De Dona Maria, Seu João e outros

“Dizem que o burro fica admirado diante de um palácio. Será que se admira de ver a desigualdade que existe entre os homens? Ou a fragilidade das construções?”

Noel Rosa: sem medos (escultura autoria Luquefar)

Ao ver um filme do Chaplin deparamo-nos com um cidadão comum americano, um cidadão comum do planeta, esfarrapado, molambento, roto, como personagem principal da trama. É ele quem importa, quem decide, quem constrói, quem nos faz tomados de emoção. E ficamos assim, todos, sempre, impressionados com este anti-herói! Carlitos é fruto da alta sensibilidade de um artista maior, que viu na representação, no cinema e na música forma de descrever sua visão sobre o relacionamento humano.

Os artistas mais capazes e surpreendentes deixam à vista doses extremas de simpatia pelos homens, por suas causas, por suas batalhas, mais que por sua ganância. Astutos, observadores, provocantes, têm ajudado, por séculos, na melhor compreensão sobre a complexa figura do que somos. Nós, humanos ávidos de sonhos, deixamos aos artistas a utilização desta capacidade. Com ela, os operários da arte ganham possibilidades esplêndidas. Tornam-se visionários aventureiros das transformações.

Noel de Medeiros Rosa foi lúcido representante na leva de grandes artistas. Motivo de orgulho. O Brasil já ofereceu outros de invejável potencial, mas, na área da música popular, Noel tem particularidades que o tornam singular. Contemporâneo de um período de modernização estética do samba, muito contribui para isto. Realiza obra de versificação na música com sabor original, nacional e moderno, propriedades até hoje dignas de teses de estudos acadêmicos.

Pois o nosso Noel, brasileiro e universal, traz-nos, com seu trabalho, um retrato complexo da sociedade no seu tempo, com dualidade e dialética. Os cidadãos simples obtêm espaço em sua obra e atenção especial. Crítico, tanto ardiloso quanto irônico, posiciona-se afetivamente ao lado de desconhecidos e abandonados do Rio de Janeiro. A capital federal foi, naquela época, seu mundo, mundo, vasto mundo; desconhecido e profundo. Como grande criador, Noel Rosa arrisca-se nele, sem medos.

Na próxima edição, domingo, dia 27 de junho: COMO? QUANDO? ONDE?

As canções relacionadas

MARIA FUMAÇA (Noel Rosa)

Samba. Primeira gravação em 1936 com Almirante

Maria Fumaça
Fumava cachimbo
Bebia cachaça
Maria Fumaça
Fazia arruaça
Quebrava vidraça
E só de pirraça
Matava as galinhas
De suas vizinhas
Maria Fumaça
Só achava graça
Na própria desgraça

Dez vezes por dia
A delegacia
Mandava um soldado
Prender a Maria
Mas quando se via
Na frente do praça
Maria sumia
Tal qual a fumaça

Maria Fumaça
Não diz mais chalaça
Não faz mais trapaça
Somente ameaça
Que acaba com a raça
Bebendo potassa
Perdeu o rompante
Foi presa em flagrante
Roubando um baralho
Não faz mais conflito
Está no distrito
Lavando o assoalho

Sobre Almirante – v. artigo anterior.

Praça – soldado de polícia.

Potassa – nome dado a vários derivados do elemento químico potássio. Podem ser utilizados como veneno.

Distrito – no caso, de Distrito de Polícia, cadeia.

JOÃO NINGUÉM (Noel Rosa)

Samba. Primeira gravação em 1935 com Noel Rosa

João Ninguém
Que não é velho nem moço
Come bastante no almoço
Prá se esquecer do jantar
Num vão de escada
Fez a sua moradia
Sem pensar na gritaria
Que vem do primeiro andar

João Ninguém
Não trabalha um só minuto
Mas joga sem ter vintém
E vive a fumar charuto
Esse João
Nunca se expôs ao perigo
Nunca teve um inimigo
Nunca teve opinião

João Ninguém
Não tem ideal na vida
Além de casa e comida
Tem seus amores também
E muita gente
Que ostenta luxo e vaidade
Não goza a felicidade
Que goza João Ninguém!

