Tipos da cidade

“O burro goza grande popularidade. Quem não o conhece pessoalmente, conhece de nome. E há pessoas que têm intimidade com ele.”

Noel Rosa - foto arte digital, por Luquefar

Quem será aquele molambo da lata velha e do sapato furado? Esfarrapado, sem dinheiro, comendo na tendinha o caldo grosso carregado no entulho. Elegante, apesar de tudo: camisa encontrada na praia, gravata lá em Sapucaia e o paletó branco, casca de alho, vejam só, uma deixa de um falecido de acidente do trabalho… Chapéu e botina da Guerra dos Canudos – quem conhece essa peça? Ah, que feitio! Quem pode dizer o nome? De onde vem tal figura? Por qual razão se aventura?

E o escurinho, bonitão, alinhado: terno branco, sapato bicolor, chapéu de palhinha. Carrega flor na lapela e fragrância que chama atenção. Mas, o homem só se mete em bagunça. Saiu da prisão outro dia e já quer confusão com mulher alheia; vive a fazer intriga, briga com gente bamba… Já quis acabar com o samba! E até da baiana quis tomar o tabuleiro: pecado! Somente por não lhe vender fiado… Ele que já foi um escuro direitinho, bam-bam-bam… Alguém viu o escurinho por aí?

E aquela madame, gente distinta, personalidade! Grande autoridade! Quem vai duvidar da santa? Quem vai contestá-la? Saiu aí a dizer… Mas é claro! Ela tem razão. O país não sai do chão, não melhora a raça, não tem religião. O povo só quer cachaça, mistura de raça, mistura de cor. Disso a madame não gosta… Discutir com madame, prá que? Mas tem aquele tal malandro… Malandro não, federal, regular, profissional com retrato na coluna social, contrato, gravata e capital. Este nunca se dá mal… Todos conhecem.

Todos figuras do samba. Ninguém sabe ao certo os nomes. Nem mesmo os seus criadores João da Bahiana, Geraldo Pereira, Haroldo Barbosa, Janet de Almeida e Chico Buarque – enchendo a MPB de exemplos magníficos. Em épocas distintas, compositor ouve compositor e aprende. Noel, com sua diversificada obra, torna-se aluno e professor. Ouve e cria tipos. De nome qualquer. Nome nenhum. Tipos de todos os tipos. De muitos sabores, prá gostos diversos. Malandros de bom e mau coração.

Na próxima edição, domingo, 18 de julho: A SUA MELHOR MENTIRA.

As canções relacionadas

O ORVALHO VEM CAINDO (Noel Rosa-Kid Pepe)

Samba. Primeira gravação de 1933 com Almirante-Selo Victor-lançado em 1934

O orvalho vem caindo
Vai molhar o meu chapéu
E também vão sumindo
As estrelas lá do céu
Tenho passado tão mal
A minha cama
É uma folha de jornal

Meu cortinado é o vasto céu de anil
E o meu despertador é o guarda-civil
(Que o salário ainda não viu!)

O orvalho vem caindo
Vai molhar o meu chapéu
E também vão sumindo
As estrelas lá do céu
Tenho passado tão mal
A minha cama
É uma folha de jornal

O meu chapéu vai de mal para pior
E o meu terno pertenceu a um defunto maior
(Dez tostões no Belchior)

O orvalho vem caindo
Vai molhar o meu chapéu
E também vão sumindo
As estrelas lá no céu
Tenho passado tão mal
A minha cama
É uma folha de jornal

A minha terra dá banana e aipim
Meu trabalho é achar quem descasque por mim
(Vivo triste mesmo assim!)

O orvalho vem caindo
Vai molhar o meu chapéu
E também vão sumindo
As estrelas lá do céu
Tenho passado tão mal
A minha cama
É uma folha de jornal

A minha sopa não tem osso e nem tem sal
Se um dia passo bem, dois e três passo mal
(Isso é muito natural!)

Kid Pepe – José Gelsomino (19/09/1909 – 15/09/1961) de Montesano, Itália. Boxeador, cantor, compositor e radialista, veio ainda criança para o Brasil. De família simples, teve várias profissões antes de ingressar na vida artística. Foi contemporâneo do grande Adoniran Barbosa (filho de imigrantes da Itália), outro “carcamano” no samba, que também comemora centenário. O livro “Noel Rosa – uma biografia” relata a sinistra entrevista dos autores de “O orvalho vem caindo” ao jornal “O Globo”. Tinha-se a suspeita de que Kid havia comprado a parceria de Noel. Os dois dissimularam-se bem das diversas indiretas do jornalista: “é segredo nosso!” Se assim tiver sido, que feio, não é? Isso não é muito natural!

