Como? Quando? Onde?

“Quem sabe se o burro não será quem mais se interessa pela descoberta do moto-contínuo?”

Noel Rosa em busca do tempo (Ilustração Luquefar)

O tempo é pura imaginação humana. No universo, o tempo é relativo e não existe como supomos. Olhar para o céu, por exemplo, é olhar o passado; é tudo que está atrás daquele instante ínfimo, do que acabamos de fazer. Se olhamos as estrelas, estamos observando realidades temporais completamente distintas, de até milhões de anos atrás (tempo que a luz que nos toca gasta do objeto que a irradia até nossos olhos). A simples leitura da palavra “agora”, neste momento já será passado.

O futuro será tudo que acontece novamente a partir da leitura deste “agora”. Assim, o presente é também pura criação do homem. Nós não o vivemos como imaginamos ou, no máximo, vivemos múltiplos ínfimos presentes, diferentes entre si, durante toda nossa vida. Na realidade, vivemos a fantasia do tempo criada por nós. E, intensamente no desconhecido. Por isto, ansiedade e medo, por vez, tomam-nos conta. Os criadores, entretanto, vão mais fundo nesta realidade ou nesta irrealidade temporal.

A fantasia humana do tempo é como a criação de um samba. O homem necessita da ilusão, do sonho. Faz-lhe bem. Como uma acomodação que lhe ameniza angústias. O samba é também a realização de um sonho na perspectiva do criador em busca do desenredo de sua alma, de seus medos. Quantas canções ainda viveremos? – pergunta aflito o sambista, que tem pressa da descoberta. Como? Quando? Onde? O samba e o tempo serão mistério permanente de desenlace improvável.

O artista Noel vê o tempo como um sonho e o sonho como criação. O tempo faz-se presente na história Noel Rosa, de forma contundente: rouba-lhe a vida cedo, cedo demais. Aos 26 anos. Por outro lado, concede-lhe mais de 200 canções, ou seja, tempo de vida! Quem sabe quanto? Qual o de maior duração: um ano ou uma canção? Não importa… Noel os vive como poucos, intensamente. Com a pressa e o medo dos humanos. Mas com a façanha da ventura em busca do tempo, própria dos criadores.

Na próxima edição, domingo, 4 de julho: ERA A LUA QUE TUDO ASSISTIA

As canções relacionadas

ESTÁTUA DA PACIÊNCIA (Noel Rosa-Jerônimo Cabral)

Fox-trot. Primeira gravação em 1983 pelo Conjunto Coisas Nossas (música de 1931)

Seu telegrama diz:
“Regressarei brevemente”
Mas o seu trem fatalmente
Chegar não quis

Não entendi por que
O trem não traz prá cidade
A minha felicidade
Que é você

A quem acabar com a raça dos trens
Além dos meus parabéns
Eu darei como prêmio de consolação
O relógio e o prédio da estação

Eu sou na estação
A estátua da paciência
E acabei sendo agência
De informação

Sei os itinerários
Já decorei os horários
O nome dos maquinistas
E dos foguistas

Seu telegrama diz:
“Regressarei brevemente”
Mas o seu trem fatalmente
Chegar não quis

Não entendi, querida,
Por que seu trem não regressa
Amenizando depressa
A minha vida

Jerônimo Cabral – Amigo e parceiro de Noel Rosa, compositor que atuou para teatro de revistas. Não conseguimos mais dados biográficos do autor.

Conjunto Coisas Nossas – Grupo ainda em atividade, formado por Luita (Aluísio Didier 10/2/1956), Beto Cazes (Humberto Cazes 13/3/1955), Caola (Carlos Didier 1/2/1954), Dazinho (Edgar Gonçalves 24/3/1953 – 18/6/1990), Henrique Cazes (2/2/1959), Zé Pité (José Carlos Pité 25/2/1944) e Oscar Bolão (Oscar Luiz Werneck Pellon 6/2/1954), com formação de regional, é especializado na obra de Noel Rosa. Caola, escreveu com João Máximo a biografia mais completa do compositor. O grupo lançou em 1983 o LP “Noel – Inéditos e desconhecidos”, do qual faz parte a “Estátua da paciência”.

O relógio e o prédio da estação – A Estação da Central do Brasil, no Rio de Janeiro, construção art déco, com sua torre monumental, abriga famoso relógio e caberia bem a esta designação de Noel, se não tivesse sido construída em 1937, anos depois da música.

Maquinista e foguista – Maquinista é o condutor dos trens de ferro. Ainda no tempo das “maria-fumaças”, com os trens movidos a vapor, existiam os foguistas, que cuidavam de abastecer as fornalhas com lenha.

POR CAUSA DA HORA (Noel Rosa)

Samba. Primeira gravação em 1931 com Noel Rosa

(A senhorita adiantou o seu relógio?)

Meu bem
Veja quanto sou sincero
No poste sempre eu espero
Procuro bonde por bonde
E você nunca que vem
Olho, ninguém me responde
Chamo, não vejo ninguém

Talvez seja por causa dos relógios
Que estão adiantados uma hora
Que eu, triste, vou-me embora
Sempre a pensar por que
Não encontro mais você

Meu bem
Veja quanto sou sincero
No poste sempre eu espero
Procuro bonde por bonde
E você nunca que vem
Olho, ninguém me responde
Chamo, não vejo ninguém

Terei que dar um beijo adiantado
Com o adiantamento de uma hora
Como vou pagar agora
Tudo o que comprei a prazo
Se ando com um mês de atraso?

