O fado dos mestres

“A mulher é o aperitivo que ajuda o homem a comer o prato indigesto da vida”

O olhar de Noel Rosa (Ilustração Luquefar)

Clara, Fina, Lindaura, Juninha e Ceci são garotas que inquietam o coração de Noel. Chamam-lhe a atenção. Lindaura, a mais jovem, engravida-se dele, o que o obriga a firmar compromisso. Mesmo perdendo o filho durante a gestação, vai acompanhá-lo como esposa inclusive nos momentos de grave crise de saúde, cada vez mais comuns, até o seu final que não virá distante. Na verdade, os dois jamais viverão juntos de fato. E ela já bem conhece o mal do amor…

Os olhos de Noel estão voltados para outra atração: a dançarina de um cabaré da Lapa; desde o primeiro encontro estão caídos pela dama. Querem conquistá-la. Estão hipnotizados pela grande paixão. Formosa, irretocável, sublime é como a vêem estes olhos desvairados de amor cego e não correspondido. Ceci vai roubar pensamentos em cada minuto da vida deste encantado, que lhe dedica canções extraordinárias e cruéis, típicas de quem sofre tanto quanto ama. Mas sofre demais.

Noel conhece o amor na sua forma profunda e contundente. Amor de marcar o peito e arrebatar de paixão. Por que há de ser assim tão difícil, meu Deus?  Por que sofrer de amor, por quê? Será um momento decisivo para quem também se vê condenado pelo mal de saúde que já destrói outros conhecidos e que torna frágil sua existência. Às noitadas (sem as quais não há sentido algum), aos amigos, à bebida e ao cigarro que não o abandona, soma-se agora o amor impossível por Ceci.

Quando vem ao mundo parece predestinado, como se fez, ao sofrimento. Mas Noel cumpre fado mais digno, de mestres, que padecem para harmonizar, para trazer boas novas. Vai amar profundamente e morrer do amor e, sem que tenha ciência, fará com que nunca mais sejamos os mesmos, para não mais deixá-lo morrer. Morrer do amor ou sobreviver dele é o desígnio maior dos melhores poetas da vida, daqueles que sabem sem modéstia sofrer com arte, como Noel Rosa.

Na próxima edição, domingo, 5 de setembro: SEM HUMOR NÃO TEM GRAÇA!

Músicas relacionadas

DAMA DO CABARÉ (Noel Rosa)

Samba. Primeira gravação em 1936 com Orlando Silva (78 rpm, selo Victor n° 34.085a)

Foi num cabaré na Lapa
Que eu conheci você
Fumando cigarro
Entornando champanhe no seu soirée
Dançamos um samba,
Trocamos um tango por uma palestra
Só saímos de lá meia hora
Depois de descer a orquestra

Em frente à porta um bom carro nos esperava
Mas você se despediu e foi prá casa a pé
No outro dia lá nos Arcos eu andava
À procura da dama do cabaré

Eu não sei bem se chorei no momento em que lia
A carta que recebi, não me lembro de quem
Você nela me dizia que quem é da boemia
Usa e abusa da diplomacia
Mas não gosta de ninguém

Sobre Orlando Silva – v. artigo “Era a lua que tudo assistia”.

PELA PRIMEIRA VEZ (Noel Rosa-Cristóvão de Alencar)

Samba. Primeira gravação em 1936 com Orlando Silva (78 rpm, selo Victor n° 34.061a)

Pela primeira vez na vida
Sou obrigado a confessar que amo alguém
Chorei quando ela deu a despedida
Ela me vendo a chorar chorou também
Meu Deus, faça de mim o que quiser
Mas não me faça perder
O amor desta mulher

Na estação, na hora de partir o trem
Ela me vendo a chorar chorou também
Depois fiquei olhando a janela
Até sumir numa curva o lenço dela

Pela primeira vez na vida
Sou obrigado a confessar que amo alguém
Chorei quando ela deu a despedida
Ela me vendo a chorar chorou também
Meu Deus, faça de mim o que quiser
Mas não me faça perder
O amor desta mulher

Se meu amor não regressar, irei também
À estação na hora de partir o trem
E nunca mais assisto uma partida
Prá não lembrar mais daquela despedida

Cristóvão de Alencar – Armando de Lima Reis (8/1/1910 – 23/11/1983) paulistano, desde criança criado em Vila Isabel. Compositor, jornalista e radialista, teve como parceiros figuras especiais da música brasileira, sendo Noel uma delas.