Sobre Almirante – v. artigo “Prá ninguém zombar de mim”

Os versos “o meu chapéu vai de mal para pior / e meu terno pertenceu a um defunto maior (dez tostões no Belchior)” foram gravados em 1958 pelo Trio Irakitan.

Belchior – o termo, desde o século XIX, já era também utilizado significando lugar em que se vendiam objetos usados.

MALANDRO MEDROSO (Noel Rosa)

Samba. Primeira gravação em 1930 com Noel Rosa-Selo Parlophon

Eu devo, não quero negar
Mas te pagarei quando puder
Se o jogo permitir
Se a polícia consentir
E se Deus quiser…
Não pensa que eu fui ingrato
Nem que fiz triste papel
Hoje vi que o medo é o fato
E eu não quero um pugilato
Com seu velho coronel

A consciência agora que me doeu
E eu evito concorrência
Quem gosta de mim sou eu!
Neste momento
Eu saudoso me retiro
Pois teu velho é ciumento
E pode me dar um tiro

Se um dia ficares no mundo
Sem ter nesta vida mais ninguém
Hei de te dar meu carinho
Onde um tem seu cantinho
Dois vivem também…
Tu podes guardar o que eu te digo
Contando com a gratidão
E com o braço habilidoso
De um malandro que é medroso
Mas que tem bom coração

A consciência agora que me doeu
E eu detesto concorrência
Quem gosta de mim sou eu!
Neste momento
Eu saudoso me retiro
Pois teu velho é ciumento
E pode me dar um tiro

Pugilato – Luta de socos ou discussão brava.

Coronel – Figura constante na obra do compositor: chefe politico, geralmente proprietário de terras, tão comum e temível naquele Brasil dos anos 1930. Diga-se de passagem, nada tem a ver com os da carreira militar. (v. música “Espera mais um ano”).

TIPO ZERO (Noel Rosa)

Samba-choro. Primeira gravação em 1954 com Marília Baptista (música de 1936)

Você é um tipo que não tem tipo
Com todo tipo você se parece
E sendo um tipo que assimila tanto tipo
Passou a ser um tipo que ninguém esquece
(Tipo zero, não tem tipo)

Quando você penetra no salão
E se mistura com a multidão
Esse seu tipo é logo observado
E admirado todo mundo fica
E o seu tipo não se classifica
E você passa a ser um tipo desclassificado

Sobre Marília Baptista – v. artigo “Eu ando sem l’argent toujours

VOCÊ É UM COLOSSO (Noel Rosa)                Samba. Primeira gravação em 1959 com Aracy de Almeida – Sambas Inéditos de Noel Rosa Sinter EP 45.1006/c (música de 1934)

Você é um colosso
Andou no meu carro
Filou meu almoço
Fumou meu cigarro
Vestiu meu pijama
Senti um abalo
Usou minha cama
Pisou no meu calo!
Não adianta
Você me pedir perdão
Depois de você pisar
Meu calo de estimação

Você é um colosso
E não faz chiquê
Enrolou no pescoço
O meu cachê-nez
Foi no galinheiro
Matou o meu galo
Falou em dinheiro
Pisou no meu calo!
Não adianta
Você me pedir perdão
Depois de você pisar
Meu calo de estimação

Você é um colosso
Comeu sanduíche
Falando bem grosso
Que samba é maxixe
Eu disse: Caramba!
Não sou seu vassalo!
Falou mal do samba
Pisou no meu calo
Não adianta
Você me pedir perdão
Depois de você pisar
Meu calo de estimação

Sobre Aracy de Almeida – v. artigo anterior.

Cachenê – do francês, “cache-nez” ou cachecol.

Maxixe – ritmo e dança de umbigada brasileiros, em voga nas últimas décadas do século XIX e primeiras do século XX, originado da polca da Boêmia e do lundu afro-europeu. Esteve presente na linha evolutiva do samba.

