Noel 100 anos

A nossa série de postagem sobre Noel Rosa se completa, na mesma data em que Noel faria 100 anos. A série original NOEL ROSA – 100 CANÇÕES PARA O CENTENÁRIO você pode acompanhar integralmente clicando artigos anteriores a 31 de outubro de 2010. A Série NOEL E SEUS INTÉRPRETES acompanhe nos artigos subsequentes.

NOEL 100 ANOS

Noel Rosa, a paz do Rio de Janeiro (Ilustração Luquefar)

1910. Um cometa no céu do Rio de Janeiro surge como um presságio. Maus sinais ou boas novas para a cidade? O povo se inquieta, mas o acontecimento pode nos dizer da vinda de um mestre a iluminar os nossos dias, sem que ninguém perceba. No rastro do cometa nasce o poeta da Vila, um sábio que viveria como um qualquer, com breve passagem pelo planeta.

Corte no tempo. A cidade segue seu curso. Tudo passa depressa. Transeuntes já cantam uma boa nova: com que roupa eu vou?

Nova dimensão e o sol poente se prenuncia, em tarde especial, delicada, que arrebata um coração emocionado. Lembranças vêm como quem, diante do espelho do tempo, olha pra si e chora. Noel recorda a terra de seus passos, a cadência, a dolência, a magia. O Rio das divindades, formosuras, das branduras e dos tocadores de violão, que encheram de ternura seu pensamento adolescente.  Nada lhe será melhor que sua doce memória. Naquela tarde, porém, já cansado se despede e adormece pela última vez…

O mesmo Rio, cidade mulher que lhe ofereceu intensos momentos de prazer e emoção que lhe roubaram a saúde, se esvaece, pouco a pouco, desde sua despedida. Cidade desatenta, por pouco não se esquece daquele que foi seu mestre – um pouco ideólogo, um pouco fundador, quem sabe um projetista inovador. Afinal, somos todos criadores de nossas aldeias e o mestre terá ainda muito a nos dizer. Na verdade foi ela, a cidade, sua mestra, que lhe ensinou as melhores proezas da vida.

2010. Outra vez uma luz de esperança, como um cometa, ilumina o céu do Rio de Janeiro. O morro alenta-se com o samba. Na memória radiosa do cometa Noel a cidade se redescobre. O samba está voltando a ocupar seu território! E já se canta pelas ruas: o samba, a prontidão e outras bossas, são coisas nossas! Todos esperam que a cidade maravilhosa possa reencontrar sua paz, reavivar seu encantamento e reanimar sua alma feminina de cidade mulher! – como sempre desejou Noel e como querem cariocas e admiradores.

CIDADE MULHER (Noel Rosa)

Marcha. Primeira gravação em 1936 com Orlando Silva (78 rpm, selo Victor 34.085b); gravação em 2006 com Eduardo Duzek (selo Biscoito Fino CD BF 642); gravação em 2000 com Garganta Profunda e Chico Buarque (selo independente CD); gravação em 1997 com Caetano Veloso e Ivan Lins (selo Velas CD vol. 2) montagem de trechos.

Cidade de amor e ventura
Que tem mais doçura
Que uma ilusão
Cidade mais bela que o sorriso
Maior que o paraíso
Melhor que a tentação

Cidade que ninguém resiste
Na beleza triste
De um samba-canção
Cidade de flores sem abrolhos
Que encantando nossos olhos
Prende o nosso coração

Cidade notável
Inimitável
Maior e mais bela que outra qualquer
Cidade sensível
Irresistível
Cidade do amor, cidade mulher

Cidade de sonho e grandeza
Que guarda riqueza
Na terra e no mar
Cidade do céu sempre azulado
Teu sol é namorado
Da noite de luar

Cidade padrão de beleza
Foi a natureza
Quem te protegeu
Cidade de amores sem pecado
Foi juntinho ao Corcovado
Que Jesus Cristo nasceu

Cidade notável
Inimitável
Maior e mais bela que outra qualquer
Cidade sensível
Irresistível
Cidade do amor, cidade mulher

Cidade Mulher – As interpretações são partes retiradas de várias gravações da música: a original; e as pertencente aos CDs: “Sassaricando – E o Rio inventou a marchinha” com Eduardo Dusek, Soraya Ravenle, Alfredo Del-Penho, Pedro Paulo Malta, Juliana Diniz e Sabrina Korgut;  “Chico e Noel em Revista”, com Garganta Profunda (participação especial de Chico Buarque); “Viva Noel – Tributo à Noel Rosa”, com Ivan Lins (participação especial de Caetano Veloso).

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Comunidade História e Música – Um grupo de fãs de Noel no Rio de Janeiro utilizou a ilustração de Luquefar nas camisetas do centenário. Disseram-nos: foi um sucesso!

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Noel Rosa vivo no Século XXI

SÉRIE: NOEL E SEUS INTÉRPRETES

Esta é a penúltima edição do Blog. Em sua nova fase, enfoca Noel Rosa relacionado aos cantores, principais responsáveis por torná-lo conhecido do grande público, com a gravação de sua obra. A série original NOEL ROSA – 100 CANÇÕES PARA O CENTENÁRIO já se completou e você pode acompanhá-la integralmente clicando artigos anteriores a 31 de outubro de 2010.

NOEL ROSA VIVO NO SÉCULO XXI

O “YouTube” é um espaço democrático de divulgação. Vídeos do mundo inteiro, de grandes empresas ou de fundo de quintal, estão lá presentes, ajudando a romper barreiras de antigos monopólios da comunicação. A música é destaque no portal já acostumado a abrigar assuntos nem sempre de interesse da grande engenhoca da cultura. Pois o YouTube registra o reinado soberano de Noel Rosa, vivo ainda no Século XXI. O inovador poeta e compositor brasileiro mantém audiência altíssima…

Uma viagem por lá nos diz sobre dados motivadores: a busca por “Noel Rosa” soma 3,1 mil vídeos. Número extraordinário, comparado, por exemplo, a compositores ainda em atividade, como Arnaldo Antunes, ídolo da música jovem dos anos 1980/90, com 3,4 mil; ou superior à Edu Lobo, com seus 1,7 mil; Samuel Rosa, com pouco mais de 900, ou ao saudoso Ismael Silva, parceiro mais constante de Noel, com 270 opções de vídeos na consulta. O artista de Vila Isabel mostra robustez e vigor impressionantes.

Uma rápida apreciação do Noel Rosa do portal não deixa dúvida alguma sobre o assunto. Além de vídeos editados a partir de gravações originais de suas músicas, quantidade expressiva de registros é caseira com intérpretes, instrumentistas amadores e apresentações escolares. Há também inúmeros artistas profissionais em shows por todo o país, através de câmaras celulares ou de produção sofisticada. E não só no Brasil: Japão, Estados Unidos, Portugal, Itália, dentre outros, já o cultuam.

