A morada do samba

“O samba na realidade não vem do morro, nem lá da cidade. Nasce do coração”

Noel Rosa e a morada do samba (Ilustração Luquefar)

Onde mora nosso samba? Será que se acomoda nos cantos do coração? O samba brinca com os sonhos de amor da morena sereia e vagueia na alma de João Ninguém, que vive num vão de escada e goza  de felicidade que muita gente não tem. O samba em movimento, faz dançar os galhos do arvoredo e faz a lua nascer mais cedo. Lá no morro da Mangueira foi o samba se ajeitar defronte à ribanceira. Sua morada é também a cidade de sonho, que guarda a riqueza da terra e do mar.

O samba conhece a lua triste que ilumina minha rua e desdenha a Julieta, que prefere carícias de papel. Permanece no orvalho que cai, como no choro do pierrô apaixonado. Na mentira sublime e no falso beijo, na ironia de uma ilustre visita ou de um capricho de mulher. E na pele do pandeiro, sente a mão batucar, com saudades do violão e da palhoça! O samba está presente na conversa de botequim e em tudo aquilo que o malandro pronuncia, com voz macia, que é brasileiro, já passou de português.

Mora o samba na fumaça do cigarro que joguei ao chão e apanhei prá fumar. Na fumaça do cachimbo de Maria, ou do carro de praça que partiu com destino ignorado. Desceu o samba feliz do Estácio, Salgueiro, Mangueira, Oswaldo Cruz e Matriz, e ficou triste na melodia em feitio de oração. O coração de sambista(malandro que não come porque o samba mata a fome) foi morar na cidade independente, que tira samba mas não quer tirar patente. Tem saudades do barracão, que cansado de esperar, saiu do lugar.

Onde o samba me encanta? Onde o samba resiste? Em qual quebrada, qual barraco, em qual sonho? Na intriga de um café pequeno que se toma para ver quem vai pagar. No braço habilidoso de um malandro que é medroso. Nos meus olhos com ciúmes. No costume de sofrer que Deus me deu. Na voz da alegria que passa. No feitiço sem farofa, sem vela e sem vintém, que nos faz bem. E onde mais o samba tem graça? Em Vila Isabel, no botequim, na cachaça, no bangalô de Noel.

Na próxima edição, domingo, 26 de setembro: CRONISTA DA ARTE E DA CANÇÃO

Músicas relacionadas

MEU BARRACÃO (Noel Rosa)

Samba. Primeira gravação em 1933 com Mário Reis

Faz hoje quase um ano
Que eu não vou visitar
Meu barracão lá da Penha
Que me faz sofrer
E até mesmo chorar
Por lembrar a alegria
Com que eu sentia
O forte laço de amor
Que nos prendia

Não há quem tenha
Mais saudades lá da Penha
Do que eu, juro que não
Não há quem possa
Me fazer perder a bossa
Só a saudade do barracão

Mas veio lá da Penha
Hoje uma pessoa
Que trouxe uma notícia
Do meu barracão
Que não foi nada boa
Já cansado de esperar
Saiu do lugar
Eu desconfio
Que ele foi me procurar

Não há quem tenha
Mais saudades lá da Penha
Do que eu, juro que não
Não há quem possa
Me fazer perder a bossa
Só a saudade do barracão

Sobre Mário Reis – v. o artigo “Prá ninguém zombar de mim”

VAI HAVER BARULHO NO CHÂTEAU (Noel Rosa-Walfrido Silva)

Samba. Primeira gravação em 1933 com Mário Reis (78 rpm, selo Odeon n° 10.977-a)

Vai haver barulho no chatô
Porque minha morena falsa me enganou
Se eu ficar detido
Por favor, vá me soltar
Tenho o coração ferido
Quero me desabafar

Quase sempre eu evito
Bate-boca em nosso lar
Pois não quero ir pro Distrito
Por questão particular

Vai haver barulho no chatô
Porque minha morena falsa me enganou
Se eu ficar detido
Por favor, vá me soltar
Tenho o coração ferido
Quero me desabafar

Desta vez é impossível
Tenho que desacatar
Parece uma coisa incrível
Não ter quem queira me soltar

Walfrido Silva – Valfrido Pereira da Silva (12/8/1904 – 6/1/1972) do Rio de Janeiro, RJ. Compositor e baterista, foi considerado um dos melhores do instrumento na Época de Ouro, sempre requisitado por Pixinguinha para o “Diabos do Céu”, grupo que acompanhou dezenas de intérpretes nos estúdios de gravação. Foi autor de grandes sucessos, como o “Tic-tac do meu coração”, que fez com Alcyr Pires Vermelho para Carmen Miranda.

