

O amor é castigo e é brinquedo
Depende da hora em que vem
Faz mal se não é em segredo
Quando os outros não sabem é mal que nos faz bem

Somando a ilusão com alegria
Assim é o começo do amor
Depois prá maior nostalgia
Multiplica a saudade por dor
(Em comunicação)

Quero falar com você
Mas em segredo
Que ninguém venha saber do nosso amor
Será que para sempre
Havemos de guardar
Para a felicidade algum dia nos chegar
(Não responde)

Gradim – Lauro dos Santos. Datas de nascimento e falecimento desconhecidas. Também compositor de Mangueira, dentre os muitos parceiros que Noel colecionou nos morros do Rio de Janeiro. Outro dos bons que morreu tuberculoso! Foi jogador de futebol, chegando a jogar com o craque Leônidas da Silva, o inventor da “bicicleta”.

João Petra de Barros – (23/06/1914 – 11/01/1947) do Rio de Janeiro, RJ. Cantor, gravou “Até Amanhã” de Noel e Ismael em disco de estréia em 1933, se destacando por seu timbre afinado, semelhante ao de Francisco Alves – ídolo da música brasileira. Depois de acidente, no qual perdeu a perna, ainda jovem, suicidou-se.

Letra aritmética – É bem característica de Noel esta letra surpreendente, agora afiada nas contas (com um toque da sala de aula). Vinte e cinco anos mais tarde, Marino Pinto e Tom Jobim – por certo bons alunos – compuseram a bossa “Aula de matemática”, também relacionando cálculos e amor.

FUI LOUCO (Noel Rosa-Bide)

Samba. Primeira gravação em 1933 com Mário Reis

Fui louco
Resolvi tomar juízo
A idade
Vem chegando e é preciso
Se eu choro
Meu sentimento é profundo
Ter perdido a mocidade na orgia
Maior desgosto do mundo!

Neste mundo ingrato e cruel
Eu já desempenhei o meu papel
E da orgia então
Consegui minha demissão

Fui louco
Resolvi tomar juízo
A idade
Vem chegando e é preciso
Se eu choro
Meu sentimento é profundo
Ter perdido a mocidade na orgia
Maior desgosto do mundo!

Felizmente mudei de pensar
E quero me regenerar
Já estou ficando maduro
E já penso no meu futuro

Bide – Alcebíades Maia Barcelos (25/7/1902 – 18/3/1975), fluminense de Niterói. Compositor, percussionista, residiu no bairro do Estácio, onde freqüentava rodas de samba e conheceu Ismael Silva, com quem fundou a “Deixa Falar”. Formou famosa dupla Bide & Marçal (com o mestre Armando Marçal), responsável por pérolas da música brasileira, como o samba “Agora é cinza”.

Sobre Mário Reis – v. artigo “Pra ninguém zombar de mim”.

SÓ PRÁ CONTRARIAR (Noel Rosa-Manuel Ferreira)

Samba. Primeira gravação em 1932 com Almirante e Bando dos Tangarás

O prazer que tu sentes é quando
Estás me contrariando
Sem razão
Enquanto estou a sorrir
Tu choras sem sentir
Só por contradição

Não posso mais sofrer assim
Tudo tem que ter seu fim
Não existe eternidade
É melhor viver sozinho
Sem dinheiro, sem carinho
Com sossego e liberdade

O prazer que tu sentes é quando
Estás me contrariando
Sem razão
Enquanto estou a sorrir
Tu choras sem sentir
Só por contradição

Andando em tua companhia
Já peguei esta mania
Das vinganças imprudentes
E quando o jejum me come
Prá contrariar a fome
Fico mastigando os dentes

Manuel Ferreira (07/01/1913), do Rio de Janeiro, RJ. Compositor e instrumentista do cavaquinho e do violão, serralheiro, fez diversos parceiros no samba, incluindo entre eles Noel Rosa. No Império Serrano, foi companheiro de Silas de Oliveira e Mano Décio da Viola, com quem dividiu a criação de “Heróis da Liberdade”, um samba-enredo antológico.

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Sobre o “Ismael” citado neste artigo – v. Ismael Silva na edição anterior.

NOTAS DOS ORGANIZADORES

Próxima sexta-feira , 6 de agosto, vamos comemorar o centenário de nascimento do compositor Adoniran Barbosa. João Rubinato foi o nome de nascença deste filho de imigrantes italianos, nascido em Valinhos, no interior do Estado paulista. Quatro meses e quatro dias mais velho que Noel Rosa, radialista, radio-ator, cantor, humorista e genial compositor, iniciou sua carreira na música em 1934, em São Paulo, aprovado em concurso de calouros, cantando, nada mais, nada menos que a então recém-lançada “Filosofia” de Noel Rosa e André Filho. Adoniran e Noel nunca puderam se conhecer, mas guardam muitos paralelos no fazer artístico com originalidade. Assim como Noel, dedicou-se com sua música ao registro do cotidiano da cidade onde viveu a maior parte dos seus dias – São Paulo. Foi consagrado artisticamente e, até hoje, é relembrado como um dos maiores nomes da música brasileira. Sua primeira gravação ocorreu somente em 1955, com o registro de “Saudosa Maloca”, sucesso marcante em sua carreira. Morreu em 23/11/1982. Com esta pequena nota, nosso viva ao Adoniram!

Anotações com arte – Lembrando seu centenário foi lançado este ano a agenda “Adoniran Barbosa – anotações com arte 2010” , com edição bem cuidada , com muitos dados biográficos do compositor e diversos depoimentos de amigos. Criação de Paulo T. S. Hardt e Idealização e autoria de Fred Rossi, Editora Anotações com Arte Ltda.

1910 poderia ser considerado um ano especial  para a música brasileira, pois temos o nascimento de outros importantes compositores. Vamos citar aqui alguns deles – os parceiros de Noel Rosa nas canções deste blog: Cristóvão de Alencar (8/1), Custódio Mesquita (25/4), Vadico (24/06), Luiz Barbosa (7/7) e Renê Bittencourt (23/12). Todos mereceriam centenas de comemorações. No entanto, este país ainda tem memória curta!

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