Foi negócio, foi divertimento

“Cada paixão que eu esqueço é mais um samba que faço”

 

Noel Rosa - amor, negócio e divertimento (livre criação de Luquefar)

“O amor é um vício que fala mais alto do que a natureza”, disse Noel, depois de jurar  não mais amar… pela décima vez… Não conseguimos viver sem esse vício, presente que está em nossas vidas o tempo todo, enchendo a cabeça de tentações e brejeirices que nos estimulam o apetite. Homem e mulher juntos e pronto: perigo à espreita; o braseiro esperta a fervença e o interesse aparece. Vem a paixão e, nas entranhas da confusão, desinquietação, desconfiança e descontentamento. É um Deus-nos-acuda!

Amor bandido ou mal resolvido é, quase sempre, causa de ressentimento. Aparece às vezes como desprazer, mazela, agrura ou amolação. Em outras por aperreação, pesar, dissabor e outros sintomas. Aquela coisa que fica lá dentro, que quem dela padece às vezes nem sabe, mas a gente percebe que tem. O rapaz está lá, triste com a amada que lhe deu o fora. E não quer nem ouvir falar mais da dita cuja. Ficou sabendo, por tanto falatório, poucas e boas da distinta. Tudo dito pela boca de amigos… dela!

O ressentimento se traduz em música e a brasileira está repleta de seus exemplos. Esplêndidos ou de pura breguice. Dor de cotovelo é tema que não falta em épocas distintas e nos variados estilos: fazem a vez de intérpretes e compositores da canção no Brasil. Alguns chegam a ser considerados verdadeiros representantes da temática, como o gaúcho Lupicínio Rodrigues e seu intérprete favorito Jamelão. Onde existir dor de cotovelo, há de se encontrar ressentimento.

Muito natural, portanto, que esteja na obra de Noel Rosa. Um homem que tanto ama, tanto sofre, e com amor se desentende tantas e tantas vezes. No fundo dos desentendimentos fica a mágoa. Ninguém sabe ao certo o seu real significado na vida do compositor, mas está nas entrelinhas de canções, que os versos bem construídos do poeta deixam transparecer: “você não sai do nosso pensamento; você foi negócio, foi divertimento”.

Na próxima edição, domingo, 10 de outubro: O BRASIL DE NOEL

Músicas relacionadas

AMOR DE PARCERIA (Noel Rosa)


Samba-choro. Primeira gravação em 1935 com Aracy de Almeida (78 rpm, selo Victor nº 33.973b – música de 1933)

Saiba primeiro que fulana é minha amiga
E comigo ela não briga com ciúme de você
Você provoca briga entre rivais
Para depois ver nos jornais seu nome e seu clichê
Há muito tempo minha amiga me avisava
Que ela sempre conversava com você no seu jardim
E começou nossa parceria
Eu fui por ela e ela foi por mim

Você pensou que fomos enganadas
Marcando encontro em horas alternadas
E nós fizemos a sua vontade
Dentro daquela escrita eu e ela
Não tivemos prejuízo na sociedade

Quando você se atrasava uma hora
E fingia não saber a razão dessa demora
E muita vez você perdeu a fala
Quando tava sem tostão e eu pedia bala!
Nós aturamos os seus modos irritantes
Mas filamos bons jantares nos melhores restaurantes
Você não sai de nosso pensamento
Você foi negócio e foi divertimento

Sobre Aracy de Almeida – v. artigo “Era a lua que tudo assistia”.

Clichê – No tempo da tipografia, era a peça de metal gravada em relevo para reprodução de ilustrações e fotos nos impressos e jornais.

Sem tostão – é sem dinheiro! (já vimos antes, no segundo artigo).

Pedir bala – é pedir dinheiro!

VOCÊ VAI SE QUISER (Noel Rosa)


Samba. Primeira gravação em 1936 com Noel Rosa e Marília Baptista (78 rpm, selo Odeon nº 11.422b)

(Você vai se quiser)
Você vai se quiser
Pois a mulher
Não se deve obrigar a trabalhar
Mas não vai dizer depois
Que você não tem vestido
Que o jantar não dá prá dois

Todo cargo masculino
Desde o grande ao pequenino
Hoje em dia é prá mulher
E por causa dos palhaços
Ela esquece que tem braços
Nem cozinhar ela quer
(Você vai se quiser)

Você vai se quiser
Pois a mulher
Não se deve obrigar a trabalhar
Mas não vai dizer depois
Que você não tem vestido
Que o jantar não dá prá dois

Os direitos são iguais
Mas até nos tribunais
A mulher faz o que quer
Cada qual que cate o seu
Pois o homem já nasceu
Dando a costela à mulher

(Você vai se quiser)

Sobre Marília Baptista – v. o artigo “Eu ando sem l’argent toujours

ESTAMOS ESPERANDO (Noel Rosa)


Samba. Primeira gravação em 1933 com Francisco Alves e Mário Reis (música de 1932)

Estamos esperando
Vem logo escutar
O samba que fizemos prá te dar
A rua adormeceu
E nós vamos cantar
Aquilo que é só teu
Que nos faz penar!