CORAÇÃO (Noel Rosa)

Samba. Primeira gravação em 1932 com Noel Rosa e Orquestra Copacabana-Odeon 10.931-B (matriz: 4474) Data da gravação: 2/7/1932. Lançamento: dezembro de 1932

Coração
Grande órgão propulsor
Transformador do sangue
Venoso em arterial
Coração
Não és sentimental
Mas, entretanto, dizem
Que és o cofre da paixão

Coração
Não estás do lado esquerdo
Nem tampouco do direito
Ficas no centro do peito – eis a verdade!
Tu és pro bem-estar do nosso sangue
O que a casa de correção
É para o bem da humanidade

Coração
De sambista brasileiro
Quando bate no pulmão
Faz a batida do pandeiro
Eu afirmo
Sem nenhuma pretensão
Que a paixão faz dor no crânio
Mas não ataca o coração

Conheci
Um sujeito convencido
Com mania de grandeza
E instinto de nobreza
Que por saber
Que o sangue azul é nobre
Gastou todo o seu cobre
Sem pensar no seu futuro

Não achando
Quem lhe arrancasse as veias
Onde corre o sangue impuro
Viajou a procurar
De norte a sul
Alguém que conseguisse
Encher-lhe as veias
Com azul de metileno
Prá ficar com sangue azul

Coração – O Dr. Noel Rosa abandonou a Escola de Medicina em favor da música, o que foi muito comemorado por seus amigos e admiradores, futuros possíveis pacientes. Neste samba comete um “erro conceitual”, ao atribuir ao coração a função de  “transformador do sangue venoso em arterial”.

__________________

Antes e depois de Noel Rosa vários exemplos de retrato do cotidiano estão presentes na música brasileira. O artigo desta edição faz quatro citações: Cabide de Molambo, de João da Bahiana (1887 – 1974), compositor, participante de destaque de uma corrente que chamamos hoje de “primitivos do samba”, juntamente com Pixinguinha e Donga; Escurinho, de Geraldo Pereira (1918 – 1955), que se destacou na música em décadas seguintes à da morte de Noel; Prá que discutir com madame?, de Haroldo Barbosa (1915 – 1979) e Janet de Almeida  (1919 – 1945), mais novos que o poeta da Vila; e Homenagem ao malandro, de Chico Buarque (1944), que não esconde a influência de Noel e Ismael Silva em sua obra. Noel fez escola com esses tipos. Mas teve com quem aprender!

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2 respostas para Tipos da cidade

  1. CARLINHOS NOGUEIRA disse:

    Na minha opinião, Noel não cometeu um erro conceitual ao dizer: “CORAÇÃO GRANDE ÓRGÃO PROPULSOR, TRANSFORMADOR DO SANGUE VENOSO EM ARTERIAL”.
    Na verdade, Noel “cometeu” um “erro proposital”, ou seja, fez tal atribuição ao Coração conscientemente, pois as pessoas costumam atribuir tudo ao coração, por que não a de “transformador no sangue venoso em arterial”. Certamente, Noel queria causar polemica e, de certa forma, causou.
    Vejamos: todos dizem que o Coração é sentimental e, muita gente, fala: “tem que agir com a Razão e não com o CORAÇÃO”. Noel diz, exatamente, o contrário: “CORAÇÃO NÃO ÉS SENTIMENTAL”.
    Ora, se Noel atribui ao coração uma função que não é dele, a de “TRANSFORMADOR…” e tira uma que é dele, a de “SENTIMENTAL …”, podemos concluir que não existe erro nenhum na BELÍSSIMA e EXTRAORDINÁRIA letra da música “CORAÇÃO”, que é mais uma obra prima desse nosso GÊNIO, chamado: NOEL ROSA.
    Portanto, a música deve ser cantada originalmente, como Noel compôs e cantou em 1932, e não como gravou Nelson Gonçalves, nos anos 50, quando a letra foi alterada para “GRANDE ÓRGÃO PROPULSOR ‘DISTRIBUIDOR’ DO SANGUE VENOSO E ARTERIAL”. Talvez essa colocação seja mais correta, mas será que essa era a colocação do POETA DA VILA? Creio que não, pois se fosse, Noel teria corrigido, ainda nos anos 30.
    “EU AFIRMO SEM NENHUMA PRETENSÃO”, que o “ERRO” cometido pelo Poeta, foi proposital e mesmo que não fosse não tira em nada a beleza da musica e, principalmente, da letra que é, simplesmente, fantástica!!!!!!!!!
    Concluindo: O Poeta não errou, nem se enganou, apenas fez uma brincadeira.
    E, por favor, não falem mas em “ERRO CONCEITUAL” .
    CARLINHOS NOGUEIRA – Cantor e Compositor – 01/11/2012

    • toninhocamargos disse:

      Noel é mesmo fantástico! É muito bom que sua obra seja cada vez mais comentada e debatida. Agradecemos muito pela contribuição.

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