O faro de Chico Viola

SÉRIE: NOEL E SEUS INTÉRPRETES

Nosso blog abre uma nova frente de análise, mostrando Noel Rosa relacionado à obra de seus amigos, mais especificamente de seus amigos intérpretes. Os principais responsáveis por torná-lo conhecido do grande público, com a gravação de muitas de suas canções. São cantores e cantoras que vivenciaram o período da gravação elétrica – segunda grande evolução tecnológica após a invenção do disco, da possibilidade de registro de áudio. Um período de modernização da música no Brasil.

O FARO DE CHICO VIOLA

Francisco Alves, o "rei da voz" (Ilustração Luquefar)

Vinte e cinco anos depois do lançamento do primeiro disco comercial no país, naquele 1902, o brasileiro esbarra com a novidade da gravação feita com microfone e amplificador valvulado! Uma diferença magnífica na qualidade do som comparado ao processo de gravação mecânica, onde músicos se postam em círculo diante de um cone e o cantor se vê praticamente obrigado a esticar o nariz dentro dele. Somente intérpretes de voz possante ousam gravar.

Francisco Alves (o Chico Viola, como também é chamado) inicia a carreira ainda na fase primitiva da fonografia no Brasil. Em 1919 com 21 anos participa de três gravações pelo selo Popular, de músicas do mais popular ainda Sinhô: “O pé de anjo”, “Fala, meu louro” e “Alivia estes olhos”. Chega com a voz possante, indispensável aos cantores da época. Mas também com afinação precisa, timbre aveludado e presença mais natural, sem o modo operístico de interpretar, muito comum então.

E, não vamos esquecer, com um faro indiscutível para gravar sucessos! O que o eleva à categoria de “o rei da voz” e traz-lhe também a ambição. Nos anos 1930, já no tempo da gravação elétrica, está à frente do processo de profissionalização do músico, sendo um dos primeiros a conseguir juntar dinheiro com a profissão. Por vezes, exige parceria nas composições em troca da sua gravação e é atendido pelos compositores. Seus registros tornam-se, quase sempre, garantia de êxito.

Francisco Alves acompanha toda a carreira de Noel Rosa. Chega a gravar mais de 10% de sua obra (28 canções) e, sem dúvida, contribui muito para o reconhecimento do poeta de Vila Isabel. Impossível não ligar Noel e Chico Viola à evolução da música brasileira. Dois nomes de indiscutível qualidade artística. No auge de sua carreira e popularidade, em 1952, morre em acidente de carro na Via Dutra, deixando cerca de mil registros, imortalizando centenas de canções.

Próxima edição, domingo, 7 de novembro: O CANTO FALADO DE MÁRIO REIS
A série NOEL ROSA – 100 CANÇÕES PARA O CENTENÁRIO já se completou e você pode acompanhá-la nos artigos anteriores

Músicas relacionadas

RETIRO DA SAUDADE (Noel Rosa-Nássara)


Marcha – primeira gravação em 1934 com Francisco Alves e Carmem Miranda (78 rpm, selo Victor nº 33.827A)

Quando li o seu recado
Por ti assinado
Encontrei no seu cartão
Minha desilusão
Retirei saudosamente
Pra mostrar a essa gente
Que não tenho coração

Quando por amor suspiro
A saudade vem então
Encontrar o seu retiro
Encontrar o seu retiro
Dentro do meu coração

Dentro do seu coração
Não me diga que não
Só existe falsidade
É a pura verdade
Eu já fiz um trocadilho
Pra cantar com estribilho
No retiro da saudade

Quando por amor suspiro
A saudade vem então
Encontrar o seu retiro
Encontrar o seu retiro
Dentro do meu coração

Nássara – Antônio Gabriel Nássara (11/11/1910 – 11/12/1996) do Rio de Janeiro, RJ. Compositor e caricaturista. Passou a adolescência no mesmo bairro de Noel Rosa, convivendo com o saudável clima musical que por lá aflorava. Grande nome do carnaval carioca, Nássara tornou-se um dos principais compositores do gênero. É o autor da conhecidíssima “Alalaó”. “Retiro da saudade” é sua primeira parceria com o poeta da Vila. Mas além compositor, mostrou grande habilidade no desenho e como caricaturista, realizou trabalho precioso. Seu traço, inconfundível, influenciou desenhistas de várias gerações.

