Sem humor não tem graça

“Se um burro pensasse… oferecia capim ao carroceiro.”

"Na minha casa só se come em prato fun-d-o-do" Noel Rosa (Ilustração Luquefar)

Sem humor não tem graça! – poderia dizer Noel. E não tem mesmo. Nossa alma carece da alegria para aliviar-se, descansar e se refazer da batida diária. Não é fácil tirar alguém do sério (não sendo para tirar-lhe a paciência, deixá-lo com nervos à flor da pele, o que é fácil). Difícil é dominá-lo e conduzi-lo aos prantos do riso. O humor tem tempo milimétrico e mágico. Vem do inesperado, do desconhecido, do ilógico ou do exagero, e vive intimamente integrado à tristeza e amargura, como na figura de Chaplin e de Noel.

Olhem o poeta! Todo o desgosto do mundo cabe no seu coração, e, no entanto, ele é um tipo divertido e astuto. Tem pensamento ágil e domina com maestria o tempo do humor; irônico, satírico, nonsense ou sarcástico. Faz sua obra músico-literária repleta de dissimulações, sutilezas, insinuações e indiretas, geralmente jogadas com bons propósitos. Digo, propósitos do humor… Sempre irreverente, o jovem enche de alegria a criação musical brasileira, deixando novas bossas para seu tempo no rumo da evolução.

A prática está com Noel desde os tempos do colégio São Bento, quando ridicularizava professores nas páginas de um jornalzinho que ele mesmo bolava e editava, sendo também a atração nos recreios cantando suas sátiras das canções da época, principalmente aquelas que derramavam a verborragia parnasiana.

O mestre do samba, do amor, da paixão, é também grande no gracejo. Traz o sonho da felicidade e tem a tristeza repleta de comicidade, de picardia, de tempero. Com muita pimenta. Quem não conhece se espanta com sua genialidade, com o assalto, com a peripécia, tanto para o cômico, quanto para o infortúnio. A vasta obra de Noel Rosa, apesar de interrompida pela vida que lhe foi tirada aos 26 anos, é completa e bem acabada. E para o nosso júbilo, cheia de graça.

Na próxima edição, domingo, 12 de setembro: E SAUDADE NÃO TEM COR

Músicas relacionadas

PRATO FUNDO (Noel Rosa-João de Barro)


Marcha. Primeira gravação em 1933 com Almirante (78 rpm, selo Victor n° 33.623b)

Se como tanto
Aprendi com a minha avó
Na minha casa
Só se come em prato fun-d-o-dó

A minha mana
Para esperar o almoço
Come casca de banana
Depois engole o caroço
E o meu titio
Faz vergonha a todo instante
Foi ao circo com fastio
E engoliu o elefante

Se como tanto
Aprendi com a minha avó
Na minha casa
Só se come em prato fun-d-o-dó

A minha tia
Já engoliu uma fruteira
Estou vendo ainda o dia
Que ela almoça a cozinheira
E depois disso
Leva sempre a dar palpite
Toma chumbo derretido
Para abrir o apetite

Se como tanto
Aprendi com a minha avó
Na minha casa
Só se come em prato fun-d-o-dó

Meu bisavô
Que era um índio botocudo
Devorou a tribo inteira
Com pajé, cacique e tudo
E a minha avó
Que comia à portuguesa
Reduziu dois bois a pó
E inda quis a sobremesa

Sobre João de Barro – v. artigo “Era a lua que tudo assistia”

Sobre Almirante – v. artigo “Prá ninguém zombar de mim”

Marcha – no Brasil, um gênero que virou carnavalesco. Aliás, típica da criatividade brasileira essa transformação de ritmo marcial, rígido, solene em música de foliões, solta e divertida. As marchas eram lançadas anualmente para o público, alguns meses antes da grande festa popular. Assuntos diversos: a vida alheia, o cotidiano, a política, as conquistas amorosas – tudo tratado sempre com muito humor. Bom humor era a regra, era a lei. Noel esteve muito próximo de dois grandes das marchinhas: João de Barro (como nesta “Prato Fundo”) e Lamartine Babo, que virá abaixo.

A E I O U (Noel Rosa-Lamartine Babo)


Marcha. Primeira gravação em 1932 com Lamartine Babo (78 rpm, selo Victor n° 33.503a) música de 1931

(Uma, duas, angolinhas
Finca o pé na pampulinha
Ciranda, cirandinha
Vamos todos cirandar)

A E I O U
Dabliú, dabliú
Na cartilha da Juju, Juju

A Juju já sabe ler
A Juju sabe escrever
Há dez anos na cartilha
A Juju já sabe ler
A Juju sabe escrever
Escreve sal com cê cedilha!

A E I O U
Dabliú, dabliú
Na cartilha da Juju, Juju

Sabe conta de somar
Sabe até multiplicar
Mas, na divisão se enrasca
Outro dia fez um feio
Pois partindo um queijo ao meio
Quis me dar somente a casca!

A E I O U
Dabliú, dabliú
Na cartilha da Juju, Juju

Sabe História Natural
Sabe História Universal
Mas não sabe Geografia
Pois com um cabo se atracando
Na bacia navegando
Foi prá Ásia e teve azia

A E I O U
Dabliú, dabliú
Na cartilha da Juju, Juju

(Vamos para o requêio?
Me dá um bolo?
Deixa eu beber água, deixa?
Fessola, deixa eu comprá um pitolé, deixa?)

