Para sempre, Noel!

Noel de Medeiros Rosa (Ilustração Luquefar)

Através de 20 pequenas crônicas temáticas, mostramos um pouco do significado da obra de Noel de Medeiros Rosa  para diversas gerações. O convívio com o poeta, com seu pensamento, com seu mundo, presente em sua música e sua criação. Mesmo nos deixando cedo, com 26 anos, em 1937, continua presente. É praticamente impossível desconhecê-lo nos nossos dias!

Será inverossímil algum crítico especializado em música no Brasil desprezá-lo. Ou considerá-lo antigo. Talvez nenhum se arriscaria… Noel continua atual e por isso vivo. A despeito das grandes gravadoras, grandes redes de rádio e televisão insistirem em desconsiderar o processo histórico e a memória nacional, Noel Rosa continua na “onda”, na boca de muita gente, sempre lembrado. E mais: continua surpreendendo, como antes.

Nestes quase 160 anos de evolução da música brasileira (obras já com identidade e sotaque nacionais) uma safra imensa de compositores se destacou. Os pioneiros nasceram talvez entre 1820 e 1850 e esta lista nunca mais deixou de se renovar. De lá para cá, quantos? Centenas. Nenhum deles tem hoje o merecido apreço da mídia, inclusive Noel Rosa. Apesar disso, o centenário de seu nascimento será muito lembrado e Noel receberá grandes homenagens. O porquê? É difícil explicá-lo.

As 100 músicas aqui retratadas, dentre suas mais de duas centenas, pretenderam, aos poucos, trazer de volta o poeta em nossa alma. Contaram-nos de filosofia e do seu tempo. De um mundo idealizado. De contradições. De paixões exacerbadas. De encantamentos. Da alegria e da tristeza. Choramos com ele. Sorrimos com ele. Noel: o poeta da Vila ou da vida? Vivemos Noel e nos revivemos. Com ele dentro de nós, guardamos sua estrela da manhã, que acende um horizonte repleto de amor. Ao Rosa uma rosa!

Próxima edição, domingo, 31 de outubro: NOEL E SEUS INTÉRPRETES

ROSA DO SAMBA – 1910 (Toninho Camargos)
- Para João Máximo e Carlos Didier

Samba – Gravação em 2010 com Romeu Cosenza e Nathan de Abreu (música de 2002)

A estrela d’alva no céu
Nesse planeta o povo faz um escarcéu
Por quem virá o cometa?
A silhueta do adeus
Será o nosso troféu?
Será a praga de um deus
A condenar filisteus
Com o final da burleta lançado sobre nós?
A luz de um porta-voz anunciando o senhor?
Quem sabe, então, do cometa virá um sonhador?

Vejam no céu o cometa
E quem nos vê lá do céu
Da sua calda, caceta!
Sentado um profeta anuncia o poeta revel
“Será do bem paladino
Esse franzino terá o samba como destino
Poeta traquino ao mundo virá!”
(A estrela)

A estrela d’alva no céu
Nasceu porreta o bamba de Vila Isabel
Por quem virá o poeta?
Sua ironia mordaz e seu humor mais cruel?
Será de tudo capaz
Feliz com tudo que faz
Ou nos dirá: “o poeta foi feito pra sofrer”?
Terá que, então, padecer
E carregar tanta dor?
Será a cruz do poeta sinal libertador?

Ao noelismo reverte
Todo e qualquer bom pagão
Quem reza aqui se converte
Diverte, enternece, divide o seu pão
Reza ao poeta que é prosa
Versa ao poeta bom Deus
Ao som do samba uma rosa
Ao Rosa do samba, a oferta dos teus

Romeu Cosenza (04/09/1959), de Paraguaçu, Minas Gerais. Subiu pela primeira vez aos palcos com 5 anos. Participou de vários corais, do Grupo Cênico Vocal da FEA-BH, da banda Holandez Voador e cantou na noite. Integrou o Quarteto Doce Descascado e fez o “Dom Ratão” do CD Dona Baratinha (Balé infantil do Grupo Corpo 2001).

Nathan de Abreu (01/09/1954), de Dom Cavati, Minas Gerais. Participou de grupos de música gospel na infância e adolescência. Teve passagem por corais de Belo Horizonte (Júlia Pardini, Universidade Newton Paiva e Sesiminas). Fez cover de Ney Matogrosso nos anos 90.

O cometa - Em maio de 1910 o cometa Halley nos visitou, como o faz religiosamente a cada 76 anos. Na época, passou próximo demais da Terra, assustando muitos que temiam um choque fatal, devastando o planeta. Foi um alvoroço em todo o planeta – é o que dizem. Naquele ano, em dezembro, nasceu Noel. Pois bem: esta analogia, meio profética, é uma grande sacada de João Máximo e Carlos Didier, no primeiro capítulo do livro “Noel Rosa – uma biografia”. O livro é uma fonte de inspiração!

Burleta - Tipo de comédia musical

Uma rosa para Noel – A gravação de “Rosa do Samba – 1910” (de Toninho Camargos) foi realizada em setembro/outubro de 2010 especialmente para este Blog. Toda a história foi tramada no Estúdio Giffoni, de Belo Horizonte, e contou com artistas tanto gentis quanto especiais. É a nossa homenagem – do Blog e de todos os que participaram da gravação – ao poeta da Vila.
Intérpretes: Romeu Cosenza e Nathan de Abreu
Arranjo: Flávio Fontenelle
Gravação, Mixagem e Masterização: Fabrício Galvani/Estúdio Giffoni
Violões (6 e 7 cordas): Flávio Fontenelle
Cavaquinho: Branco Moura
Sax soprano e pandeiro: Marco Antônio Brandão (Bigô)
Oboé: Hermínio de Almeida

De volta ao choro – Flavio, Branco, Bigô e Hermínio são alguns dos integrantes do Grupo Naquele Tempo, uma importantíssima experiência da música instrumental e do choro em Minas, nas décadas de 1970-1980, agora reorganizado. O Naquele Tempo acompanhou Cartola, Ivan Lins, MPB4, dentre outros grandes da MPB. Sejam bem vindos de novo!

Estúdio Giffoni – Para conhecer o Estúdio Giffoni, onde fizemos a gravação de “Rosa do Samba”, visite myspace.com/estudiogiffoni. Tem acústica bem projetada e com um diferencial: da sala de gravação, uma vista linda da capital mineira. Lá, gravando, a gente se sente em casa.

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2 respostas para Para sempre, Noel!

  1. Toninho, queria parabenizar pela matéria e a sua sensibilidade de falar do nosso Poeta a quem sou apaixonado, bem deixa eu me apresentar sou Adilson da Vila, Sou criador da Velha Guarda Musical de Vila Isabel uma Velha Guarda que tem o objetivo de Trabalhar o nome do Bairro de Vila Isabel e principalmente o meu idolo Noel Rosa e seus parceiros e suas materias me enriquecem de informação e com elas passo no meu Show que canto e conto a historia de Noel.Obrigado por me permitir compartilhar essa viagem musical com vc. Valeu!!!!um grande abraço Musical.

    • toninhocamargos disse:

      Adilson,
      Você não sabe a importância de suas carinhosas mensagens para este blog (neste e no outro post). Noel é um nome que sempre irá engrandecer a história do samba e que ainda ensina caminhos da música brasileira. Viva Noel! E viva a Velha Guarda Musical de Vila Isabel!
      Nosso abraço de Minas.
      Regina / Luiz / Toninho
      PS – Divulgue, se puder, este trabalho, por este belo Rio.

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