Chatô –do francês Château=castelo Apesar do significado “grandioso, chatô era uma gíria usada para se referir a simples moradia.

PRÁ ESQUECER (Noel Rosa)

Samba. Primeira gravação em 1934 com Francisco Alves (música de 1933 – 78 rotações, selo Odeon n° 13.290-b)

Naquele tempo
Em que você era pobre
E eu vivia como nobre
A gastar meu vil metal
E por minha vontade
Você foi para a cidade
Esquecendo a solidão
E a miséria daquele barracão

Tudo passou tão depressa
Fiquei sem nada de meu
Esquecendo a promessa
Você me esqueceu
E partiu com o primeiro que apareceu
Não querendo ser pobre como eu

E hoje em dia
Quando por mim você passa
Bebo mais uma cachaça
Com meu último tostão
Prá esquecer a desgraça
Tiro mais uma fumaça
Do cigarro que filei
De um ex-amigo
Que outrora sustentei

Tudo passou tão depressa
Fiquei sem nada de meu
Esquecendo a promessa
Você me esqueceu
E partiu com o primeiro que apareceu
Não querendo ser pobre como eu

Sobre Francisco Alves – v. o artigo “Prá ninguém zombar de mim”

Vil metal – forma desdenhosa de se referir ao dinheiro.

JULIETA (Noel Rosa-Eratóstenes Frazão)

Fox. Primeira gravação em 1933 com Castro Barbosa (música de 1931)

Julieta
Não és mais um anjo de bondade
Como outrora sonhava o teu Romeu
Julieta tens a volúpia da infidelidade
E quem te paga as dívidas sou eu

Julieta
Tu não ouves meu grito de esperança
Que afinal, de tão fraco não alcança
As alturas do teu arranha-céu
Tu decretaste a morte aos madrigais
E constróis um castelo de ideais
No formato elegante de um chapéu

Julieta
Nem falar em Romeu tu hoje queres
Borboleta sem asas, tu preferes
Que te façam carícias de papel
Nos teus anseios loucos, delirantes
Em lugar de canções queres brilhantes
Em lugar de Romeu, um coronel!

Eratóstenes Frazão – Erastótenes Alves Frazão (17/1/1901 – 17/4/1977) do Rio de Janeiro, RJ. Flautista, compositor, jornalista e radialista, deixou extensa obra na música brasileira, tendo sido parceiro de nomes destacados como Roberto Martins, Nássara, Marino Pinto, Benedito Lacerda ou Haroldo Lobo. Foi produtor do Programa Casé e trabalhou na redação de “O País”.

Sobre Castro Barbosa – v. o artigo “Prá ninguém zombar de mim”

Volúpia – desejo descontrolado de prazer sexual.

Coronel – a figura do “coronel”, poderoso político, constante na crítica noelina.

MORENA SEREIA (Noel Rosa-José Maria de Abreu)

Samba. Primeira gravação em 1962 com Marília Baptista (música de 1936)

Morena sereia
Que à beira-mar não passeia
Que senta na praia e deixa a praia cheia
De lindos castelos de areia

Cuidado criança
Que qualquer dia um tufão
Derruba estes teus castelos de esperança
E enche de areia o teu coração

Se algum dia tu souberes
Que o teu nome eu escrevi
Entre mais de dez nomes de mulheres
Terás certeza que te amei mas te esqueci

José Maria de Abreu – (7/2/1911 – 11/5/1966) de Jacareí, SP. Compositor, multi-instrumentista e regente. Forma o primeiro time da música popular brasileira, com obra sempre lembrada pela qualidade melódica. Filho de músicos – seu pai era regente e sua mãe pianista – escreveu para diferentes gêneros da música popular, tornando-se parceiro de grandes nomes, como João de Barro, Alberto Ribeiro, Francisco Matoso e Lamartine Babo.

Sobre Marília Baptista – v. o artigo “Eu ando sem l’argent toujours

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2 respostas para A morada do samba

  1. so uma palavra F A N T A SSSSS T I C OOOOOOOO………………

  2. paulo gomes disse:

    !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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