Cronista da arte e da canção

“É assim que eu faço as minhas coisas. Com situações, episódios, emoções, aspectos colhidos da vida real.”

Noel Rosa-Cronista Musical

Noel Rosa-Cronista Musical (Ilustração de Luquefar)

Ordem cronológica é lista sequencial. Cronologia vem de khrónos, vocábulo grego que significa ciência da medida do tempo. Do latim, veio a palavra que hoje conhecemos como crônica e que já foi utilizada fielmente como relato cronológico de fatos reais. Isto foi num tempo distante. A crônica passou a mostrar o cotidiano, com sotaque literário, com sua utilização em jornais. Essa história da crônica vai nos ajudar a compreender melhor nossa música.

O desenvolvimento literário do texto que acompanha nossas canções encontra reconhecimento até nos tratados acadêmicos, inclusive de estrangeiros especializados em nossos assuntos. Em pelo menos dois terços da produção nos 160 anos de existência da música popular no Brasil, o texto se mostra presente com grande evidência. E a crônica emoldura o propósito com um toque de sofisticação e bom gosto. O samba e Noel Rosa se encontram aí.

Nossos autores, ao escreverem para a música, entusiasmam-se com a “fala” do amor. O amor vem por princípio, mas também há os que tomam gosto pelo registro do cotidiano. Na evolução do samba é marcante esta tendência. Para o brasileiro, que normalmente não podia ler jornais, crônicas musicadas tornam-se oportunas. A música com letra faz sucesso, principalmente após o advento do disco e do rádio. Toma o gosto popular e ganha o olhar interessado dos autores.

Pois, ninguém melhor que Noel, faz crônica de si mesmo e de seu tempo. Mostra-se um especialista perspicaz. E traz, em seus quase sete anos de composição, novidades ao texto musical, imprimindo-lhe tom absolutamente moderno e coloquial, influenciando muitos, sambistas ou não, em épocas distintas. Com habilidade literária e oportunismo, traz humor e delicadeza, real sentimento e, sobretudo, qualidade à música popular.

Na próxima edição, domingo, 3 de outubro: FOI NEGÓCIO, FOI DIVERTIMENTO

Músicas relacionadas

RAPAZ FOLGADO (Noel Rosa)

Samba. Primeira gravação em 1938 com Aracy de Almeida (78 rpm, selo Victor nº 34.368-b – música de 1933).

Deixa de arrastar o teu tamanco
Pois tamanco nunca foi sandália
E tira do pescoço o lenço branco
Compra sapato e gravata
Joga fora esta navalha que te atrapalha

Com chapéu do lado deste rata
Da polícia quero que escapes
Fazendo um samba-canção
Já te dei papel e lápis
Arranja um amor e um violão

Malandro é palavra derrotista
Que só serve prá tirar
Todo o valor do sambista
Proponho ao povo civilizado
Não te chamar de malandro
E sim de rapaz folgado

Sobre Aracy de Almeida – v. artigo “Era a lua que tudo assistia”.

Polêmica – Esta canção “Rapaz Folgado” abre a polêmica com Wilson Batista, com alfinetadas diretas à sua “Lenço no Pescoço”. A disputa ocorreu basicamente no métier do samba, já que a canção que provocou a polêmica só foi gravada após a morte de Noel. Compõem a polêmica: “Mocinho da Vila”, “Palpite Infeliz”, “Frankenstein da Vila”, “Feitiço da Vila”, dentre outras. Todas com lances de respostas e ataques de um lado e de outro.

Deste rata – Dar rata é dar mancada, cometer uma gafe, um ato inconveniente.

CONVERSA DE BOTEQUIM (Noel Rosa-Vadico)

Samba. Primeira gravação em 1935 com Noel Rosa (78 rpm, selo Odeon nº 11.257-b)

Seu garçom faça o favor de me trazer depressa
Uma boa média que não seja requentada
Um pão bem quente com manteiga à beça
Um guardanapo e um copo d’água bem gelada
Feche a porta da direita com muito cuidado
Que não estou disposto a ficar exposto ao sol
Vá perguntar ao seu freguês do lado
Qual foi o resultado do futebol

Se você ficar limpando a mesa
Não me levanto nem pago a despesa
Vá pedir ao seu patrão
Uma caneta, um tinteiro
Um envelope e um cartão
Não se esqueça de me dar palitos
E um cigarro prá espantar mosquitos
Vá dizer ao charuteiro
Que me empreste umas revistas
Um isqueiro e um cinzeiro

Seu garçom faça o favor de me trazer depressa
Uma boa média que não seja requentada
Um pão bem quente com manteiga à beça
Um guardanapo e um copo d’água bem gelada
Feche a porta da direita com muito cuidado
Que não estou disposto a ficar exposto ao sol
Vá perguntar ao seu freguês do lado
Qual foi o resultado do futebol

Telefone ao menos uma vez
Para três, quatro, quatro, três, três, três
E ordene ao seu Osório
Que me mande um guarda-chuva
Aqui pro nosso escritório
Seu garçom me empresta algum dinheiro
Que eu deixei o meu com o bicheiro
Vá dizer ao seu gerente
Que pendure esta despesa
No cabide ali em frente

Sobre Vadico – v. artigo “Eu ando sem l’argent toujours!”

Tinteiro – Antes da invenção da esferográfica, este compartimento de guardar a tinta que abastecia as canetas de pena era fundamental para a escrita.