Ela me vendo a chorar, chorou também – Ceci (Juracy Correia de Moraes) conta sobre o “Pela primeira vez” com orgulho, relatando a partida de Noel para Belo Horizonte, em busca de clima mais ameno e da cura da tuberculose.

QUANTOS BEIJOS (Noel Rosa-Vadico)

Samba. Primeira gravação em 1936 com Noel Rosa e Marília Baptista (78 rpm, selo Victor n° 34.040b)

Quantos beijos
Quando eu saía
Meu Deus, quanta hipocrisia!
Meu amor fiel você traía
Só eu é quem não sabia
(Ai, ai, meu Deus mas quantos beijos)

Não andava com dinheiro todo dia
Para sempre dar o que você queria
Mas quando eu satisfazia os seus desejos
Quantas juras… quantos beijos…

Quantos beijos
Quando eu saía
Meu Deus, quanta hipocrisia!
Meu amor fiel você traía
Só eu é quem não sabia
(Ai, ai, meu Deus mas quantos beijos)

Não esqueço aquelas frases sem sentido
Que você dizia sempre ao meu ouvido
Você porém mentia em todos os ensejos
Quantas juras… quantos beijos…

Sobre Marília Baptista – v. artigo “Eu ando sem l’argent toujours”.

DEIXA DE SER CONVENCIDA (Noel Rosa-Wilson Batista)

Samba. Primeira gravação em 1951 com Roberto Paiva (samba de 1935)

Deixa de ser convencida
Todos sabem qual é
Teu velho modo de vida
És uma perfeita artista, eu bem sei
Também fui do trapézio
Até salto mortal
No arame eu já dei

E no picadeiro desta vida
Serei o domador
Serás a fera abatida
Conheço muito bem acrobacia
Por isso não faço fé
Em amor, em amor de parceria
(Muita medalha eu ganhei)

Wilson Batista – Wilson Batista de Oliveira (3/7/1913 – 7/7/1968) de Campos, RJ. Sambista de marca maior, é sempre lembrado entre três grandes, junto a Geraldo Pereira e Noel. Com este último desenvolveu polêmica musical que marcou os anos 1930, na qual o poeta da Vila se sai melhor. Esta parceria sela “as pazes” entre os dois…

Roberto Paiva – Helim Silveira Neves (8/2/1921) do Rio de Janeiro, RJ. Cantor. Muito requisitado pelos compositores por sua postura de voz correta. Foi o intérprete do LP original “Orfeu da Conceição” de Tom Jobim e Vinícius de Moraes. Gravou com regularidade até o início da Bossa Nova. Seu LP mais recente é de 1985.

Deixa de ser convencida – Na verdade a gravação de Roberto Paiva foi feita para o programa de Almirante da Rádio Tupi, que enfocava a polêmica Noel X Wilson Batista. A canção  tinha o título de “Terra de Cego”, com letra do próprio Wilson Batista. Noel Rosa pediu ao compositor para fazer outra letra, intitulando-a “Deixa de ser convencida”. O registro constou do LP da Collector’s em 1989 “Os ídolos do Rádio – Roberto Paiva”.

SÓ PODE SER VOCÊ (Noel Rosa-Vadico)

Samba. Primeira gravação em 1937 com Aracy de Almeida (música de 1935 – 78 rpm, selo Victor n° 34.152a)

Compreendi seu gesto
Você entrou naquele meu chalé modesto
Porque pretendia somente saber
Qual era o dia em que eu deixaria de viver

Mas eu estava fora
Você mandou lembranças e foi logo embora
Sem dizer qual era o primeiro nome
De tal visita
Mais cruel, mais bonita que sincera

E pelas informações que recebi já vi
Que essa ilustre visita era você, porque
Não existe nessa vida
Pessoa mais fingida
Do que você!

Sobre Aracy de Almeida – v. artigo “Era a lua que tudo assistia”.

A ilustre –  Todas as canções desta edição foram dedicadas a Ceci. No caso de “Só pode ser você”, diz da visita à casa de sua mãe, no Rio, enquanto estava em Belo Horizonte , tratando da saúde.

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4 respostas para O fado dos mestres

  1. sara de souza disse:

    amo noel de medeiros rosa

  2. Francisco de Assis Alves disse:

    Noel será sempre atual

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