João Ninguém
Não trabalha um só minuto
Mas joga sem ter vintém
E vive a fumar charuto
Esse João
Nunca se expôs ao perigo
Nunca teve um inimigo
Nunca teve opinião

João Ninguém – Noel, já com tuberculose, se transfere para Belo Horizonte em 1935, hospedado por sua tia Carmem. O clima da capital mineira, na época, favorecia o tratamento, por onde passou uma temporada. Esta canção pertence à safra de músicas compostas sob a influência mineira.

Liberty Ovais – a versão original de “João Ninguém”, nunca gravada, registra os versos (trocados na gravação) “João Ninguém não trabalha e é dos tais, mas joga sem ter vintém e fuma Liberty Ovais. Esse João nunca se expôs etc.”. Referia-se à marca de um famoso cigarro da Souza Cruz.

TARZAN, O FILHO DO ALFAIATE (Noel Rosa-Vadico)

Samba-choro. Primeira gravação em 1936 com Almirante

Quem foi que disse que eu era forte?
Nunca pratiquei esporte
Nem conheço futebol
O meu parceiro sempre foi o travesseiro
E eu passo o ano inteiro
Sem ver um raio de sol

A minha força bruta reside
Em um clássico cabide
Já cansado de sofrer
Minha armadura é de casimira dura
Que me dá musculatura
Mas que pesa e faz doer

Eu poso pros fotógrafos
E distribuo autógrafos
A todas as pequenas
Lá da praia de manhã
Um argentino disse
Me vendo em Copacabana:
No hay fuerza sobre-humana
Que detenga este Tarzan!

De lutas não entendo abacate
Pois o meu grande alfaiate
Não faz roupa prá brigar
Sou incapaz de machucar uma formiga
Não há homem que consiga
Nos meus músculos pegar

Cheguei até a ser contratado
Prá subir em um tablado
Prá vencer um campeão
Mas a empresa
Prá evitar assassinato
Rasgou logo o meu contrato
Quando me viu sem roupão

Sobre Vadico – v. artigo “Eu ando sem l’argent toujours

Samba-choro – modalidade do samba onde a melodia apresenta fraseado instrumental do choro, com sequência de notas de curta duração (no compasso binário, geralmente semicolcheias) e com a cadência do samba. São músicas que exigem grande habilidade na interpretação e fôlego.

Sobre-humano No hay fuerza sobre-humana que detenga – um toque de classe do poeta, com a ironia que lhe é peculiar.

E NÃO BRINCA NÃO (Noel Rosa)

Embolada. Primeira gravação em 1932 com Almirante e o Bando de Tangarás

Pega na saca
Tira a jaca
Leva a faca
Que a macaca
Sai da estaca
Ela te ataca
À traição
E não brinca não…
Que ela hoje tá com o cão!

Seu Fortunato
Olha o rato
No sapato
E o seu gato
Que é de fato
Foi pro mato
Com meu cão
E não brinca não…
Que vais ficar de pé no chão!

Com sua farda
Toda parda
Bem galharda
Na vanguarda
De espingarda
Vem um guarda
No pifão
E não brinca não…
Que ele tá cheio da razão!

Dona Adalgisa
Só me avisa
Só me frisa
Que a camisa
Não é lisa
Não precisa
De botão
E não brinca não…
Que não tá paga a prestação!

Eu bem dizia
Que eu sabia
Que a Maria
Fazia
Na sacristia
Cortesia
Ao sacristão
E não brinca não…
Que até o padre é gavião!

Sobre Bando de Tangarás – v. artigo “Eu ando sem l’argent toujours

Embolada – gênero nordestino da música com característica do canto rápido, o que exige do intérprete muita destreza na pronúncia e, do ouvinte, atenção extrema. Exatamente como uma gostosa provocação aos dois: intérprete e público. O Bando dos Tangarás gravou várias emboladas, algumas delas de Noel Rosa. Esta é “marvada” demais… E não brinca não!

