Era a lua que tudo assistia

“A idéia mais original é sempre expressa por gestos e palavras comuns.”

A lua personificada no samba de Noel Rosa

O sol nasce prá todos e a lua para poetas, amantes e loucos. A frase está na boca de muitos apaixonados admiradores deste satélite natural da Terra. Nem astronautas conseguiram tirar-lhe brilho e encantamento, como temia Gilberto Gil (“poetas, seresteiros, namorados correi: é chegada a hora de escrever e cantar. Talvez as derradeiras noites de luar…”). A lua continua, como sempre, no comando de marés e com acenos inspirados, presente na vida, em nossa solitária e iluminada reflexão.

A lua nos assiste, silente, serena e conselheira. Companheira de todas as noites ou, ao menos, das mais célebres. São cenas sem conta insinuadas pelo astro, em eternos cantos de poetas, de todos os cantos. Sem ela o céu se entristece e o cenário perde em graciosidade. Noel Rosa traz a lua consigo em dezenas de composições, por semelhança no viver. Para o poeta, lua e sol são antagônicos: se o sol aparece é hora de se retirar e enquanto perdurar sua luz haverá sono e motivos para dormir…

Assim como o samba, Noel conhece a noite, fonte de vida e inspiração junto a todos os seus amigos mais íntimos: o boteco, a cerveja, a boa cachaça, a boa conversa, a mulher, a brincadeira, a música e o amor. Sonha com todos eles durante o dia e vive o sonho da lua noite adentro. Lua e noite, lua e samba são como binômios parceiros de Noel Rosa, não havendo noite se não houver lua e não havendo samba se a lua não vem. Se a lua se vai termina o samba, exalam-se prazer e alegria.

A lua pode ser do samba o agente que faz a música nascer. Pode estar no olhar, com sua luz, com sua graça; no olhar de quem se ama, de quem se espera ou de quem se vai e não voltará mais. Ou será a lua mulher desejada, bonita sempre, sempre amada, mulher-canção. Talvez seja nossa vigia confidente, guardiã das quimeras impossíveis. Noel e lua, Noel e samba são também binômios parceiros inseparáveis. A lua seria mais triste sem o samba, que a fez chorar, quando o poeta se foi.

Na próxima edição, domingo, 11 de julho: TIPOS DA CIDADE.

As canções relacionadas

QUANDO O SAMBA ACABOU (Noel Rosa) 
Samba. Primeira gravação em 1933 com Mário Reis

Lá no morro da Mangueira
Bem em frente à ribanceira
Uma cruz a gente vê
Quem fincou foi a Rosinha
Que é cabrocha de alta linha
E nos olhos tem seu não sei que

Numa linda madrugada
Ao voltar da batucada
Prá dois malandros olhou a sorrir
Ela foi se embora
Os dois ficaram
E depois se encontraram
Prá conversar e discutir

Lá no morro uma luz somente havia
Era a lua que tudo assistia
Mas quando acabava o samba se escondia

Na segunda batucada
Disputando a namorada
Foram os dois improvisar
E como em toda façanha
Sempre um perde e outro ganha
Um dos dois parou de versejar

E perdendo a doce amada
Foi fumar na encruzilhada
Ficando horas em meditação
Quando o sol raiou
Foi encontrado
Na ribanceira estirado
Com um punhal no coração

Lá no morro uma luz somente havia
Era sol quando o samba acabou
De noite não houve lua, ninguém cantou

Sobre Mário Reis – v. artigo “Prá ninguém zombar de mim”

O SOL NASCEU PRÁ TODOS (Noel Rosa-Lamartine Babo)
Samba. Primeira gravação em 1933 com Mário Reis

O dia vem chegando
Vou rezar minha oração
A igreja é a floresta
E o sino é o violão
Por que você me nega
A esmola de um olhar
O sol nasceu prá todos
Também quero aproveitar

Deus, quando inventou o mundo
Fez o sol e fez a lua
Fez o homem e a mulher
Fez o amor em um segundo
Sou o sol, você é a lua
Seja lá o que Deus quiser!

O dia vem chegando
Vou rezar minha oração
A igreja é a floresta
E o sino é o violão
Por que você me nega
A esmola de um olhar
O sol nasceu prá todos
Também quero aproveitar

E você é a triste lua
Que ilumina a minha rua
Onde mora a minha dor
Mas uma lua diferente
Que é do sol independente
Com luz própria e com calor

Lamartine Babo – Lamartine de Azevedo Babo (10/01/1904 – 16/06/1966), do Rio de Janeiro, RJ. Compositor, cantor, radialista e humorista, foi um dos mais importantes criadores da música brasileira; talvez, junto com João de Barro, o que mais tenha atuado no gênero marchinha, com grandes clássicos do carnaval. Foi o autor dos conhecidos hinos dos clubes do Rio de Janeiro (do seu América e dos adversários Fluminense, Vasco, Botafogo e Flamengo). Compôs seis canções com Noel Rosa. “A B Surdo”, também da dupla, não está entre as 100 músicas relacionadas por nós, mas não deixem de conhecê-la.