Passamos nossa vista por 400 dos mais de três mil vídeos sobre o poeta. Aleatoriamente. Escolhemos cinco, para não fugir do formato do Blog (o que é uma pena…). Uma pequena mostra – significativa ainda – de como nosso tempo tão bem o compreende e se orgulha em promover sua divulgação. Gente de toda idade, que sobeja em juventude, com propostas estéticas tão variadas quanto criativas, na merecida comemoração já no próximo 11 de dezembro, quando o Brasil será Noel. E para sempre será!

Última edição, sábado, 11 de dezembro: NOEL 100 ANOS

Vídeos relacionados (encontre os vídeos no You Tube)

CONVERSA DE BOTEQUIM (Noel Rosa-Vadico)

Samba
. Gravação ao vivo em 2010 com o Grupo Roda de Choro. Música de 1935

Conversa de botequim – Veja a gravação original no artigo “Cronista da arte e da canção”

Roda de Choro – O grupo formado no evento “Virada Cultural de 2007”, em São Paulo que reúne bambas do pedaço. Nesta gravação ao vivo, realizada em 13/09/2010 estão Nelson Ayres no piano e Alexandre Ribeiro no clarinete.

TIPO ZERO (Noel Rosa)

Samba. Clip gravado em 2007 pelo Quinteto Levapralavá. Música de 1934
Quinteto Levapralavá – Trabalho musical nascido na Escola de Música da Unicamp (Campinas-SP), com Rodrigo Tozelli, Paulo Salmaci, Ricardo Lira, Rafael Thomaz e Adélcio Camilo. Em 2007 realizou o show “Teu samba, Noel”, em homenagem aos 70 anos de morte do poeta da Vila. O clip é parte deste projeto.

Tipo Zero – Veja a gravação original no artigo “Tipos da cidade”

SEJA BREVE (Noel Rosa)

Samba. Clip gravado em 2008 com Danilo Moraes e Ricardo Teté. Música de 1933
Danilo Moraes e Ricardo Teté – Juntos há doze anos, tocam músicas de diversos gêneros, entre São Paulo e Paris. Venceram o Festival da TV Cultura da Fundação Padre Anchieta, em 2005, com a canção “Contabilidade”.

Seja breve – Veja a gravação original no artigo “Foi negócio, foi divertimento”

QUEM RI MELHOR (Noel Rosa)

Samba. Gravado ao vivo em 2009 com a Banda Jazz Sinfônica de Diadema. Música de 1936
Banda Jazz Sinfônica de Diadema – Orquestra profissional mantida pela Associação Musical de Diadema, que utiliza como local de ensaio o Teatro Clara Nunes, nessa cidade, onde foi gravado o vídeo. É dirigida por Todd Murphy, maestro norte-americano radicado no Brasil, também responsável pelos arranjos. Traz o estilo das “jazz big bands” tradicionais.

Quem ri melhor – Veja a gravação original no artigo “A arte da dor”

FEITIO DE ORAÇÃO (Noel Rosa-Vadico)

Samba. Clip gravado em 2009 com Paulão Costa. Música de 1933
Paulão Costa – violonista, guitarrista, compositor. Tem formação erudita no Conservatório de Brasília e na Universidade Livre de Música – São Paulo-SP. Participam também desta gravação Dino Barioni (guitarra) e Douglas Afonso (pandeiro).

Feitio de Oração – Veja a gravação original no artigo “Pra ninguém zombar de mim”

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Os vídeos deste post foram retirados do portal YouTube.

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Noel por Noel

SÉRIE: NOEL E SEUS INTÉRPRETES

Esta é a antepenúltima edição do Blog. Em sua nova fase, enfoca Noel Rosa relacionado aos cantores, principais responsáveis por torná-lo conhecido do grande público, com a gravação de sua obra. A série original NOEL ROSA – 100 CANÇÕES PARA O CENTENÁRIO já se completou e você pode acompanhá-la integralmente clicando artigos anteriores a 31 de outubro de 2010.

NOEL POR NOEL

Noel por Noel (auto-retrato de Noel Rosa)

O cantor Noel Rosa afirma, seguro, o pensamento do compositor. Cadenciado, sem pressa, sem pedantismos, sem presunção, a interpretação de Noel marca o tom da modernidade na música nos anos 1930. A asserção da nacionalidade da arte na Semana de 1922 chega à música popular comercial na década de Noel Rosa. A melodia ganha maior conexão com a terra, seus versos ditos com elegância, candura e com a maciez da voz, mais próxima do tom natural da fala.

O pensamento de Noel Rosa se expressa através da música, de sua lavra. Seu modo de ver o mundo é crítico – irônico, satírico; o jovem compositor não abre mão de dizer o que pensa, desde os primeiros passos na investida profissional. A vida, em tom de brincadeira, é coisa séria: cenas corriqueiras, hipocrisias, desigualdades sociais se expõem através de sua criação. E o Brasil vê-se bem retratado. Até sua morte, Noel Rosa foi o seu principal intérprete, gravando a maior parte de suas composições.

Ninguém mais adequado que o próprio Noel para dizer seu pensamento. A voz mirrada adquire força e forma convincentes ao cantar com precisão os belos versos de sua extensa obra. Doloridos e, ao mesmo tempo, cheios de graça. Versos inspirados na experiência cotidiana, fruto de seu olhar astuto e observador; produto de sua personalidade incomum, de sua sabedoria. Compositor talentoso, poeta divino, domina a magia do canto com simplicidade.

E quem quiser entender o papel inovador de Noel Rosa para o seu tempo, além de atentar à sua proposição melódica, que redefine o samba, de compreendê-lo em seu texto, que aproxima ainda mais o texto das melodias brasileiras da poesia, terá que ouvir atentamente os seus importantes registros fonográficos, entre 1930 e 1936. Talvez por isso só tenha encontrado melhor reconhecimento anos depois de morrer. O cantor Noel Rosa é imprescindível à música brasileira.

Próxima edição, domingo, 5 de dezembro: NOEL VIVO NO SÉCULO XXI

Músicas relacionadas

FESTA NO CÉU (Noel Rosa)

Toada. Primeira gravação em 1930 com Noel Rosa (78 rpm, selo Parlophon nº 13.185. Música de 1929)

O leão ia casá
Com sua noiva leoa,
E São Pedro, prá agradá
Preparou uma festa boa
Mandou logo um telegrama
Convidando o bicho macho
Que levasse todas dama
Que existisse cá por baixo

Pois tinha uma bela mesa
E um piano no salão
Findo o baile, por surpresa
No banquete do leão
Os bicho todo avisado
Tavam esperando o dia
Tudo tava preparado
Prá entrá enfim na orgia

E no tar dia marcado
Os bicho tomaro banho
Foru pro céu alinhado
Tudo em ordem por tamanho
O mosquito entrou na sala
Com um charuto na boca
Percevejo de bengala
E a barata entrou de toca

Zunindo qual uma seta,
Veio o pingüim do Pólo
O peixe de bicicleta
Como o tamanduá no colo
O siri chegou atrasado
No bico de um passarinho
Pois muito tinha custado
Prá bota seu colarinho

E o gato foi de luva
Para assisti o casório
Jacaré de guarda-chuva
E a cobra de suspensório
O porco de terno branco
Com um sapato sem sola
E o tigre de tamanco
De casaco e de cartola

De lacinho à borboleta
Veio o veado galheiro
E o burro de luneta
Montado num carroceiro
O macaco com a macaca
Com rouge pelo focinho
Estava engraçada a vaca
De porta-seio e corpinho

Vou breviá o discurso
Prá não dizê tantos nome
Lá foi a mulhê do urso
De cabeleira a la home
Quando o leão foi entrando
São Pedro muito se riu
E pro bicho foi gritando
– Caiu 1º de abril!