Meu bem
Veja quanto sou sincero
No poste sempre eu espero
Procuro bonde por bonde
E você nunca que vem
Olho, ninguém me responde
Chamo, não vejo ninguém

Eu que sempre dormi durante o dia
Ganhei mais uma hora prá descanso
Agradeço ao avanço
De uma hora no ponteiro:
Viva o Dia Brasileiro!

Horário brasileiro de verão – No Brasil, o horário de verão, quando se faz o “avanço uma hora no ponteiro”, foi adotado pela primeira vez em 1° de outubro de 1931, através do decreto n° 20.466, do governo Getúlio Vargas. Outra vez, observador e “rápido no gatilho”, Noel aproveita a polêmica e confusão em torno do fato para nos oferecer esta preciosidade de samba.

Bonde – Não faz tanto tempo o bonde deixou de ser utilizado em muitas cidades brasileiras. Algumas, como a terra de Noel, ainda o mantêm. Só quem tomou um bonde, sabe o quanto já foi e permanece um distinto e simpático meio de transporte público.

ESPERA MAIS UM ANO (Noel Rosa)

Samba. Primeira gravação em 1932 com Noel Rosa e Arthur Costa (registro nunca lançado no mercado, mesclado à gravação do Conjunto Coisas Nossas de 1983)

Espera mais um ano que eu vou ver
Vou ver o que posso fazer
Não posso resolver neste momento
Pois não achei o teu requerimento
(Espera, espera, espera…)

No samba tu quiseste me perder
Tentaste na orgia me arrastar
Mas hoje que eu não quero me prender
Procura um coronel pro meu lugar

Tu foste sempre a minha diferença
Chegaste me obrigar a te bater
Já chega de pancada e desavença
Espera mais um ano que eu vou ver

Espera mais um ano que eu vou ver
Vou ver o que posso fazer
Não posso resolver neste momento
Pois não achei o teu requerimento
(Espera, espera, espera…)

Sapatos e vestidos eu te dei
E tu não me pagaste o que eu te fiz
De tanto te aturar eu já cansei
Agora vou voltar a ser feliz

A tua pretensão vai acabar
Meu câmbio vai subir, tu vais descer
As coisas para mim vão melhorar
Espera mais um ano que eu vou ver

Coronel – Naquele Brasil ainda com forte formação rural, os “coronéis” eram figuras controladoras do poder político, no interior. Geralmente mais velhos, tinham a fama de “sustentar” mulheres. Noel queria distância destes personagens!

Não ao não – Noel mais uma vez se envolve com críticas saborosas ao Governo Getúlio. O Presidente determinara a proibição da palavra “não” no atendimento ao público em todas as repartições federais. Era tentativa de aumentar sua popularidade. O sambista concorda, e vai ver o que pode ser feito… Se Deus quiser…

VEJO AMANHECER (Noel Rosa-Francisco Alves)

Samba. Primeira gravação em 1933 com Mário Reis. Existe outra gravação, também no mesmo ano com Noel Rosa e Ismael Silva, as duas com arranjos do Pixinguinha

Vejo amanhecer, vejo anoitecer
E não me sais do pensamento, ó mulher!
Vou para o trabalho, passo em tua porta
Me metes o malho, mas que bem me importa

Amanhece e anoitece
Sem parar o meu tormento
Por saber que quem me esquece
Não me sai do pensamento
Já não durmo, já não sonho
De pensar: Fugiu-me a paz
No passado tão risonho
Que não volta nunca mais

Vejo amanhecer, vejo anoitecer
E não me sais do pensamento, ó mulher!
Vou para o trabalho, passo em tua porta
Me metes o malho, mas que bem me importa

De esperar a minha amada
A minh’alma não se cansa
Pois até quem não tem nada
Tem ainda esperança
Esperança nos ilude
Ajudando a suportar
Do destino o golpe rude
Que eu não canso de esperar

Sobre Francisco Alves – v. artigo “Prá ninguém zombar de mim”

ARRANJEI UM FRASEADO (Noel Rosa)

Samba. Primeira gravação em 1933 com Noel Rosa

Arranjei um fraseado
Que já trago decorado
Para quando lhe encontrar:
Como é que você se chama?
Quando é que você me ama?
Onde é que vamos morar?

Como eu vou indagar
Quando é que eu posso lhe encontrar
Prá conseguir combinar
Onde é o lugar
Em que você quer morar?

Arranjei um fraseado
Que já trago decorado
Para quando lhe encontrar:
Como é que você se chama?
Quando é que você me ama?
Onde é que vamos morar?

Como vou saber ao certo
Quando é que você vem ficar perto
E quem já designou
Onde é o lugar
Do nosso lindo château?

Como é que você se chama?
Quando é que você me ama?
Onde é que eu vou lhe falar?
Como é que você não me diz
Quando é que você me faz feliz?
Onde é que vamos morar?

Château – castelo, em francês, foi logo aportuguesado “Chatô” pelo uso popular, como o “palácio” dos remediados. Morada simples dos moços solteiros.

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