O SÉCULO DO PROGRESSO (Noel Rosa)
Samba. Primeira gravação em 1937 com Aracy de Almeida (música de 1934)

A noite estava estrelada
quando a roda se formou
A lua veio atrasada
e o samba começou
Um tiro a pouca distância
No espaço, forte, ecoou
Mas ninguém deu importância
E o samba continuou

Entretanto, ali bem perto
Morria de um tiro certo
Um valente muito sério
Professor dos desacatos
Que ensinava aos pacatos
O rumo do cemitério
Chegou alguém apressado
Naquele samba animado
Que cantando assim dizia:
No século do progresso
O revólver teve ingresso
Prá acabar com a valentia

Aracy de Almeida – Aracy Teles de Almeida (18/08/1914 – 20/06/1988), do Rio de Janeiro, RJ. Cantora de família simples, foi a mais fabulosa intérprete de Noel Rosa em todos os tempos. Dona de um timbre particular e de jeito de cantar onde se destaca a emoção transbordante, imprimia valor e qualidade a tudo que cantava, suplantando com isto, seus deslizes técnicos. Nos anos 1970, depois de abandonar a carreira de cantora, fez seu nome em comissões julgadoras de programas na televisão brasileira.

Século do progresso – Samba que Noel não viu gravado. Pode ter a ver com histórias de desafetos do poeta, entretanto tem mais a dizer, na verdade, sobre aquele Rio de Janeiro, onde muitas questões eram decididas no grito dos muitos valentões da cidade.

AS PASTORINHAS (Noel Rosa-João de Barro)
Marcha-rancho. Primeira gravação em 1937 com Sílvio Caldas

A estrela d’alva no céu desponta
E a lua anda tonta com tamanho esplendor
E as pastorinhas prá consolo da lua
Vão cantando na rua lindos versos de amor

Linda pastora morena da cor de Madalena
Tu não tens pena de mim
Que vivo tonto com o teu olhar
Linda criança tu não me sais da lembrança
Meu coração não se cansa
De sempre, sempre te amar

João de Barro – Carlos Alberto Ferreira Braga (29/3/1907 – 24/12/2006), também conhecido como Braguinha. Cantor, compositor, produtor musical. Foi companheiro de adolescência de Noel e integrou o Bando dos Tangarás, que representou o início de atividade profissional dos dois parceiros. João de Barro com trabalho de grande expressão na MPB, é considerado um especialista do carnaval e das festas juninas. Criou também excelentes versões para clássicos internacionais, como “Smile” de C. Chaplin, J. Turner e G. Parsons, que virou a encantadora “Sorri”, em suas mãos. Dedicou parte de sua criação à criança, na versão de canções de desenhos da Disney, como “Branca de Neve e os sete anões” ou em histórias, compondo a trilha sonora, como “Dona Baratinha e seu Ratão”. Assina a letra de “Carinhoso” do Pixinguinha, talvez a música mais cantada e conhecida do país. Morreu já próximo de completar 100 anos.

Sílvio Caldas – Sílvio Narciso de Figueiredo Caldas (23/05/1908 – 03/02/1998), do Rio de Janeiro, RJ. Cantor e compositor, musicou o poema “Sonoridade que acabou”, de Orestes Barbosa, depois conhecido como “Chão de estrelas”, tornando-se música reconhecida em todo o país. Tem uma longa e vitoriosa história como intérprete na música brasileira.

Linda Pequena – “As Pastorinhas”, marcha-rancho clássica do carnaval brasileiro, composta em 1934, teve uma primeira versão gravada no ano seguinte por João Petra de Barros, com o título “Linda Pequena”, sem marcar presença. Após a morte de Noel, o parceiro João de Barro altera três versos da letra original em nova gravação que, com outro título e na voz de Sílvio, estoura no carnaval de 1938. O poeta não pôde sentir o sabor…

MENINA DOS MEUS OLHOS (Noel Rosa-Lamartine Babo)
Marcha. Primeira gravação em 1936 com Orlando Silva e Gaúcho

Menina dos olhos castanhos
Que reside lá na serra
Bem juntinho de Deus…
Tu és a menina dos meus olhos
Estou cego de saudade
Pelos olhos teus

A serra não precisa de luar
É iluminada pela luz do teu olhar
Até o próprio sol resolveu não brilhar
Prá não perder (prá quem?) pro teu olhar!

Menina dos olhos castanhos
Que reside lá na serra
Bem juntinho de Deus…
Tu és a menina dos meus olhos
Estou cego de saudade
Pelos olhos teus

Teus olhos abusaram do clarão
Parecem fogos dominando a multidão
Um rastro de luz teu olhar produziu
Foi o luar (de quem?) do meu Brasil

Orlando Silva – Orlando Garcia da Silva (03/10/1915 – 07/8/1978), do Rio de Janeiro, RJ. Cantor e compositor, forma o time de grandes intérpretes brasileiros de todos os tempos. Responsável por indiscutíveis sucessos como “Carinhoso” de Pixinguinha e João de Barro. Recebeu o título de “o cantor das multidões”.

Gaúcho – Francisco de Paula Brandão Rangel (29/6/1911 – 31/3/1970), de Cruz Alta, RS. Cantor, trás o pseudônimo artístico por sua procedência. Foi fundador da SBACEM, sociedade arrecadadora de direitos autorais. Integrou famosa dupla vocal de samba “Joel e Gaúcho”.

Marcha e marcha-rancho – A marchinha de carnaval, originária das marchas e dobrados militares foi utilizada para finalidade da folia pela primeira vez por Chiquinha Gonzaga, no último ano do século XIX, com sua “Oh abre alas”. Difere-se da marcha-rancho pelo andamento. Essas, mais lentas, de pulsação apropriada ao passo humano, diziam de temas cantados em desfiles dos antigos ranchos carnavalescos.

Anúncios
Esse post foi publicado em Noel Rosa e marcado , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

3 respostas para Era a lua que tudo assistia

  1. alexandra da silva teixeira disse:

    que merda de marchinha

  2. Parabéns pelo maravilhoso trabalho do blog! Ótima contribuição para nossa música.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s