A presença do nordeste – “Festa no Céu” foi a música de estréia na vida profissional de Noel, no tempo do Bando dos Tangarás – grupo do qual participou, que trazia forte influência da estética caipira e do nordeste. “Minha viola” e “Mulata fuzarqueira” têm também esta marca.

MINHA VIOLA (Noel Rosa)

Embolada. Primeira gravação em 1930 com Noel Rosa (78 rpm, selo Parlophon nº 13.185. Música de 1929).

Minha viola
Tá chorando com razão
Por causa duma marvada
Que roubou meu coração

Eu não respeito cantadô que é respeitado
Que no samba improvisado
Me quisé desafiá
Inda outro dia fui cantá no galinheiro
O galo andou o mês inteiro
Sem vontade de cantá

Nesta cidade todo mundo se acautela
Com a tar de febre amarela
Que não cansa de matá
E a dona Chica que anda atrás de mal conselho
Pinta o corpo de vermelho
Pro amarelo não pegá

Minha viola
Ta chorando com razão
Por causa duma marvada
Que roubou meu coração

Eu já jurei não jogá com seu Saldanha
Que diz sempre que me ganha
No tal jogo do bilhar
Sapeca o taco nas bola de tal maneira
Que eu espero a noite inteira
Prás bola carambolá

Conheço um véio que tem a grande mania
De fazê economia
Prá modelo de seus filho
Não usa prato, nem moringa, nem caneca
E quando senta é de cueca
Prá não gastar os fundilho

Minha viola
Ta chorando com razão
Por causa duma marvada
Que roubou meu coração

Eu tive um sogro cansado dos rega-bofe
Que procurou o Voronoff
Doutô muito creditado
E andam dizendo que o enxerto foi de gato
Pois ele pula de quatro
Miando pelos telhado

Adonde eu moro tem o bloco dos filante
Que quase que a todo instante
Um cigarro vem filá
E os danado vem bancando inteligente
Diz que tão com dor de dente
Que o cigarro faz passá

Minha viola
Ta chorando com razão
Por causa duma marvada
Que roubou meu coração

Carambolar – No jogo de bilhar, é o choque sucessivo de uma bola contra as outras duas.

Rega-bofe – Festa com muita comida e bebida.

Voronoff – Em 1928 o Dr. Serge Voronoff, de descendência incerta, visitou o Brasil para divulgar sua técnica de “xenotransplante”, que é o transplante de células, tecidos ou órgão de uma espécie para outra. Ele prometia rejuvenescimento e longevidade! Chegou a realizá-lo em pacientes brasileiros e de várias nacionalidades (utilizando órgãos de animais). Caiu nas graças dos nossos compositores – Noel, com “Minha viola” e os parceiros Lamartine Babo e João Rossi com “Seu Voronoff”: “(…) A velhice na cidade / Canta em coro a nova estrofe / Já se sente a mocidade / Que lhe trouxe o Voronoff / Seu Voronoff / Seu Voronoff / Numa grande operação / Faz da tripa coração (…)”.

MULATA FUZARQUEIRA (Noel Rosa)

Samba. Primeira gravação em 1931 com Noel Rosa e Bando dos Tangarás (78 rpm, selo Parlophon nº 13.327)

Mulata fuzarqueira, artigo raro
Que samba de dá rasteira
E passa as noite inteira em claro
Não qué mais sabê de prepará as gordura
Nem cuidá mais das costura
O bom exemplo já te dei
Mudei a minha conduta
Mas agora me aprumei

Mulata fuzarqueira da Gamboa
Só anda com tipo à toa
Embarca em qualquer canoa
Mulata fuzarqueira da Gamboa
Ô… ô… embarca em qualquer canoa

Mulata, vou contá as minhas mágoa
Meu amô não tem erre
Mas é amô debaixo d’água !
Não gosto de te vê sempre a fazê certos papel
A se passá pros coronel …
Nasceste com uma boa sina
Se hoje andas bem no luxo
É passando a beiçolina

Mulata fuzarqueira da Gamboa
Só anda com tipo à toa
Embarca em qualquer canoa
Mulata fuzarqueira da Gamboa
Ô… ô… embarca em qualquer canoa

Mulata, tu tem que te prepará
Prá recebê o azá
Que algum dia há de chegá
Aceita o meu braço e vem entrá nas comida
Prá começá outra vida
Comigo tu podes vivê bem
Pois aonde um passa fome
Dois pode passá também

Mulata fuzarqueira da Gamboa
Só anda com tipo à toa
Embarca em qualquer canoa
Mulata fuzarqueira da Gamboa
Só anda com tipo à toa
Embarca em qualquer canoa

Passar Beiçolina – Passar “beiço”. Deixar de pagar dívidas. Dar calote

Fuzarqueira – Aquela que gosta de fuzarca, bagunceira, farrista.

BOM ELEMENTO (Noel Rosa-Quindinho)

Samba. Primeira gravação em 1931 com Arthur Costa e Noel Rosa (78 rpm, selo Colúmbia nº 22.023. Música de 1930).

Entrei no samba
Os malandros perguntaram
Se eu era bamba
No bater do tamborim
E o batuque
Eles logo improvisaram
Eu dei a cadência assim:

Meu bem, o valor dá-se a quem tem
A Vila e a Aldeia não perdem prá ninguém
(O que é que tem?)
Meu bem, o valor dá-se a quem tem
A Vila e a Aldeia não perdem prá ninguém

Com violência
Enfrentei a batucada
A harmonia
Do meu simples instrumento
Fez toda a turma
Ficar muito admirada
Porque sou bom elemento

Meu bem, o valor dá-se a quem tem
A Vila e a Aldeia não perdem pra ninguém
(Não diga, meu bem…)
Meu bem, o valor dá-se a quem tem
A Vila e a Aldeia não perdem prá ninguém

Quindinho (Euclydes Josephino Silva e Silveira). Compositor. Provavelmente do Rio de Janeiro, da Aldeia Campista, bairro vizinho à Vila Isabel. O livro de João Máximo e Carlos Didier o descreve como branco, alto, magro, com gestos e gírias do morro carioca.

Sobre Arthur Costa – v. artigo “Eu ando sem l’argent toujours”.