Francisco Alves foi citado também no artigo “Prá ninguém zombar de mim”

Sobre Carmem Miranda – v. artigo “Sem humor não tem graça”

NEM É BOM FALAR (Ismael Silva-Nilton Bastos-Francisco Alves)


Samba – primeira gravação em 1930 com Francisco Alves (78 rpm, selo Odeon nº 10745A)

Nem tudo que se diz se faz
Eu digo e serei capaz
De não resistir
Nem é bom falar
Se a orgia se acabar

Tu, falas muito, meu bem
E precisas deixar
Tu falas muito, meu bem
E precisas deixar
Senão eu acabo
Dando pra gritar na rua
Eu quero uma mulher bem nua

Nem tudo que se diz se faz
Eu digo e serei capaz
De não resistir
Nem é bom falar
Se a orgia se acabar

Mas esta vida
Não há quem me faça deixar
Mas esta vida
Não há quem me faça deixar
Por falares tanto
A polícia quer saber
Se eu dou meu dinheiro todo a você

Nem tudo que se diz se faz
Eu digo e serei capaz
De não resistir
Nem é bom falar
Se a orgia se acabar

Até que enfim
Eu agora estou descansado
Até que enfim
Eu agora estou descansado
Ela deu o fora
Foi morar lá na Favela
E eu não quero saber mais dela

Ismael Silva foi citado também nos artigos “Dona Maria, Seu João e outros”, “Tipos da Cidade” e “A evolução da raiz”

Nílton Bastos (12/7/1899 – 8/9/1931) do Rio de Janeiro, RJ. Compositor. Outro sambista contemporâneo de Noel Rosa que foi levado cedo pela tuberculose, aos 33 anos. Fez quase todos os seus sambas em parceria com Ismael.

Coro especial - Nesta gravação compõem o coro Ismael Silva e Noel Rosa. Os dois sempre grandes amigos e parceiros.

ADEUS ou CINCO LETRAS QUE CHORAM (Silvino Neto)


Samba-canção – primeira gravação em 1947 com Francisco Alves (78 rpm, selo Odeon nº 12.783-A Matriz 8189 – música de 1946)

Adeus, adeus, adeus
Cinco letras que choram
Num soluço de dor

Adeus, adeus, adeus
É como o fim de uma estrada
Cortando a encruzilhada
Ponto final de um romance de amor

Quem parte tem os olhos rasos d’água
Ao sentir a grande mágoa
Por se despedir de alguém
Quem fica, também fica chorando
Com o coração penando
Querendo partir também

Silvino Neto – Silvério Silvino Neto (21/7/1913 – 10/6/1991) de São Paulo – SP. Compositor, cantor e radialista. Atuou com o pseudônimo de Pablo Gonzales. Teve intensa participação em rádios de São Paulo e do Rio de Janeiro. Autor de dezenas de composições, possui com “Adeus” uma das mais conceituadas canções do repertório brasileiro.

Belíssima: Vale ressaltar a excelente orquestração do maestro Lyrio Panicali nesta gravação de Francisco Alves.

ISAURA (Herivelto Martins-Roberto Roberti)


Samba – primeira gravação em 1945 com Francisco Alves (78 rpm, selo Odeon nº 12.530)

Ai, ai, ai, Isaura
Hoje eu não posso ficar
Se eu cair nos seus braços
Não há despertador
Que me faça acordar
(Eu vou trabalhar)

O trabalho é um dever
Todos devem respeitar
Ó, Isaura, me desculpe
No domingo eu vou voltar
Seu carinho é muito bom
Ninguém pode contestar
Se você quiser, eu fico
Mas vai me prejudicar
(Eu vou trabalhar)

Herivelto Martins – Herivelto de Oliveira Martins (30/1/1912 – 17/9/1992) de  Engenheiro Paulo de Frontin, RJ. Cantor, compositor. Um dos grandes nomes da música popular brasileira, autor de sucessos lembrados até hoje. Foi tema de uma série exibida pela Rede Globo, que enfocava a vida de Dalva de Oliveira, sua esposa e também estrela da nossa música. Com as duas formações do Trio de Ouro registrou seus clássicos na MPB.