PIERROT APAIXONADO (Noel Rosa-Heitor dos Prazeres)

Marcha. Primeira gravação em 1936 com Joel e Gaúcho (78 rpm, selo Victor nº 34.012ª – música de 1935)

Um pierrot apaixonado
Que vivia só cantando
Por causa de uma colombina
Acabou chorando, acabou chorando

A colombina entrou num botequim
Bebeu, bebeu, saiu assim, assim
Dizendo: pierrot cacete
Vai tomar sorvete com o arlequim

Um pierrot apaixonado
Que vivia só cantando
Por causa de uma colombina
Acabou chorando, acabou chorando

Um grande amor tem sempre um triste fim
Com o pierrot aconteceu assim
Levando esse grande shoot
Foi tomar vermouth com amendoim

Heitor dos Prazeres – (23/9/1898 – 4/10/1966) do Rio de Janeiro, RJ. Compositor, instrumentista e pintor. Despontou ainda na década de 1920; amigo de Ismael, Bidê e Paulo da Portela. Em 1928 abre polêmica com o compositor Sinhô (renomado “rei do samba”), acusando-o de roubo de “Ora, vejam só” e “Cassino Maxixe”, esta última gravada com o título “Gosto que me enrosco”. Heitor gostava de ironizar seu desafeto: “rei dos meus sambas!”. E Sinhô: “samba é como passarinho. É de quem pegar primeiro!”. Mas, assim como Sinhô, Heitor dos Prazeres deixou obra fabulosa no mundo do samba, além de grande contribuição para as artes plásticas com sua pintura primitivista.

Joel e Gaúcho – Joel de Almeida (1913 – 1993) de Rio de Janeiro, RJ e Gaúcho, sobre o qual já escrevemos no artigo “Era a lua que tudo assistia”, formaram uma das mais conceituadas duplas vocais de samba – muito em voga nos anos de 1930 e 1940. Esta gravação marca a estréia da dupla no mundo do disco, que apresenta história extensa, com dezenas de sucessos, até o início da década de 1950.

Estrangeirismos – Os termos pierrot, shoot e vermouth, como outros, foram depois aportuguesados em suas escritas para pierrô, chute e vermute.

Cacete – A irreverência marca a obra de Noel, como neste pierrô “cacete”: chato, inconveniente.

ESQUINA DA VIDA (Noel Rosa-Francisco Mattoso)

Samba. Primeira gravação em 1933 com Mário Reis

É na esquina da vida
Que assisto à descida de quem subiu
Faço o confronto
Entre o malandro pronto
E o otário que nasceu prá milionário

E na esquina da vida observo o valor
Que o homem dá à mulher e ao amor
E é por isso que ela em qualquer situação
Zomba da gente, sempre cheia de razão

É na esquina da vida
Que espero ver você estendendo a mão
E implorando já desiludida
O meu perdão
Para eu dizer que não

E na esquina da vida observo o valor
Que o homem dá à mulher e ao amor
E é por isso que ela em qualquer situação
Zomba da gente, sempre cheia de razão

Francisco Mattoso – Francisco de Queirós Mattoso (8/4/1913 – 18/12/1941) de Petrópolis, RJ. Compositor e pianista, foi o autor de três músicas muito conhecidas do grande público: “Eu sonhei que tu estavas tão linda” (parceria com Lamartine Babo), “Boa noite, amor” e “Pegando fogo” (as duas com José Maria de Abreu, que foi seu parceiro mais constante). Nos anos 1980 “Pegando Fogo”, regravada por Gal Costa, voltou para as paradas de sucesso! Como Noel, morreu cedo, com 28 anos, vitimado pela tuberculose, marcando seu nome na história da MPB.

Sobre Mário Reis – v. artigo “Pra ninguém zombar de mim”

A MELHOR DO PLANETA (Noel Rosa-Almirante)

Samba. Primeira gravação em 1955 com Aracy de Almeida (LP Continental-LPP 10” – música de 1934)

Tu pensas que tu é que és
A melhor mulher do planeta
Mas eu é que não vou fazer
Tudo o que te der na veneta

Tu foste marcar dois por quatro
Batendo teus pés lá no chão do teatro
Não entendo a opereta
Fizeste a careta
Pior do planeta

Tu pensas que tu é que és
A melhor mulher do planeta
Mas eu é que não vou fazer
Tudo o que te der na veneta

Tu foste dançar par constante
Num baile de um clube da Liga Barbante
Tu abafaste a orquestra
Dizendo: “sou mestra!”
Pior pro Palestra!

Sobre Almirante – v. artigo “Dona Maria, Seu João e outros”

Clube da Liga Barbante – clube sem expressão. “Liga Barbante” é como ficou conhecida a “Associação de Football do Rio de Janeiro”, fundada pelo Botafogo em 1912, por ser formada por clubes que, à época, eram de pouca expressividade na Capital Federal (segundo o site da Federação de Futebol do Rio de Janeiro).

Palestra – palavra vinda do grego, ligada a disputas, ao esporte. Na música pode ser referência a “Palestra-Itália”, clubes de futebol formados por imigrantes e descendentes de italianos, em várias cidades brasileiras. Em São Paulo e em Belo Horizonte estas agremiações originaram o Palmeiras e o Cruzeiro respectivamente (em 1934, suposto ano da composição, Noel ainda não havia conhecido a capital mineira).

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2 respostas para Cronista da arte e da canção

  1. Tayane Lopes disse:

    Olá pessoal!
    Muito legal o blog. Parabéns! =)
    Aproveitando este espaço para falar que este ano o 22º Prêmio de Música Brasileira está homenageando o Noel Rosa. Além disso, aproveito para pedir que confiram e divulguem (se gostarem! rs) meu vídeo que está entre os 10 finalistas. http://bit.ly/kYV4zB Um abraço!

    • toninhocamargos disse:

      Parabéns Tayane, pelo Conversa de Botequim. Muito bom, boa sorte no Vale cantar Noel e sucesso!!

      Luiz Henrique / Regina e Toninho

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