NUNCA… JAMAIS (Noel Rosa)

Samba. Primeira gravação em 1931 com Noel Rosa (78 rpm, selo Victor nº 33.488)

Meu bem,
Não me faças sofrer
Tu queres ter
Liberdade demais
Os homens
Tu conquistas um por um
Sem amar nenhum
Não, não pode ser
Nunca… jamais
Em tempo algum

Qualquer dia eu morro de um acesso
Só por ver o teu processo
De iludir os coronéis
Qualquer dia eu perco a paciência
Digo uma inconveniência
E depois te meto os pés
(E vou pagar vinte mil réis)

Deste a todo mundo tua mão
E teu pobre coração
Mas parece uma estalagem
Para salvação o que desejo
É mandar fazer o despejo
Pra poder descer bagagem
(Mas é preciso ter coragem)

Meu bem
(Meu bem)
Não me faças sofrer
(Não me faças sofrer)
Tu queres ter
(Tu queres ter)
Liberdade demais
(Liberdade demais)
Os homens
Tu conquistas um por um
Sem amar nenhum
Não, não pode ser
Nunca… jamais
Em tempo algum

Nada de ti posso aproveitar
Nada tens para me dar
Nem tens nota prá pintura
Todo mundo sabe que és pobre
Não herdaste o sangue nobre
E abusaste da feiúra
(Pra quem é pobre a lei é dura)

Noel cantor – Além das gravações desta semana, em 15 dos 21 primeiros posts do blog você encontrará o Noel cantor. São registros magníficos que merecem atenção especial.

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Marília Batista: com Noel no pensamento

SÉRIE: NOEL E SEUS INTÉRPRETES

A nova fase do Blog mostra Noel Rosa relacionado à obra de seus amigos, mais especificamente de seus amigos intérpretes. Os principais responsáveis por torná-lo conhecido do grande público, com a gravação de muitas de suas canções. A série original NOEL ROSA – 100 CANÇÕES PARA O CENTENÁRIO já se completou e você pode acompanhá-la integralmente clicando artigos anteriores a 31 de outubro de 2010.

MARÍLIA BATISTA: COM NOEL NO PENSAMENTO

Dueto Noel Rosa e Marília Batista (Ilustração Luquefar)

O nome Noel Rosa retoma seu caminho no início dos anos 1950. Depois de um período no ostracismo, o lançamento pela “Continental” de dois álbuns com seus sambas interpretados por Aracy de Almeida faz do poeta a novidade. Tanto é assim, que para a “Rádio”, gravadora que se apresenta ao mercado, é Noel a estrela de seu disco número um: o primeiro vinil da indústria fonográfica brasileira! Sambas de Noel na voz de Marília Batista, que também relança ali sua carreira de cantora.

A mesma Marília que, ainda com 14 anos de idade, teve a sorte de apresentar-se num salão de festas como amadora e assistir à exibição de Noel Rosa. Isto em 1932. Dois anos mais tarde, já atuando profissionalmente, vai se aproximar do compositor de Vila Isabel. Mais dois anos de convivência e estará formada uma nova dupla do samba carioca: Noel e Marília Batista. Serão seis sambas divinamente gravados, com muita graça e molejo e o devido reconhecimento público.

Com carreira promissora pela frente, Marília tem gênio diverso de sua concorrente direta na “disputa” como melhor intérprete de Noel, entre as queridas do poeta. Mais recatada que Aracy, é mais caseira. Continua gravando, mesmo depois da morte de Noel, com menor freqüência que sua rival e, anos mais tarde, abandona a carreira artística em nome do casamento. O convite da gravadora “Rádio” em 1952 e o lançamento do LP “Poeta da Vila” abrem-lhe boas oportunidades.

Em 1954 lança um segundo LP, incluindo nele mais duas de Noel (inclusive a inédita “Remorso”), além de canções de sua própria autoria, com o parceiro e irmão Henrique Batista. Em 1963 envolve-se com um projeto audacioso, mas mal executado do selo “Nilser”, registrando 80 músicas do poeta, em dois discos, com pout-pourris longos e arranjos lineares. Mantém-se, entretanto, ligada ao nome de Noel Rosa e dedicada à sua divulgação, com contribuição significativa nesta tarefa.

Próxima edição, domingo, 28 de novembro: NOEL POR NOEL

Músicas relacionadas

FEITIO DE ORAÇÃO (Noel Rosa-Vadico)

Samba. Em 1952 por Marília Batista (música de 1933. LP10”33⅓ rpm, selo Rádio 0001)

Quem acha vive se perdendo
Por isso agora eu vou me defendendo
Da dor tão cruel desta saudade
Que, por infelicidade
Meu pobre peito invade

O samba é um privilégio
Ninguém aprende samba no colégio
Sambar é chorar de alegria
É sorrir de nostalgia
Dentro da melodia

Por isso agora lá na Penha
Vou mandar o meu moreno
Pra cantar com satisfação
E com harmonia
Esta triste melodia
Que é meu samba em feito de oração

O samba na realidade não vem do morro
Nem lá da cidade
E quem suportar uma paixão
Sentirá que o samba então
Nasce do coração.

“Poeta da Vila – sambas de Noel Rosa” – LP da gravadora “Rádio” que inaugurou um novo tempo da fonografia brasileira com o disco de vinil. Marília Batista é a intérprete das canções de Noel, bem arranjadas para orquestra por Aldo Taranto.

Marília Batista e Vadico foram também citados no artigo “Eu ando sem l’argente toujours

Dueto Noel e Marília – Você acompanha a dupla em artigos anteriores do blog nas gravações: De bababo e Cem mil-réis (“Eu ando sem l’argente toujours”); Quem ri melhor (“A arte da dor”); Provei (“Amor tom de cinza”); Quantos beijos (“O fado dos mestres”); Silêncio de um minuto (“A saudade não tem cor”); e Você vai se quiser (“Foi negócio, foi divertimento”). Marília canta “Tipo zero” no artigo “Tipos da cidade”.

REMORSO (Noel Rosa)

Samba-canção. Primeira gravação em 1954 por Marília Batista (música de 1934. 33⅓ rpm, selo Musidisc HiFi 2060)

Remorso todos nós temos na vida
Para marcar a quadra dolorida
Que não se pode olvidar
Remorso muitas vezes é saudade
Da felicidade que não se soube aproveitar
Remorso é acompanhar o enterro
De um grande erro
Que não se pode consertar

Remorso é sonhar acordado
É sentir no presente o passado
É ver nas trevas um vulto
Que ameaça descobrir
O segredo mais oculto

Remorso é aquilo que tu sentes
Perto de alguém na hora em que tu mentes
Com sutilizas sem fim
Remorso é veneno em poesia
E eu hoje em dia
Vivo com ódio até de mim
Eu sofro com pena do teu remorso
E muito me esforço
Prá não ter tanta pena assim

“Marília Batista, sua personalidade… sua bossa…” – LP de 1954, o segundo da carreira da cantora, com esta inédita de Noel e a próxima canção do post, dedicada à Vila Isabel. Produzido e gravado por Nilo Sérgio.