Roberto Roberti (9/8/1915) do Rio de Janeiro, RJ. Compositor. Teve grande destaque como compositor do carnaval carioca, com obra repleta de sucessos.

De volta o sucesso – Este samba carnavalesco foi regravado no famoso disco branco de João Gilberto em 1973, o que trouxe de volta o sucesso de Herivelto. Aliás, o João regravou outra grande marca de Chico Viola: “Bahia com H” de Denis Brean.

BOA NOITE, AMOR (José Maria de Abreu-Francisco Mattoso)


Valsa – primeira gravação em 1936 com Francisco Alves (78 rpm, selo Victor nº 34052)

Quando a noite descer
Insinuando
Um triste adeus
Olhando nos olhos teus
Hei de beijando
Teus dedos dizer:

Boa noite, amor
Meu grande amor
Contigo eu sonharei
E a minha dor
Esquecerei
Se eu souber que o sonho teu
Foi o mesmo sonho meu

Boa noite, amor
E sonha, enfim
Pensando sempre em mim
Na carícia de um beijo
Que ficou no desejo
Boa noite
Meu grande amor

Sobre José Maria de Abreu – v. artigo “A morada do samba”

Sobre Francisco Mattoso – v. artigo “Cronista da arte e da canção”

______________________

Nássara
-  Comemoraremos os 100 anos de nascimento de Nássara na próxima semana. Alguém ouviu falar no assunto? O Brasil precisa evoluir, como já está, também para acabar com este “silêncio” cultural inexplicável! Viva Nássara!

About these ads
Esse post foi publicado em Noel Rosa e marcado , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

2 respostas para O faro de Chico Viola

  1. Pedro Bianco Netto disse:

    Nesta data dos 100 anos de NOEL ROSA fica a pergunta…CADÊ A MEMÓRIA DA MPB das décadas de ouro…dos compositores e cantores de real talento de antanho…é necessário URGENTEMENTE RESSUCITAR,TIRAR DO TÚMULO como escreveu Ruy Castro na Folha,esta memória de ouro e trazer ao conhecimento desta geração o que era nossa MPB…Francisco Alves,Dalva de Oliveira,Orlando Silva,Silvio Caldas,Nelson Gonçalves,Dik Farney,Elyzeth Cardoso,Aracy de Almeida…e várias dezenas de compositores,Lamartine Babo,Antonio Maria,Dolores Duran,Custódio Mesquita,Ari Barroso,Braguinha,Silvino Netto,Herivelto Martins,David Nasser,Lupicinio Rodrigues,Agostinho dos Santos,e mais um millhão…de esquecidos…Se forem regravadas as músicas de outróra…sucesso absoluto,pois não existe absolutamente tempo nenhum que tira a beleza das composições de QUALIDADE,pois música de QUALIDADE é para SEMPRE…e se as gravadoras que só teem por prioridade o lucro,não sabem o filão que está sepultado alí…até que algum iluminado apareça,fica o nosso alérta…é realmente uma pena nossa falta de educação quase total,mas um dia “este pais”descobrirá que a grandesa só chega mesmo atravéz da educação de seu povo…e principalmente de seus governantes omissos neste sentido…valeu…

    • toninhocamargos disse:

      Você tem toda a razão. O Brasil ainda é um país de curta memória. Se falamos tanto em Noel hoje é provavelmente por um golpe de sorte. No final do post “O samba mulato” já comentávamos que, em 2010, analisando somente entres os parceiros de Noel, cinco deles estariam comemorando o centenário, sem que praticamente nada saísse sobre o episódio em lugar algum: Cristóvão de Alencar, Custódio Mesquita, Vadico, Luiz Barbosa e Renê Bittencourt. Mas já é um ganho que se comente sobre alguns poucos compositores. A comemoração em torno de Noel vai certamente colaborar para a correção desta triste realidade!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s