Pifão – bebedeira ou embriaguez.

Gavião – aquele que se mete com aventuras amorosas.

SEU JACINTO (Noel Rosa)

Marcha. Primeira gravação em 1933 com Noel Rosa e Ismael Silva

(Não boto! Não boto! Não boto!)

O que eu sinto e não consinto
É seu cinto se afrouxar
Seu Jacinto aperta o cinto
Bota as calças no lugar

O seu Jacinto tinha que comprar feijão
Mas não tinha um só tostão
E o caixeiro estava duro
Ele não gosta de pagar feijão à vista
Porque sendo futurista
Paga sempre pro futuro

O que eu sinto e não consinto
É seu cinto se afrouxar
Seu Jacinto aperta o cinto
Bota as calças no lugar

O seu Jacinto que é cheio de chiquê
Eu não sei dizer por quê
Dorme de cartola e fraque
E anda dizendo que o seu sonho dourado
É morrer esmigalhado
Por um carro Cadillac

O que eu sinto e não consinto
É seu cinto se afrouxar
Seu Jacinto aperta o cinto
Bota as calças no lugar

O seu Jacinto já arranca a sobrancelha
E só bebe mel de abelha
Para ser um doce amor
A tia dele que até hoje é melindrosa
Prá ser leve e vaporosa
Toma banho de vapor

O que eu sinto e não consinto
É seu cinto se afrouxar
Seu Jacinto aperta o cinto
Bota as calças no lugar

Quando tem baile lá na casa da Teresa
Ela faz pano de mesa
Com o lençol que cobre a cama
Bota nos copos água usada na banheira
Depois diz à turma inteira
Que é cerveja lá da Brahma

O que eu sinto e não consinto
É seu cinto se afrouxar
Seu Jacinto aperta o cinto
Bota as calças no lugar

Ismael Silva (14/09/1905 – 14/03/1978) de Jurujubá, comunidade de pescadores de Niterói, RJ. Compositor, cantor, parceiro mais constante de Noel Rosa e uma de suas grandes amizades, tornou-se nome de destaque do samba no Brasil. Foi o criador do termo “Escola de Samba” e criador da primeira escola – a Deixa Falar. O autor de “Antonico”, clássico do samba e música auto-biográfica, viveu dificuldades imensas. Um ano antes de sua morte, o criador das escolas de samba teve inpedida a sua entrada ao desfile do carnaval carioca!

Aperta o cinto – dizem, é crítica do poeta da Vila para a política econômica do Dr. Getúlio.

Ritmo & poesia – Os MCs de agora e outros adeptos do RAP (Rhythm and Poetry) vão se admirar com a vertente de seus “antecessores” Noel e Ismael, “lançando a moda” ainda em 1933! Afinal, o RAP surgiu na Jamaica somente nos anos 1960.

Anúncios
Esse post foi publicado em Noel Rosa e marcado , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

5 respostas para De Dona Maria, Seu João e outros

  1. urarianomota disse:

    Deixo para sua leitura e livre divulgação o texto “O poeta da Vila”, publicado no site espanhol La insignia, http://www.lainsignia.org/2004/mayo/cul_072.htm
    Abraço.

  2. thais velloso cougo pimentel disse:

    Olhada rápida já me permitiu perceber que é preciso tempo pra degustar com calma o trabalho de vocês. Parabéns!

    • reginacoelho disse:

      Thais,

      Que bom que você gostou. Tomara você encontre uma sobra de tempo para degustar mais um pouquinho deste trabalho. E olha que ainda tem um bocado de coisa pela frente. Noel é mesmo genial!!!

      Um abraço

      Regina/Toninho/Luiz

  3. joana augusta disse:

    queria postar essas musicas antigas no face p mostrar aos jovens o que é musica….

    • toninhocamargos disse:

      Olá Joana. Muitas destas músicas estão disponíveis no You Tube. Nosso blog só as disponibiliza para audição. Agradecemos a visita.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s