A arte da dor

“Qual o crime que o burro cometeu para ser condenado a trabalhos forçados?”

Noel Rosa: eu sei sofrer (ilustração Luquefar)

Dor e alegria são faces de uma mesma moeda. A dor é nossa companheira mais contumaz, a que melhor nos faz refletir e pode mais nos ensinar, se com ela dialogamos francamente. Sem dor não existiria felicidade, que é o ponto de chegada de quem vai ao encontro de qualquer questão de vida. A felicidade oferece sentido ao viver, mas traz o sofrimento como parte indissolúvel e inevitável da procura. Desde o berço experimentamos seu amargor.

São poetas os entendedores da dor, capazes de vivê-la intensamente. Noel Rosa, o grande poeta da alegria, do deboche, da ironia, do sarcasmo, da irreverência e do humor, traz a alma profundamente dorida. Marcado em seu nascimento por um parto de fórceps, que lhe causa deformação facial, sofre com a rejeição estética e quando adulto, em meio a grandes desventuras amorosas, ainda fica doente do pulmão – o órgão humano da tristeza. Vitima da tuberculose,  numa época em que ainda não havia penicilina.

O níquel de tostão que Noel lança ao ar no jogo da vida e da sorte, tem os dois lados do sofrer. O seu defeito no queixo, a vergonha do deboche na infância , o medo ao desprezo na adolescência, amores e paixões mal compreendidas, e a moeda sempre lhe cai na mão na face visível da dor. Vale-se, desde cedo, de seu talento e vivacidade exuberantes: “eu nascendo pobre e feio, ia ser triste o meu fim. Mas crescendo a bossa veio. Deus teve pena de mim”.

O poeta da dor sai em busca da felicidade nas ruas e becos escuros do Rio de Janeiro, sobe seus morros, vasculha seus segredos. Torna-se o cantor do Rio, o canto de um país desigual e injusto. Então, atento à sua própria miséria, sofre e chora; ama, amarga-se e de amargura se entrega à cidade e aos seus viventes. A cerveja, o amor, a paixão e a lua, que iluminam o Rio e convidam ao samba, contam com a adesão convicta e idealista deste ilustre Noel de Medeiros Rosa.

Na próxima edição, domingo, 15 de agosto: O RIO DE NOEL

Músicas relacionadas

EU SEI SOFRER (Noel Rosa)

Samba. Primeira gravação em 1937 com Aracy de Almeida (78 rpm, selo Victor n° 34.176-a)

Quem é que já sofreu mais do que eu?
Quem é que já me viu chorar?
Sofrer foi o prazer que Deus me deu
Eu sei sofrer sem reclamar
Quem sofreu mais que eu não nasceu
Com certeza Deus já me esqueceu

Mesmo assim não cansei de viver
E na dor eu encontro prazer
Saber sofrer é uma arte
E pondo a modéstia de parte
Eu posso dizer que sei sofrer

Quem é que já sofreu mais do que eu?
Quem é que já me viu chorar?
Sofrer foi o prazer que Deus me deu
Eu sei sofrer sem reclamar
Quem sofreu mais que eu não nasceu
Com certeza Deus já me esqueceu

Quanta gente que nunca sofreu
Sem sentir, muitos prantos verteu
Já fui amado, enganado
Senti quando fui desprezado
Ninguém padeceu mais do que eu

Sobre Aracy de Almeida – v. artigo “Era a lua que tudo assistia”.

A arte da dor – O registro fonográfico de “Eu sei sofrer” foi realizado um mês após a morte de Noel. Está entre suas últimas criações. Apesar de já muito debilitado pela tuberculose, assim como em “Pra que mentir”, o poeta encontra força de inspiração magnífica.

É BOM PARAR (Noel Rosa-Rubens Soares)

Samba. Primeira gravação em 1936 com Francisco Alves (78 rpm, selo Victor n° 30.038-a)

Por que bebes tanto assim, rapaz?
Chega, já é demais!
Se é por causa de mulher, é bom parar
Porque nenhuma delas sabe amar

Se tu hoje estás sofrendo
É por que Deus assim quer
E quanto mais vais bebendo
Mais lembras dessa mulher

Não crês, conforme suponho
Nestes versos de canção:
Mais cresce a mulher no sonho
Oi! Na taça e no coração

Por que bebes tanto assim, rapaz?
Chega, já é demais!
Se é por causa de mulher, é bom parar
Porque nenhuma delas sabe amar

Sei que tens em tua vida
Um enorme sofrimento
Mas não penses que a bebida
Seja um medicamento

De ti não terei mais pena
É bom parar por aí
Quem não bebe te condena
Oi! Quem bebe zomba de ti

Rubens Soares – (29/5/1911 – 13/6/1998), do Rio de Janeiro, RJ. Compositor, lutador de boxe, membro da Polícia Especial, que arrumou parceria com o poeta da Vila. E que parceria! Rubens também tem músicas com Nelson Gonçalves, David Nasser, Nássara, dentre outros.

Sobre Francisco Alves – v. artigo “Prá ninguém zombar de mim”.

É bom parar! – Um dos maiores sucessos do samba em todos os tempos, não traz na gravação original o nome de Noel Rosa como parceiro. Mas sua participação é aceita por seus biógrafos João Máximo e Carlos Didier, apesar das constantes negativas do boxeador. “Nunca conheci Noel Rosa” – jurava! Rubens teria oferecido o refrão da música a Francisco Alves, que, com muito custo, conseguiu de Noel a criação das estrofes, vendidas ao cantor por duzentos mil-réis!