Da tua voz tirei a melodia
E a harmonia eu fiz com teu olhar
Já estava perdendo a paciência
Quando roubei a cadência
Do teu modo de pisar
(Chega à janela…)

Estamos esperando
Vem logo escutar
O samba que fizemos prá te dar
A rua adormeceu
E nós vamos cantar
Aquilo que é só teu
Que nos faz penar!

E este samba que fiz de parceria
Depois de feito não é dele nem é meu
Escuta o violão que está gemendo
Tuas cordas vão dizendo
Que este samba é só teu!
(Até amanhã…)

Sobre Francisco Alves e Mário Reis – v. o artigo “Prá ninguém zombar de mim”.

Estamos esperando – Almirante conta sobre passagem de Noel e Ismael Silva, sempre requisitados por Francisco Alves para comporem para as suas gravações, algumas lhe rendendo inclusão de seu nome como parceiro. Certa vez, cobrando-lhes pagamento de uma dívida em um encontro com os dois em um bar, o Chico exigiu duas inéditas, que teriam que ser feitas ali mesmo. Ismael compôs “Fica calmo que aparece” e Noel esta: “Estamos esperando”. Puro ressentimento…

SEJA BREVE (Noel Rosa)


Samba-choro. Primeira gravação em 1933 com Luís Barbosa e João Petra de Barros

Seja breve, seja breve
Não percebi por que você se atreve
A prolongar sua conversa mole
Seja breve
Não amole
Senão acabo perdendo o controle
E vou cobrar o tempo que você me deve

Seja breve, seja breve
Não percebi por que você se atreve
A prolongar sua conversa mole
(E não adianta)
Seja breve
(Conversa de teso!)
Não amole
Senão acabo perdendo o controle
E vou cobrar o tempo que você me deve

Eu me ajoelho e fico de mãos postas
Só para ver você virar as costas
E quando vejo que você vai longe
Eu comemoro sua ausência com champanhe
(Deus lhe acompanhe
Vá com Deus)

Seja breve (vê se não volta) Seja breve
Não percebi por que você se atreve
A prolongar sua conversa mole
Seja breve
Não amole
Senão acabo perdendo o controle
E vou cobrar o tempo que você me deve

A sua vida nem você escreve
E além disso você tem mão-leve
Eu só desejo ver você nas grades
Prá te dizer baixinho sem fazer alarde
Deus lhe guarde (Vá com Deus)

Seja breve (ininteligível na gravação)
Seja breve (no caminho)
Não percebi por que você se atreve
A prolongar sua conversa mole
Seja breve
Não amole
Senão acabo perdendo o controle
E vou cobrar o tempo que você me deve

Vou conservar a porta bem fechada
Com um cartaz: é proibida a entrada
E você passa a ser pessoa estranha
Meu bolso fica livre dos ataques seus
Graças a Deus

Luís Barbosa – Luís dos Santos Barbosa (7/7/1910 – 8/10/1938) de Macaé, RJ. Cantor e compositor. Irmão de Castro Barbosa, já citado anteriormente, foi outro artista brasileiro, contemporâneo de Noel, morto pela tuberculose precocemente. No mundo do disco desde 1931, foi autor de canções importantes e teve participação destacada como intérprete. Haja vista esta “Seja Breve”, em dueto com João Petra de Barros (também citado antes – v. artigo “O samba mulato”): um show de ginga e cadência da dupla, com direito à percussão em chapéu de palhinha.

Teso – o sentido do termo na música é sem dinheiro, duro.

Mão-leve – aquele que furta de modo dissimulado, gatuno.

RISO DE CRIANÇA (Noel Rosa)


Samba-choro. Primeira gravação em 1934 com Aracy de Almeida (música de 1930)

Seu riso de criança
Que me enganou
Está num retratinho
Que eu guardo e não dou
Guardei sua aliança
Prá ter a lembrança
Do meu violão
Que você empenhou

E cada morro que passo
Um novo amor eu conheço
Cada paixão que eu esqueço
É mais um samba que faço

Seu riso de criança
Que me enganou
Está num retratinho
Que eu guardo e não dou
Guardei sua aliança
Prá ter a lembrança
Do meu violão
Que você empenhou

Canto agora de passagem
Você ouve bem de longe mas não vê
É a última homenagem
Que eu vou fazer a você

Seu riso de criança
Que me enganou
Está num retratinho
Que eu guardo e não dou
Guardei sua aliança
Prá ter a lembrança
Do meu violão
Que você empenhou

Eu nascendo pobre e feio
Ia ser triste o meu fim
Mas crescendo a bossa veio
Deus teve pena de mim

Auto-retrato – a última estrofe não foi gravada. O texto é apresentado em “Noel Rosa – uma biografia” como sendo da criação original.

Bossa – Noel utilizou algumas vezes esta palavra (muito antes da bossa nova). O dicionário dá como significado para este caso “talento cultivado, maestria, perícia”. Dos versos da estrofe tira-se uma conclusão: o poeta podia não ter em mente a importância que sua obra ganharia no tempo e no espaço, mas tinha consciência de sua capacidade criativa.

___________________

A ilustração da semana é uma livre criação de Luquefar em cima de um trabalho de autor desconhecido, provavelmente da década de 1930.

 

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