Último desejo

“Ninguém pode evitar de se apaixonar por alguém”

 

Noel Rosa: último desejo (Ilustração Luquefar)

 

Aos condenados dá-se o direito ao último desejo. Noel conhece a gravidade de seu estado de saúde e sabe que não lhe resta mais muito tempo. Todas as tentativas de repouso para recuperação em cidades e abrigos de clima ameno, procuradas por orientação médica, são seguidas e mostram-se ineficientes, mas ainda encontra forças para compor, mesmo que já não a tenha para cantar. Agora está magro, muito magro e sente fraqueza geral. Passa em casa seus últimos momentos.

Três de seus melhores sambas são compostos no ano de sua morte: “Eu sei sofrer”, “Prá que mentir” (com música de Vadico) e “Último Desejo”. São obras irretocáveis, de grande beleza estética e vivacidade; recados cruéis e diretos a quem tanto ama. Formam uma mágica trilogia de dor e de coragem. Encerram em si a mais bela pintura psicológica de um ser em luta para exercer dignamente seu direito de vida no tempo que ainda lhe restar. Às 16:30 horas do dia 4 de maio de 1937, dá-se por vencido.

Seu último desejo será mensagem particular e silenciosa, que Ceci levará consigo pela vida.  Em “Fita Amarela”, quando se refere à morte pela primeira vez , utiliza-a como mera força de expressão literária. Já em “Pela décima vez” a tuberculose lhe atormenta e o amor lhe parece um veneno fatal. Aparece o medo. Noel Rosa enfrenta a terrível ameaça com suas armas afiadas: ironia e sarcasmo.

O mestre do samba, do amor, da paixão, também grande na graça, torna-se agora o poeta da morte. Ri de si mesmo para mostrar ao mundo sua nobreza e poder. A força da intuição e criatividade, na fascinante profissão de juntar notas e palavras para transformar sonhos em realidade, e a transfigurá-la em sonho novamente. A arte de fazer chorar e rir, rir e chorar; viver e morrer, morrer e viver em ciclo infinito. A Noel permanentemente vivo, nossa homenagem no seu centenário.

Na próxima edição, domingo, 24 de outubro: PARA SEMPRE, NOEL!

Músicas relacionadas

FITA AMARELA (Noel Rosa)

Samba. Primeira gravação em 1933 com Francisco Alves e Mário Reis (música de 1932)

Quando eu morrer, não quero choro nem vela
Quero uma fita amarela gravada com o nome dela

Se existe alma, se há outra encarnação
Eu queria que a mulata sapateasse no meu caixão

Quando eu morrer, não quero choro nem vela
Quero uma fita amarela gravada com o nome dela

Não quero flores nem coroa com espinho
Só quero choro de flauta, violão e cavaquinho

Quando eu morrer, não quero choro nem vela
Quero uma fita amarela gravada com o nome dela

Estou contente, consolado por saber
Que as morenas tão formosas a terra um dia vai comer.

Quando eu morrer, não quero choro nem vela
Quero uma fita amarela gravada com o nome dela

Não tenho herdeiros, não possuo um só vintém
Eu vivi devendo a todos mas não paguei a ninguém

Quando eu morrer, não quero choro nem vela
Quero uma fita amarela gravada com o nome dela

Meus inimigos que hoje falam mal de mim
Vão dizer que nunca viram uma pessoa tão boa assim.

Sobre Francisco Alves – v. artigo “Prá ninguém zombar de mim”.

Sobre Mário Reis – v. artigo “Prá ninguém zombar de mim”

Versos completos – apresentamos também versos não registrados na primeira gravação da música.

PELA DÉCIMA VEZ (Noel Rosa)

Samba. Primeira gravação em 1947 com Aracy de Almeida (música de 1935)

Jurei não mais amar pela décima vez
Jurei não perdoar o que ela me fez
O costume é a força que fala mais forte do que a natureza
E nos faz dar provas de fraqueza

Joguei meu cigarro no chão e pisei
Sem mais nenhum aquele mesmo apanhei e fumei
Através da fumaça neguei minha raça chorando, a repetir:
Ela é o veneno que eu escolhi para morrer sem sentir

Senti que o meu coração quis parar
Quando voltei e escutei a vizinha falar
Que ela só de pirraça seguiu com um praça ficando lá no xadrez
Pela décima vez ela está inocente nem sabe o que fez

Sobre Aracy de Almeida – v. artigo “Era a lua que tudo assistia”.