Na taça e no coração – Fazia um ano brigado com o Chico Alves, Noel utiliza no samba um verso da música “A mulher que ficou na taça”, de Orestes Barbosa e Francisco Alves: “na taça e no coração”. Pura ironia noelina…

TRÊS APITOS (Noel Rosa)

Samba. Primeira gravação, em acetato, de 1936 com Orlando Silva (samba de 1933)

Quando o apito da fábrica de tecidos
Vem ferir os meus ouvidos
Eu me lembro de você
Mas você anda
Sem dúvida bem zangada
E está interessada
Em fingir que não me vê

Você que atende ao apito
De uma chaminé de barro
Por que não atende ao grito
Tão aflito
Da buzina do meu carro

Você no inverno
Sem meias vai pro trabalho
Não faz fé com o agasalho
Nem no frio você crê
Mas você é mesmo
Artigo que não se imita
Quando a fábrica apita
Faz reclame de você

Nos meus olhos você lê
Que eu sofro cruelmente
Com ciúmes do gerente
Impertinente
Que dá ordens a você

Sou do sereno
Poeta muito soturno
Vou virar guarda-noturno
E você sabe por quê
Mas você não sabe
Que enquanto você faz pano
Faço junto ao piano
Estes versos prá você

Sobre Orlando Silva – v. artigo “Era a lua que tudo assistia”.

Três apitos – a letra apresentada neste post refere-se à gravação de 1951 com Aracy de Almeida. A gravação de Orlando Silva traz o registro incompleto da letra e não foi lançada comercialmente na época. Trata-se de um verdadeiro achado da gravadora Revivendo, incluído na coleção Noel Rosa – o poeta da Vila.

PRAZER EM CONHECÊ-LO (Noel Rosa-Custódio Mesquita)

Samba. Primeira gravação em 1932 com Mário Reis (78 rpm, selo Odeon n° 10.943-b)

Quantas vezes nós sorrimos sem vontade
Com o ódio a transbordar no coração
Por um simples dever da sociedade
No momento de uma apresentação

Se eu soubesse que em tal festa te encontrava
Não iria desmanchar o teu prazer
Porque, se lá não fosse eu não lembrava
Um passado que tanto nos fez sofrer

Lá no canto vi o meu rival antigo
Ex-amigo
Que aguardava o escândalo fatal
Fiquei branco, amarelo, furta-cor
De terror
Sem achar uma idéia genial

Ainda lembro que ficamos de repente
Frente a frente
Naquele instante, mais frios do que gelo
Mas, sorrindo, apertaste a minha mão
Dizendo então: tenho muito prazer em conhecê-lo!

Quantas vezes nós sorrimos sem vontade
Com o ódio a transbordar no coração
Por um simples dever da sociedade
No momento de uma apresentação

Mas eu notei que alguém impaciente
Descontente
Ia mais tarde te repreender
Tão ciumento que até nem quis saber
Que mais prazer
Eu teria em não te conhecer

Custódio Mesquita – Custódio Mesquita de Pinheiro (25/4/1910 – 13/3/1945) do Rio de Janeiro, RJ. Compositor, pianista, regente, foi um dos nomes de destaque da música brasileira dos anos 1930, 1940, com extensa obra e parceiros importantes. É autor de clássicos como “Nada além”, composta com Mário Lago, ou “Saia do caminho”, com Evaldo Rui, e considerado um dos precursores da bossa-nova.

Sobre Mário Reis – v. artigo “Prá ninguém zombar de mim”.

QUEM RI MELHOR (Noel Rosa)

Samba. Primeira gravação em 1936 com Noel Rosa e Marília Baptista (78 rpm, selo Victor n° 34.140-a)

Pobre de quem já sofreu neste mundo
A dor de um amor profundo
Eu vivo bem sem amar a ninguém
Ser infeliz é sofrer por alguém
Zombo de quem sofre assim
Quem me fez chorar
Hoje chora por mim
Quem ri melhor
É quem ri no fim

Felicidade
É o vil metal quem dá
Honestidade
Ninguém sabe onde está
Acaba mal quem é ruim
Pois quem me fez chorar
Hoje chora por mim
Quem ri melhor
É quem ri no fim

Pobre de quem já sofreu neste mundo
A dor de um amor profundo
Eu vivo bem sem amar a ninguém
Ser infeliz é sofrer por alguém
Zombo de quem sofre assim
Quem me fez chorar
Hoje chora por mim
Quem ri melhor
É quem ri no fim.

Sabendo disso
Eu não quero rir primeiro
Pois o feitiço
Vira contra o feiticeiro
Eu vivo bem
Pensando assim
Pois quem me fez chorar
Hoje chora por mim
Quem ri melhor
É quem ri no fim!

Sobre Marília Baptista – v. artigo “Eu ando sem l’argent toujours”.

Como é que você se chama? – O livro “Noel – uma biografia” conta esta história: Noel estava na Rádio Clube acompanhando a apresentação de uma estreante trazida por Jacob do Bandolim. Admirado com sua voz, puxa conversa e lhe oferece uma música inédita, para uma próxima apresentação na emissora. A música era “Quem ri melhor”. “Se você quiser, é claro!” – diz Noel. “Mas eu quero!”, entusiasma-se a garota Elizeth Cardoso, que o tempo mostrou ser uma de suas intérpretes mais dedicadas.

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