A E I O U
Dabliú, dabliú
Na cartilha da Juju, Juju

Sobre Lamartine Babo – v. artigo “Era a lua que tudo assistia”

Angolinhas – galinhas d’angola.

Pampulinha – o mesmo que argolinha.

Dabliú – a letra dábliu (W), na melodia acentuada como oxítona, era muitas vezes utilizada com som da vogal “u”. Pertenceu ao alfabeto português naquela época, e agora, com a nova ortografia, voltou a integrá-lo.

MULHER INDIGESTA (Noel Rosa)


Samba. Primeira gravação em 1932 com Noel Rosa

Mas que mulher indigesta! Indigesta!
Merece um tijolo na testa

Essa mulher não namora
Também não deixa mais ninguém namorar
É um bom center-half prá marcar
Pois não deixa a linha chutar

Mas que mulher indigesta! Indigesta!
Merece um tijolo na testa

E quando se manifesta
O que merece é entrar no açoite
Ela é mais indigesta do que prato
De salada de pepino à meia-noite

Mas que mulher indigesta! Indigesta!
Merece um tijolo na testa

Essa mulher é ladina
Toma dinheiro, é até chantagista
Arrancou-me três dentes de platina
E foi logo vender no dentista

Center-half – beque central, no futebol de campo. A biografia de João Máximo e Carlos Didier atribui a dedicatória da canção à vizinha rabugenta de uma das namoradas de Noel, que não dava sossego ao casal.

GAGO APAIXONADO (Noel Rosa)


Samba. Primeira gravação em 1931 com Noel Rosa (78 rpm, selo Colúmbia n° 22.023b)

Mu-mu-mulher, em mim fi-fizeste um estrago
Eu de nervoso estou-tou fi-ficando gago
Não po-posso com a cru-crueldade da saudade
Que que mal-maldade, vi-vivo sem afa…go

Tem tem pe-pena deste mo-moribundo
Que que já virou va-va-va-va-ga-gabundo
Só só só só por ter so-so-sofri-frido
Tu tu tu tu tu tu tu tu
Tu tens um co-coração fi-fi-fingido

Mu-mu-mulher, em mim fi-fizeste um estrago
Eu de nervoso estou-tou fi-ficando gago
Não po-posso com a cru-crueldade da saudade
Que que mal-maldade, vi-vivo sem afago

Teu teu co-coração me entregaste
De-de-pois-pois de mim tu to-toma-maste
Tu-tua falsi-si-sidade é pro-profunda
Tu tu tu tu tu tu tu tu
Tu vais fi-fi-ficar corcunda!

Carro-chefe -  Luiz Barbosa, cantor e ritmista, dá um show de percussão batendo um lápis nos dentes. O grande músico Luiz Americano brinca no clarinete, enquanto Noel canta e se acompanha ao violão. O Gago Apaixonado tornou-se uma espécie de carro-chefe do repertório de Noel.

Se-sen…sa-saci…onal! – É como nos diria um ga-gago ao ouvir este sam-samba.

O QUE É QUE VOCÊ FAZIA (Noel Roa-Hervê Cordovil)


Marcha. Primeira gravação em 1936 com Carmem Miranda (78 rpm, selo Odeon n° 11.324ª) música de 1935

Deitado num trilho de um trem
Estando amarrado e amordaçado
Sabendo que o maquinista
Não é seu parente
Nem olha prá frente
O que é que você fazia?
Eu nesse caso nem me mexia

Sentado, olhando um cachorro
Que da sua mão tirou o seu pão
Sabendo que o seu bilhete
Que está premiado
Também foi roubado
O que é que você fazia?
Eu nesse caso nem me mexia

Se um dia sua sogra bebesse
Um gole pequeno de um grande veneno
E por um capricho da sorte
Ou de algum doutorzinho
Ela ficasse mais forte
O que é que fazia o senhor?
- Eu nesse caso matava o doutor
E o que é que você fazia?
Eu nesse caso desaparecia

Hervê Cordovil – (3/2/1914) de Viçosa, MG. Compositor, pianista e advogado. Teve destacada atuação como pianista, integrando conjuntos que atuaram no rádio brasileiro nos anos 1930 até 1960. Foi autor de “Sabiá lá na Gaiola” em parceria com Mário Vieira, sucesso de Carmélia Alves. Para seu filho Ronnie Cord  compôs o rock“Rua Augusta” e fez a versão  “Biquíni de bolinha amarelinha”.

Sobre Carmem Miranda – v. artigo “Amor tom de cinza”.

Eu nem me mexia! – Este é um exemplo de interpretação que confirma todo o talento de Carmen Miranda. Sem dúvida, onde Elis Regina também buscou inspiração.

O veneno da sogra – Nesta marcha Noel, de uma nova perspectiva, retoma um tema de início de carreira, tratado em “Cordiais Saudações” (v. o artigo “Eu ando sem l’argent toujours”).

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2 respostas para Sem humor não tem graça

  1. Ângela Maria disse:

    Toninho Carmargos,

    Você não é fraco não!!!!!
    Parabenizo você, Luiz Henrique e Regina pelo belo trabalho.
    Trabalho de resgate com qualidade e capricho da obra do Grande Noel Rosa.
    Ficou 1000!!!!! Amei!!!!

    Abraços,

    Ângela Maria
    Escola de Música de Nova Lima

    • toninhocamargos disse:

      Olá Ângela

      Agradecemos o comentário. E se puder, divulgue entre os alunos desta experiência fantástica que é a Escola de Música de Nova Lima.

      Toninho / Regina / Luiz Henrique

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