ADEUS (Noel Rosa-Ismael Silva)

Samba. Primeira gravação em 1932 com Francisco Alves e Castro Barbosa (música de 1931)

Adeus! Adeus! Adeus!
Palavra que faz chorar
Adeus! Adeus! Adeus!
Não há quem possa suportar

Adeus é bem triste, que não se resiste
Ninguém jamais com adeus pode viver em paz
(Foi o último…)

Adeus! Adeus! Adeus!
Palavra que faz chorar
Adeus! Adeus! Adeus!
Não há quem possa suportar

Prá que foste embora?
Por ti, tudo chora!
Sem teu amor, esta vida não tem mais valor
(Foi o último…)

Sobre Castro Barbosa – v. artigo “Pra ninguém zombar de mim”

ÚLTIMO DESEJO (Noel Rosa) 

Samba. Primeira gravação em 1937 com Aracy de Almeida

Nosso amor que eu não esqueço
E que teve o seu começo
Numa festa de São João
Morre hoje sem foguete
Sem retrato e sem bilhete
Sem luar, sem violão

Perto de você me calo
Tudo penso e nada falo
Tenho medo de chorar
Nunca mais quero o seu beijo
Pois meu último desejo
Você não pode negar

Se alguma pessoa amiga
Pedir que você lhe diga
Se você me quer ou não
Diga que você me adora
Que você lamenta e chora
A nossa separação

Às pessoas que eu detesto
Diga sempre que eu não presto
Que meu lar é o botequim
Que eu arruinei sua vida
Que eu não mereço a comida
Que você pagou prá mim

Meu lar é o botequim – equivocadamente muitos cantores registraram “que o meu lar é um botequim”.

Último desejo – Ceci ganhou este “presente”, semanas antes da morte de Noel Rosa. A música forma com outras duas citadas no texto, o que chamamos de “trilogia de dor e de coragem”. São canções de amor por Ceci: Eu sei sofrer (já apresentada no artigo “A arte da dor”), Prá que mentir? (que está no “A sua melhor mentira”) e esta Último desejo. Compostas nos meses finais da vida do poeta. Vale a pena ouvi-las também!

ATÉ AMANHÃ (Noel Rosa)

Samba. Primeira gravação em 1933 com João Petra de Barros (música de 1932)

Até amanhã se Deus quiser
Se não chover eu volto prá te ver
Oh, mulher!
De ti gosto mais que outra qualquer
Não vou por gosto
O destino é quem quer

Adeus é prá quem deixa a vida
É sempre na certa em que eu jogo
Três palavras vou gritar por despedida:
Até amanhã! Até já! Até logo!

Até amanhã se Deus quiser
Se não chover eu volto prá te ver
Oh, mulher!
De ti gosto mais que outra qualquer
Não vou por gosto
O destino é quem quer

O mundo é um samba em que eu danço
Sem nunca sair do meu trilho
Vou cantando o teu nome sem descanso
Pois do meu samba tu és o estribilho

Sobre João Petra de Barros – v. artigo “O samba mulato”.

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10 respostas para Último desejo

  1. Jodar de Castro Roberto disse:

    É de fundamental importância para a Cultura Brasileira,
    manter o nome de Noel Rosa iluminado e ilustrando nossos dias.
    Bela iniciativa e resultados!!!!!

    • toninhocamargos disse:

      Agradecemos Jodar. Noel merece toda a nossa atenção.

      Um grande abraço,

      Regina / Toninho / Luiz Henrique

  2. A Cada Materia que leio é uma emoção e com certeza vejo que estou no caminho certo ajudando a eternizar Noel Rosa e Vila Isabel o Bairro de nossas Paixões. Um Viva a Noel!!!

  3. JOSE SAULO BORGES disse:

    Só um gênio como Noel Rosa, permanece sempre atual. Ao contrário da mediocridade da música divulgada na mídia de hoje.

  4. Samarone Gonçalves disse:

    Sou estudante de produção cultural da FAAP. gostei muito do blog, estava fazendo uma pesquisa sobre a Era de Ouro do Rádio. abs

  5. Antonio Camargos disse:

    É bom saber que nosso trabalho está sendo útil. Se possível, divulgue-o.
    Noel é mesmo um grande mestre, contribuindo, e muito, para a história da MPB

    Gostaríamos de conhecer sua pesquisa.

    Boa sorte e um grande abraço.

    Luiz/Regina/Toninho

  6. Giu Fiori disse:

    Somos tres amigas q gostam de cantar,embora já estejamos quase com sessenta! É o nosso lado “B” q estamos realizando… Vamos realizar uma apresentação pequena, para os amigos, cantando Noel, Assis Valente e Nelson Cavalcante; não podemos deixar morer a lembrnça e a obra desses grandes compositores!

    • toninhocamargos disse:

      Sucesso prá vocês nesta empreitada! A música brasileira e nossos valores carecem de melhor divulgação.
      Regina / Luiz / Toninho

  7. Diêgo disse:

    Um grande gênio,de QI inigualável,Noel,foi um grande músico:na verdade uma grande poeira, da vida q lhe foi vivida…deichar do rastros de alegria,junto cm cartola e outros grandes gênios!!! morreu cedo pq n teve medo de viver.Viveu pra sua arte.Pena q poucos conhece a real história da boa música. ..

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