VILA DOS MEUS AMORES (Marília Batista-Henrique Batista)

Samba. Primeira gravação em 1954 por Marília Batista (LP 10” 33⅓ rpm, selo Musidisc HiFi 2060)

Vila Isabel
Terra que parece um céu
Onde todo o sofrimento
É transformado em samba
Vila dos meus amores
Onde a teca finda flores
De vários matizes e de todas as cores
Dos bairros desta cidade
És e serás o primeiro
Vila, capital do Rio de Janeiro

Lá toda e qualquer tristeza
Foge com toda presteza
Ouvindo um samba cantado
Por um namorado
Lá há carícia no olhar
Há samba no coração
De cada desengano nasce
Uma nova ilusão
Lá há carícia no olhar
Há samba no coração
De cada desengano nasce
Uma nova ilusão

Henrique Batista (28/09/1908) – Do Rio de Janeiro, RJ. Compositor. Feitas sempre em parceria com a irmã Marília Batista, suas composições foram gravadas desde 1932. Mais recentemente viu seu samba “Moreira na Ópera” registrado por Jards Macalé. Tem cerca de 20 canções gravadas por grandes intérpretes brasileiros.

VERDADE DUVIDOSA (Noel Rosa)

Pout-pourri de sambas – Em 1963 com Marília Batista (33⅓ rpm, selo Nilser nº NS1011 vol. 02, faixa 4)

Deus vê tudo e tudo sabe
Mas não sabe calcular
A hipocrisia que cabe
Dentro deste teu olhar
Nem com meu ciúme nego
Tens razão, estou convencida
Pois tu também vives cego
Às mentiras desta vida

Sofreste por mim cantando
Zombaste de mim chorando
Apenas pra me enganar
Mas vou perguntar aos sábios
Se a mentira nos teus lábios
É verdade em teu olhar

Eu te fito humildemente
Mas meus lábios te censuram
Porque teu olhar desmente
O que os meus lábios juram
Eu por ti sou enganada
Por gostar de me enganar
Por querer ser contemplada

PARA ATENDER A PEDIDO (Noel Rosa)

Para atender a pedido
Tudo o que eu tenho sofrido
Eu preciso esquecer
Pois é preciso esquecer
Pra poder te perdoar
Antes de te visitar

Deves te acostumar
A fazer o que eu mandar
E a me respeitar
Fica estabelecido
Que não mentes nunca mais
Para atender a pedido

Para atender a pedido
Tudo o que eu tenho sofrido
Eu preciso esquecer
Pois é preciso esquecer
Pra poder te perdoar
Antes de te visitar

Antes de esquecer
O teu triste proceder
Que me fez padecer
Eu já tinha me convencido
Que havia de voltar
Para atender a pedido

MEU BARRACÃO (Noel Rosa)

Faz hoje quase um ano
Que eu não vou visitar
Meu barracão lá da Penha
Que me faz sofrer
E até mesmo chorar
Por lembrar a alegria
Com que eu sentia
Um forte laço de amor
Que nos unia

Não há quem tenha
Mais saudades lá da Penha
Do que eu, juro que não
Não há quem possa
Me fazer perder a bossa
Só saudade do barracão

Mas veio lá da Penha
Hoje uma pessoa
Que trouxe uma notícia
Do meu barracão
Que não foi nada boa
Já cansado de esperar
Saiu do lugar
Eu desconfio que ele
Foi me procurar

Não há quem tenha
Mais saudades lá da Penha
Do que eu, juro que não
Não há quem possa
Me fazer perder a bossa
Só saudade do barracão

CARA OU COROA (Noel Rosa-Francisco Matoso)

Vai pra casa depressa
Vai prevenir teu senhor
Que vou cumprir a promessa
Que fiz de possuir teu amor

Não quero ser um covarde
Volta depressa pro teu barracão
Antes que seja bem tarde
Para salvar a tua situação

Quando a mulher desequilibra
Dois malandros que têm fibra
Só há uma solução:
Pra que brigar à-toa?
Basta tirar cara ou coroa
Com um níquel de tostão

Se não basta tirar a sorte
Se o amor falar mais forte
Sou o dono da questão
E ao teu antigo dono
Tu vais dar teu abandono
Dando a mim teu coração

MENTIR (Noel Rosa)

Mentir, mentir
Somente para esconder
A mágoa que ninguém deve saber
Mentir, mentir
Em vez de demonstrar
A nossa dor num gesto ou num olhar

Saber mentir é prova de nobreza
Pra não ferir alguém com a franqueza
Mentira não é crime
É bem sublime o que se diz
Mentindo para fazer alguém feliz

É com a mentira que a gente se sente mais contente
Por não pensar na verdade
O próprio mundo nos mente, ensina a mentir
Chorando ou rindo, sem ter vontade

E se não fosse a mentira, ninguém mais viveria
Por não poder ser feliz
E os homens contra as mulheres na terra
Então viveriam em guerra
Pois no campo do amor
A mulher que não mente não tem valor

“História musical de Noel Rosa por Marília Batista” – Álbum duplo da “Nilser”, de 1963, reunindo 80 das 138 músicas de Noel Rosa até então catalogadas por Jacy Pacheco. Os arranjos, apesar de assinados por Guerra Peixe, grande nome de nossa música erudita, pecam por excessiva linearidade.

Sobre Francisco Mattoso – v. artigo “Cronista da arte e da canção”.

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Aracy: a voz do coração

SÉRIE: NOEL E SEUS INTÉRPRETES

A nova fase do Blog mostra Noel Rosa relacionado à obra de seus amigos, mais especificamente de seus amigos intérpretes. Os principais responsáveis por torná-lo conhecido do grande público, com a gravação de muitas de suas canções. A série original NOEL ROSA – 100 CANÇÕES PARA O CENTENÁRIO já se completou e você pode acompanhá-la integralmente clicando artigos anteriores a 31 de outubro de 2010.

ARACY: A VOZ DO CORAÇÃO

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A cantora Aracy de Almeida, sai do Encantado, subúrbio pobre do Rio de Janeiro, para encantar Noel Rosa, com estilo particular, muita graça e bossa. Chega a ser considerada por ele quem melhor interpreta suas canções. Aracy vai mais longe: torna-se a maior responsável pela permanência entre nós deste inspirado criador. E não há exagero na tese. Uma análise na discografia do poeta pode demonstrá-la ou, pelo menos, fundamentar a afirmação. A ela devemos, todos nós, este valioso préstimo!

O livro “Noel Rosa, uma biografia”, de João Máximo e Carlos Didier faz levantamento dos registros de músicas do poeta da Vila até o ano de 1987. Até 1936, 134 gravações – o que representa, em média, 24 novos registros de Noel por ano. Entretanto, após sua morte, de 1937 até 1949, minguadas dezessete gravações em quatorze anos! Em quatro deles Noel sequer é lembrado em disco. O compositor praticamente sai de cartaz e poderia cair no esquecimento, não fosse um detalhe…

A evolução tecnológica que traz o gravador de fita e melhor condição para o registro do som, além do vinil de 10 polegadas. Aracy aproveita as novidades para lançar em 1950 e 51 dois álbuns bem cuidados com 12 canções de Noel, capa ilustrada por Di Cavalcanti e arranjos de Radamés Gnatalli. E arrasa! Daí pra frente, centenas de intérpretes querem gravar sua obra. São mais de 1.150 gravações de 1950 a 1987 ou 30, em média, por ano! O período recente aumentará a proporção.

