Amor tom de cinza

“A mulher original é aquela que não procura se diferençar das outras.”

Ilustração Luquefar

"Não durou muito a chuva e eu achei uma luva depois que ela desceu..." Noel Rosa; (Ilustração Luquefar)

A música é tarefa cotidiana de Noel Rosa e a inspiração parece não ter fim. Conceber nova linha melódica, escrever sobre um tema qualquer, terminar uma canção compondo sua segunda parte ou a letrando, é tarefa para a qual está afiado o garoto de Vila Isabel. Assuntos diversos causam-lhe interesse e seus versos muito terão a nos dizer, por gerações e gerações. Alguns só serão mesmo compreendidos depois, muitos anos depois de sua morte. Para nossa sorte, Noel compõe na década de 1930.

Noel conhece o início do que hoje chamamos indústria cultural: os primeiros anos do processo de registro fonográfico, o advento da gravação elétrica com o uso do microfone e do rádio. Participa das primeiras experiências dos programas radiofônicos com música ao vivo, realizados em estúdios com a presença de público. Nesta época a “máquina da cultura” em formação ainda respeita o criador, a criação e admite a diversidade. Hoje talvez não conseguisse mostrar seu trabalho.

As oportunidades são incentivos inspiradores que Noel aproveita para desenvolver, brincando, o trabalho do qual não imagina a importância e significação. Compor é falar do que vê, do que o mundo lhe oferece, do que vivem seus amigos, de seus sentimentos. De encantos e desencantos. Tem o olhar atento. E com a facilidade de se expressar melodicamente, de criar versos e rimas com originalidade, garante destaque em seu meio. E, para si, o encantado olhar feminino.

Rapaz de paixão fácil, sonhador, vai fazer do samba, apaixonadamente, motivo para registrar as experiências amorosas que lhe aparecem. A estas vai dedicar boa parte do que realizou na música. Mulheres terão lugar controverso em sua obra e seus amores serão tema obrigatório. Cidadão do mundo, traz o coração aberto ao amor idealizado, o qual nunca conseguirá viver em plenitude. Vai persegui-lo sem descanso, até seu final.

Na próxima edição, domingo, 29 de agosto: O FADO DOS MESTRES

Músicas relacionadas

PROVEI (Noel Rosa-Vadico)


Samba. Primeira gravação em 1936 com Marília Baptista e Noel Rosa (78 rpm selo Odeon n° 11.422-a)

Provei
Do amor todo amargor que ele tem
Então jurei
Nunca mais amar ninguém
Porém, eu agora encontrei alguém
Que me compreende
E que me quer bem

Quem fala mal do amor
Não sabe a vida gozar
Quem maldiz a própria dor
Tem amor mas não sabe amar

Provei
Do amor todo amargor que ele tem
Então jurei
Nunca mais amar ninguém
Porém, eu agora encontrei alguém
Que me compreende
E que me quer bem

Nunca se deve jurar
Não mais amar a ninguém
Ninguém pode evitar
De se apaixonar por alguém

Sobre Vadico e Marília Baptista – v. artigo “Eu ando sem l’argent toujours”.

TENHO UM NOVO AMOR (Noel Rosa-Carlola)


Samba. Primeira gravação em 1932 com Carmem Miranda (78 rpm selo Victor n° 33.575b)

Tenho um novo amor
Tenho um novo amor
Que vive pensando em mim
Não quer me ver triste nem zangada
Gosta que eu ande assim engraçada

Eu não quero dar a perceber
Que gosto demais do meu amor
Se ele compreender
Vai se convencer
De que tem para mim um enorme valor

Tenho um novo amor
Tenho um novo amor
Que vive pensando em mim
Não quer me ver triste nem zangada
Gosta que eu ande assim engraçada

Se acaso algum dia se apagar
Do seu pensamento o meu amor
Para não chorar
E não mais penar
Mando embora a saudade prá livrar-me da dor

Sobre Cartola – v. artigo “O samba mulato”.

Carmem Miranda – Maria do Carmo Miranda da Cunha (9/2/1909 – 5/8/1955) Marco de Canavezes, Portugal. Cantora, atriz e dançarina. Veio para o Brasil com dois anos e meio de idade para tornar-se uma das mais destacadas intérpretes do mundo. Levou o samba e clássicos brasileiros para os Estados Unidos, país onde se encontrou com o sucesso.

Sem os versos originais – Carmen Miranda não quis cantar os versos que diziam: “Não quer me ver sujo, nem rasgado. Gosta de me ver assim; bem trajado.” E fez esta alteração na letra original (ver marcação em itálico, acima).

CANSEI DE PEDIR (Noel Rosa)


Samba. Primeira gravação em 1935 com Aracy de Almeida (78 rpm selo Victor n 33.949b)

Já cansei de pedir prá você me deixar
Dizendo que não posso mais continuar
Amando sem querer amar
Meu Deus, estou pecando
Amando sem querer
Me sacrificando
Sem você merecer!

Amar sem ter amor é um suplício
Você não compreende a minha dor
Nem pode avaliar
O sacrifício que eu fiz
Para ver você feliz!

Já cansei de pedir prá você me deixar
Dizendo que não posso mais continuar
Amando sem querer amar
Meu Deus, estou pecando
Amando sem querer
Me sacrificando
Sem você merecer!

Com a ingratidão eu não contava
Você não compreende a minha dor
Você, se compreendesse
Me deixava sem chorar
Para não me ver penar

Sobre Aracy de Almeida – v. artigo “Era a lua que tudo assistia”.

O MAIOR CASTIGO QUE EU TE DOU (Noel Rosa)


Samba. Primeira gravação em 1937 com Aracy de Almeida (música de 1934 – 78 rpm selo Victor n° 34.176b)

O maior castigo que eu te dou
É não te bater
Pois sei que gostas de apanhar
Não há ninguém mais calmo
Do que eu sou
Nem há maior prazer
Do que te ver me provocar

Não dar importância
A sua implicância
Muito pouco me custou
Eu vou contar em versos
Os teus instintos perversos
É este mais um castigo
Que eu te dou

A porta sem tranca
Te dá carta branca
Para ir onde eu não vou
Eu juro que desejo
Fugir do seu falso beijo
É esse mais um castigo
Que eu te dou

COR DE CINZA (Noel Rosa)


Samba-canção. Primeira gravação em 1955 com Aracy de Almeida (música de 1933)

Com seu aparecimento
Todo o céu ficou cinzento
E São Pedro zangado
Depois, um carro-de-praça
Partiu e fez fumaça
Com destino ignorado

Não durou muito a chuva
E eu achei uma luva
Depois que ela desceu
A luva é um documento
Com que provo o esquecimento
Daquela que me esqueceu

Ao ver um carro cinzento
Com a cruz do sofrimento
Bem vermelha na porta
Fugi impressionado
Sem ter perguntado
Se ela estava viva ou morta

A poeira cinzenta
Da dúvida me atormenta
Nem sei se ela morreu
A luva é um documento
De pelica e bem cinzento
Que lembra quem me esqueceu

Impressionismo – sobre “Cor de Cinza”: “Trata-se do mais belo e hermético poema impressionista do nosso cancioneiro popular”, escreve Paulo Mendes Campos na revista “Manchete” em 1974.

Carro-de-praça – é como eram chamados os taxis naquela época, cujos pontos eram geralmente nas praças.

_______________

A ilustração deste post foi realizada sobre cena de um antigo “film noir“.

About these ads
Esse post foi publicado em Noel Rosa e marcado , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s