Amiga do poeta da Vila, sua companheira inseparável de noitadas célebres, Aracy de Almeida salva Noel Rosa e o resgata para a posteridade. Salva-o sua voz emocionada e jeito apaixonado de dizê-lo e cantá-lo. Consciência e desprendimento de Aracy reerguem-no, diferentemente de Francisco Alves, que não mais se interessa em gravá-lo. Na voz de Aracy, Noel reaparece genial e moderno, como grande surpresa àquela e às futuras gerações, para ficar em destaque, no podium de nossa música popular!

Próxima edição, domingo, 21 de novembro: MARÍLIA BATISTA – COM NOEL NO PENSAMENTO

Músicas relacionadas

TRÊS APITOS (Noel Rosa)

Samba-canção. Em 1951 com Aracy de Almeida (78 rpm, selo Continental nº 16392 B)

Quando o apito da fábrica de tecidos
Vem ferir os meus ouvidos
Eu me lembro de você
Mas você anda
Sem dúvida bem zangada
E está interessada
Em fingir que não me vê

Você que atende ao apito
De uma chaminé de barro
Por que não atende ao grito
Tão aflito
Da buzina do meu carro

Você no inverno
Sem meias vai pro trabalho
Não faz fé com o agasalho
Nem no frio você crê
Mas você é mesmo
Artigo que não se imita
Quando a fábrica apita
Faz reclame de você

Nos meus olhos você lê
Que eu sofro cruelmente
Com ciúmes do gerente
Impertinente
Que dá ordens a você

Sou do sereno
Poeta muito soturno
Vou virar guarda-noturno
E você sabe por quê
Mas você não sabe
Que enquanto você faz pano
Faço junto do piano
Estes versos prá você

Aracy de Almeida foi também citada no artigo “Era a lua que tudo assistia”

Três apitos – A música foi incluída no artigo “A arte da dor”, com gravação original de Orlando Silva em 1933.

Os álbuns mágicos “Noel Rosa” de Aracy – A gravação de “Três apitos” está incluída no segundo de dois lançamentos da Continental (1950/51). Em cada um deles, seis canções de Noel em três discos de 78 rpm, reunidos em álbum de capa dura, colorida e texto explicativo – novidades na industria do disco no Brasil que chamaram a atenção do público. Mais tarde, em 1954, oito destas gravações foram reagrupadas no primeiro LP de Aracy. Um ano depois, Aracy repete a dose, com novo LP: “Canções de Noel Rosa, com Aracy de Almeida”, e mais 8 preciosidades, duas delas incluídas neste post: a então inédita (e surpreendente) “Voltaste” e a “Cansei de Pedir”, nossa próxima música. Uma curiosidade: Aracy e o diretor musical e arranjador do LP, Vadico (parceiro de Noel em 11 belíssimas canções) mostram um Noel compositor e letrista, sem parcerias, sem parceiros.

CANSEI DE PEDIR (Noel Rosa)

Samba. Em 1955 com Aracy de Almeida (33⅓ rpm LP 10” selo Continental nº LPP10)

Já cansei de pedir prá você me deixar
Dizendo que não posso mais continuar
Amando sem querer amar
Meu Deus, estou pecando
Amando sem querer
Me sacrificando
Sem você merecer!

Amar sem ter amor é um suplício
Você não compreende a minha dor
Nem pode avaliar
O sacrifício que eu fiz
Para ver você feliz!

Já cansei de pedir prá você me deixar
Dizendo que não posso mais continuar
Amando sem querer amar
Meu Deus, estou pecando
Amando sem querer
Me sacrificando
Sem você merecer!

Com a ingratidão eu não contava
Você não compreende a minha dor
Você, se compreendesse
Me deixava sem chorar
Para não me ver penar

Cansei de Pedir – A música foi incluída no artigo “Amor tom de cinza”, com a gravação original da própria Aracy em 1935.

VOLTASTE (Noel Rosa)

Samba-canção. Primeira gravação em 1955 com Aracy de Almeida (33⅓ rpm LP 10” selo Continental nº LPP10)

Voltaste
Novamente pro subúrbio
Vai haver muito distúrbio
Vai fechar o botequim
Voltaste
E o despeito te acompanha
E te guia na campanha
Que tu fazes contra mim

O guarda
Que apitava ressonando
Anda alerta envergando
O seu capote de lã
Voltaste
Para fabricar defunto
Para fornecer assunto
Aos diários da manhã

Voltaste
Novamente sem dinheiro
Tapeando o açougueiro
Que não tem golpe de vista
Voltaste
Com um cão muito valente
Que só tiras da corrente
Quando chega o prestamista

Voltaste
Para mostrar ao nosso povo
Que não há nada de novo
Lá no Centro da cidade
Voltaste
Demonstrando claramente
Que o subúrbio é ambiente
De completa a liberdade

Voltaste
Mas falhou o teu projeto
Não te dou o meu afeto
Quando eu quero eu sou ruim
Voltaste
Confessando sem vaidade
Que a tua liberdade
É viver bem preso a mim

Voltaste
Novamente sem dinheiro
Tapeando o açougueiro
Que não tem golpe de vista
Voltaste
Com um cão muito valente
Que só tiras da corrente
Quando chega o prestamista

Prestamista – Eram comerciantes que vendiam à prestação, de porta em porta. E depois voltavam para cobrar a dívida…

CAMISA AMARELA (Ary Barroso)

Samba. Primeira gravação em 1939 com Aracy de Almeida

Encontrei o meu pedaço na avenida
De camisa amarela
Cantando “A Florisbela”, oi, “A Florisbela”
Convidei-o a voltar pra casa
Em minha companhia
Exibiu-me um sorriso de ironia
Desapareceu no turbilhão da galeria

Não estava nada bom
O meu pedaço na verdade
Estava bem mamado
Bem chumbado, atravessado
Foi por aí cambaleando
Se acabando num cordão
Com o reco-reco na mão
Mais tarde o encontrei
Num café zurrapa
Do Largo da Lapa
Folião de raça
Tomando o quinto copo de cachaça
(Isto não é chalaça)

Voltou às sete horas da manhã
Mas só na quarta feira
Cantando “A Jardineira”, oi, “A Jardineira”
Me pediu ainda zonzo
Um copo d’água com bicarbonato
O meu pedaço estava ruim de fato
Pois caiu na cama
E não tirou nem o sapato

E roncou uma semana
Despertou mal humorado
Quis brigar comigo
Que perigo, mas não ligo!
O meu pedaço me domina
Me fascina, ele é o tal
Por isso não levo a mal
Pegou a camisa, a camisa amarela
E botou fogo nela
Gosto dele assim
Passou a brincadeira
E ele é pra mim
(Meu Sinhô do Bonfim)

Sobre Ary Barroso v. artigo “A saudade não tem cor”.

Zurrapa – De má qualidade, de segunda.

SAIA DO MEU CAMINHO (Custódio Mesquita-Evaldo Rui)

Samba-canção. Primeira gravação em 1946 com Aracy de Almeida (78 rpm, selo Odeon nº 12.686B)

Junte tudo que é seu, seu amor, seus trapinhos
Junte tudo o que é seu e saia do meu caminho
Nada tenho de meu
Mas prefiro viver sozinha
Nosso amor já morreu
E a saudade se existe é minha

Tinha até um projeto, no futuro, um dia
O nosso mesmo teto
Mais uma vida abrigaria
Fracassei novamente
Pois sonhei, mas sonhei em vão
E você francamente, decididamente
Não tem coração

Sobre Custódio Mesquita v. artigo “A arte da dor”.

Evaldo Rui – Evaldo Rui Barbosa (9/4/1913 – 4/8/1954). Do Rio de Janeiro, RJ. Locutor, radialista e letrista. Foi parceiro constante de Custódio Mesquita. Os dois assinam cerca de 20 músicas juntos. Trabalhou no rádio e na televisão, com passagens e trabalhos em várias emissoras, que o levaram ao cargo de diretor artístico.

Lançando Aracy – Custódio Mesquita, além de grande compositor, pianista e maestro, parceiro de Noel Rosa, foi o responsável pelo lançamento de Aracy de Almeida no mundo artístico. Depois de escutá-la cantando em um encontro casual, garantiu lugar para a estréia da intérprete na Rádio Educadora, em 1933. E fez muito bem para o Brasil. A morte prematura do compositor com apenas 35 anos, em 1945, impediu que conhecesse o registro de Aracy para “Saia do meu caminho”. Originalmente um choro, a canção foi adaptada pelo parceiro Evaldo Rui como samba-canção, para a referida gravação.

___________________________

COMEMORAÇÕES DO CENTENÁRIO DE NOEL ROSA
Vejam o convite abaixo, direto de Vila Isabel, Rio de Janeiro:

“Convidamos a Coordenação, colaboradores e leitores do “Noel Rosa – 100 canções para o centenário” para os festejos dos cem anos de Noel Rosa.
O Bloco Eu sou eu, jacaré é bicho d’água promoverá sua costumeira festa de aniversário de Noel Rosa sendo que esse ano o centenário engrandecerá a festa.

A programação de 11 de dezembro será assim:
16 horas – Concentração e roda de samba choro junto à estátua de Noel na Vinte e Oito de Setembro com São Francisco Xavier
18 horas – Caminhada musical da estátua até a esquina do Jacaré – Visconde de Abaeté com Torres Homem
19 horas – Roda de Samba Choro na esquina do Jacaré com o Grupo Caviuna e canjas

Desde já, convidamos para um bate papo de organização da festa no dia 21 próximo, domingo, no Bar do Costa, esquina do Jacaré, às 20 horas.

Sergio Rosa
pela coordenação do Jacaré”

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O canto falado de Mário Reis

SÉRIE: NOEL E SEUS INTÉRPRETES

A nova fase do Blog mostra Noel Rosa relacionado à obra de seus amigos, mais especificamente de seus amigos intérpretes. Os principais responsáveis por torná-lo conhecido do grande público, com a gravação de muitas de suas canções. A série original NOEL ROSA – 100 CANÇÕES PARA O CENTENÁRIO já se completou e você pode acompanhá-la integralmente clicando artigos anteriores a 31 de outubro de 2010.

O CANTO FALADO DE MÁRIO REIS

 

Mário Reis: doutor em samba (Ilustração Luquefar)

 

A década de 1930 é um período de ouro para a música brasileira na Capital Federal. Nela, um jeito novo de tocar o samba consolida o ritmo com autenticidade, “liberto” definitivamente do maxixe. A marcha ganha espaço como canção carnavalesca, com sotaque nacional, bem diverso dos dobrados militares. As novas tecnologias do rádio e do disco alargam as possibilidades tanto para artistas e produtores, quanto para o público consumidor. Inúmeras novidades afloram.

Um jovem filho de família de empresários está atento a este movimento. Em 1927, aos vinte anos de idade, estuda violão com seu ídolo da música: o compositor Sinhô, o “rei do samba” e é por ele convidado a experimentar o registro em fonogramas algumas de suas canções. Já é mais viável cantar no Brasil nesses tempos da gravação elétrica, e esse garoto não perde as oportunidades do convite do Sinhô e das novas condições técnicas, para se despontar no cenário musical.

Os intérpretes até então tinham que dominar o jeito “forte” do bel canto, da tradição interpretativa da ópera italiana, para que a voz pudesse ser registrada no disco. Agora, com o amplificador e microfone, não há essa necessidade… Porém, quase ninguém se dá conta disto. Não o aluno do Sinhô, que aparece para modernizar a forma do canto no país. Usa a voz com suavidade, sem afetações, sem prolongamentos de notas. Canta quase como se fala, e antecipa em três décadas João Gilberto.

Ao gosto do criador popular, em sintonia com o samba, chega este Mário Reis. Torna-se fã de Noel Rosa e um de seus cantores mais fidedignos. Poucos conseguem tamanha precisão para contar o que nos diz o poeta da Vila, lançando 24 de suas canções, seguindo de perto sua carreira. No mesmo ano da morte de Noel, no apogeu do reconhecimento público e sem muitas explicações, Mario Reis abandona a vida artística. Volta a gravar de forma esporádica. Deixou, entretanto, quase cem registros imprescindíveis à MPB.

Próxima edição, domingo, 14 de novembro: ARACY – A VOZ DO CORAÇÃO

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MULATO BAMBA (Noel Rosa)

Samba – primeira gravação em 1932 com Mário Reis

Esse mulato forte é do Salgueiro
Passear no tintureiro é o seu esporte
Já nasceu com sorte e desde pirralho
Vive às custas do baralho
Nunca viu trabalho

E quando tira samba é novidade
Quer no morro ou na cidade
Ele sempre foi o bamba
As morenas do lugar
Vivem a se lamentar
Por saber que ele não quer
Se apaixonar por mulher

O mulato é de fato
E sabe fazer frente a qualquer valente
Mas não quer saber de fita
Nem com mulher bonita

Sei que ele anda agora aborrecido
Por que vive perseguido
Sempre, a toda hora
Ele vai-se embora
Para se livrar
Do feitiço e do azar
Das morenas de lá

Eu sei que o morro inteiro vai sentir
Quando o mulato partir
Dando adeus para o Salgueiro
As morenas vão chorar
Vão pedir prá ele voltar
E ele não diz com desdém:
– Quem tudo quer, nada tem!

Mário Reis foi também citado no artigo “Prá ninguém zombar de mim”

Tintureiro – o mesmo que camburão, carro de polícia que transporta presos.

CAPRICHO DE RAPAZ SOLTEIRO (Noel Rosa)

Samba – primeira gravação em 1933 com Mário Reis

Nunca mais esta mulher
Me vê trabalhando!
Quem vive sambando
Leva a vida para o lado que quer
De fome não se morre
Neste Rio de Janeiro
Ser malandro é um capricho
De rapaz solteiro

A mulher é um achado
Que nos perde e nos atrasa
Não há malandro casado
Pois malandro não se casa

Com a bossa que eu tiver
Orgulhoso vou gritando:
Nunca mais esta mulher
Nunca mais esta mulher
Me vê trabalhando

Nunca mais esta mulher
Me vê trabalhando!
Quem vive sambando
Leva a vida para o lado que quer
De fome não se morre
Neste Rio de Janeiro
Ser malandro é um capricho
De rapaz solteiro

Antes de descer ao fundo
Perguntei ao escafandro
Se o mar é mais profundo
Que as idéias do malandro

Vou, enquanto eu puder,
Meu capricho sustentando
Nunca mais esta mulher
Nunca mais esta mulher
Me vê trabalhando

Nunca mais esta mulher
Me vê trabalhando!
Quem vive sambando
Leva a vida para o lado que quer
De fome não se morre
Neste Rio de Janeiro
Ser malandro é um capricho
De rapaz solteiro

Escafandro – vestimenta do escafandrista (mergulhador). Noel utiliza a palavra referindo-se àquele que mergulha. Poetas como Noel, vez por outra, usam termos sofisticados assim… Em “Futuros amantes” Chico Buarque busca o mesmo e incomum vocábulo.

JURA (Sinhô)

Samba – primeira gravação em 1928 com Mário Reis

Jura, jura, jura
Pelo Senhor
Jura pela imagem
Da santa cruz do redentor
(Prá ter valor a tua…)

Jura, jura, jura
De coração
Para que um dia
Eu possa dar-te o amor
Sem mais pensar na ilusão

Daí, então
Dar-te eu irei
O beijo puro na catedral do amor
Dos sonhos meus
Bem junto aos teus
Para fugir das aflições da dor

Jura, jura, jura
Pelo Senhor
Jura pela imagem
Da santa cruz do redentor
(Prá ter valor a tua…)

Jura, jura, jura
De coração
Para que um dia
Eu possa dar-te o meu amor
Sem mais pensar na ilusão

Sinhô – José Barbosa da Silva (08/09/1888 – 04/08/1930) Rio de Janeiro-RJ. Compositor, pianista, violonista, cavaquinista e flautista. Intitulado o “rei do samba” foi responsável pelo elo entre a fase primitiva e a “Época de Ouro” – de Noel e Ismael – de consolidação do samba atual. “Jura” tornou-se o maior sucesso da carreira de Mário Reis, que deu à música uma interpretação intimista, revolucionária para a época; é um bom exemplo do samba “amaxixado” de Sinhô, estilo dominante no cenário musical do Rio de Janeiro dos anos 1920.

Ídolo de Noel Rosa – O livro “Noel Rosa, uma biografia” relata sobre o encontro de Noel, ainda no princípio de carreira, com seu maior ídolo na música, Sinhô. Acanhado, dirige-se até sua casa e fica espantado com a precária condição de vida. Naquela época, de fato, músicos não recebiam o valor merecido. Pergunta-lhe então sobre o piano, que não havia visto (Sinhô trabalhava na Casa Édson tocando piano para os clientes). E o artista estende sobre a mesa uma faixa, com o desenho das teclas, onde treinava a execução e, muitas vezes, compunha suas canções!

GOSTO QUE ME ENROSCO (Sinhô)

Samba – primeira gravação em 1928 com Mário Reis.

Não se deve amar sem ser amado
É melhor morrer crucificado
Deus nos livre das mulheres de hoje em dia!
Desprezam um homem só por causa da orgia

Gosto que me enrosco de ouvir dizer
Que a parte mais fraca é a mulher
Mas o homem com toda a fortaleza
Desce da nobreza e faz o que ela quer

Dizem que a mulher é parte fraca
Nisto é que eu não posso acreditar
Entre beijos e abraços e carinhos
O homem não tendo é bem capaz de roubar

Gosto que me enrosco de ouvir dizer
Que a parte mais fraca é a mulher
Mas o homem com toda a fortaleza
Desce da nobreza e faz o que ela quer

Instrumentista talentoso – nesta gravação histórica, com voz e violão, Mário Reis é acompanhado pelo próprio Sinhô, que demonstra habilidade com o instrumento. A composição foi classificada pelo compositor como samba, mas mantém as características de um autêntico maxixe.

“Rei dos meus sambas” – A melodia de “Gosto que me enrosco” foi reivindicada por Heitor dos Prazeres, como sendo sua, numa famosa polêmica com Sinhô (v. artigo “Cronosta da arte e da canção”).

AGORA É CINZA (Bide-Marçal)
Samba – primeira gravação em 1934 com Mário Reis

Você partiu
Saudades me deixou
Eu chorei
O nosso amor, foi uma chama
O sopro do passado desfaz
Agora é cinza
Tudo acabado e nada mais!

Você
Partiu de madrugada
E não me disse nada
Isto não se faz
Me deixou cheio de saudades
E paixão
Não me conformo
Com a sua ingratidão
(Chorei porque…)

Você partiu
Saudades me deixou
Eu chorei
O nosso amor, foi uma chama
O sopro do passado desfaz
Agora é cinza
Tudo acabado e nada mais!

Agora desfeito o nosso amor
Eu vou chorar de dor
Não posso esquecer
Vou viver distante dos teus olhos
Ó querida
Nem me deu
Um adeus, por despedida!

Bide Alcebíades Maia Barcelos (25/7/1902 – 18/3/1975), de Niterói, RJ. Compositor, percussionista. Residiu no bairro do Estácio, onde freqüentava rodas de samba e conheceu Ismael Silva, com quem fundou a “Deixa Falar”. Bide foi um dos muitos parceiros de Noel Rosa (v. artigo “O samba mulato”). Marçal – Armando Vieira Marçal (14/10/1902 – 20/6/1947) do Rio de Janeiro, RJ. Compositor e radialista. Trabalhou como lustrador de móveis, apesar das dezenas de sambas geniais que compôs, quase todos com o parceiro Bide. “Pela primeira vez” é outro bom exemplo. A dupla fez história!

Diabos do Céu – Pixinguinha teve atuação destacada também como arranjador e maestro em centenas de gravações. Formou o “Diabos do Céu”, que se reunia para gravar, acompanhando intérpretes, como nesta gravação. É que naquele tempo, sem a fita magnética, quando havia erro, perdia-se o trabalho. Um grupo de craques facilitava tudo.

O melhor samba – Em 1975, um júri de críticos foi convocado pelo produtor Marcus Pereira, da gravadora homônima, para escolher os mais representativos sambas compostos no Brasil. “Agora é cinza” ficou em primeiro lugar!

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