O canto falado de Mário Reis

SÉRIE: NOEL E SEUS INTÉRPRETES

A nova fase do Blog mostra Noel Rosa relacionado à obra de seus amigos, mais especificamente de seus amigos intérpretes. Os principais responsáveis por torná-lo conhecido do grande público, com a gravação de muitas de suas canções. A série original NOEL ROSA – 100 CANÇÕES PARA O CENTENÁRIO já se completou e você pode acompanhá-la integralmente clicando artigos anteriores a 31 de outubro de 2010.

O CANTO FALADO DE MÁRIO REIS

 

Mário Reis: doutor em samba (Ilustração Luquefar)

 

A década de 1930 é um período de ouro para a música brasileira na Capital Federal. Nela, um jeito novo de tocar o samba consolida o ritmo com autenticidade, “liberto” definitivamente do maxixe. A marcha ganha espaço como canção carnavalesca, com sotaque nacional, bem diverso dos dobrados militares. As novas tecnologias do rádio e do disco alargam as possibilidades tanto para artistas e produtores, quanto para o público consumidor. Inúmeras novidades afloram.

Um jovem filho de família de empresários está atento a este movimento. Em 1927, aos vinte anos de idade, estuda violão com seu ídolo da música: o compositor Sinhô, o “rei do samba” e é por ele convidado a experimentar o registro em fonogramas algumas de suas canções. Já é mais viável cantar no Brasil nesses tempos da gravação elétrica, e esse garoto não perde as oportunidades do convite do Sinhô e das novas condições técnicas, para se despontar no cenário musical.

Os intérpretes até então tinham que dominar o jeito “forte” do bel canto, da tradição interpretativa da ópera italiana, para que a voz pudesse ser registrada no disco. Agora, com o amplificador e microfone, não há essa necessidade… Porém, quase ninguém se dá conta disto. Não o aluno do Sinhô, que aparece para modernizar a forma do canto no país. Usa a voz com suavidade, sem afetações, sem prolongamentos de notas. Canta quase como se fala, e antecipa em três décadas João Gilberto.

Ao gosto do criador popular, em sintonia com o samba, chega este Mário Reis. Torna-se fã de Noel Rosa e um de seus cantores mais fidedignos. Poucos conseguem tamanha precisão para contar o que nos diz o poeta da Vila, lançando 24 de suas canções, seguindo de perto sua carreira. No mesmo ano da morte de Noel, no apogeu do reconhecimento público e sem muitas explicações, Mario Reis abandona a vida artística. Volta a gravar de forma esporádica. Deixou, entretanto, quase cem registros imprescindíveis à MPB.

Próxima edição, domingo, 14 de novembro: ARACY – A VOZ DO CORAÇÃO

Músicas relacionadas

MULATO BAMBA (Noel Rosa)

Samba – primeira gravação em 1932 com Mário Reis

Esse mulato forte é do Salgueiro
Passear no tintureiro é o seu esporte
Já nasceu com sorte e desde pirralho
Vive às custas do baralho
Nunca viu trabalho

E quando tira samba é novidade
Quer no morro ou na cidade
Ele sempre foi o bamba
As morenas do lugar
Vivem a se lamentar
Por saber que ele não quer
Se apaixonar por mulher

O mulato é de fato
E sabe fazer frente a qualquer valente
Mas não quer saber de fita
Nem com mulher bonita

Sei que ele anda agora aborrecido
Por que vive perseguido
Sempre, a toda hora
Ele vai-se embora
Para se livrar
Do feitiço e do azar
Das morenas de lá

Eu sei que o morro inteiro vai sentir
Quando o mulato partir
Dando adeus para o Salgueiro
As morenas vão chorar
Vão pedir prá ele voltar
E ele não diz com desdém:
– Quem tudo quer, nada tem!

Mário Reis foi também citado no artigo “Prá ninguém zombar de mim”

Tintureiro – o mesmo que camburão, carro de polícia que transporta presos.

CAPRICHO DE RAPAZ SOLTEIRO (Noel Rosa)

Samba – primeira gravação em 1933 com Mário Reis

Nunca mais esta mulher
Me vê trabalhando!
Quem vive sambando
Leva a vida para o lado que quer
De fome não se morre
Neste Rio de Janeiro
Ser malandro é um capricho
De rapaz solteiro

A mulher é um achado
Que nos perde e nos atrasa
Não há malandro casado
Pois malandro não se casa

Com a bossa que eu tiver
Orgulhoso vou gritando:
Nunca mais esta mulher
Nunca mais esta mulher
Me vê trabalhando

Nunca mais esta mulher
Me vê trabalhando!
Quem vive sambando
Leva a vida para o lado que quer
De fome não se morre
Neste Rio de Janeiro
Ser malandro é um capricho
De rapaz solteiro

Antes de descer ao fundo
Perguntei ao escafandro
Se o mar é mais profundo
Que as idéias do malandro

Vou, enquanto eu puder,
Meu capricho sustentando
Nunca mais esta mulher
Nunca mais esta mulher
Me vê trabalhando

Nunca mais esta mulher
Me vê trabalhando!
Quem vive sambando
Leva a vida para o lado que quer
De fome não se morre
Neste Rio de Janeiro
Ser malandro é um capricho
De rapaz solteiro

Escafandro – vestimenta do escafandrista (mergulhador). Noel utiliza a palavra referindo-se àquele que mergulha. Poetas como Noel, vez por outra, usam termos sofisticados assim… Em “Futuros amantes” Chico Buarque busca o mesmo e incomum vocábulo.

JURA (Sinhô)

Samba – primeira gravação em 1928 com Mário Reis

Jura, jura, jura
Pelo Senhor
Jura pela imagem
Da santa cruz do redentor
(Prá ter valor a tua…)

Jura, jura, jura
De coração
Para que um dia
Eu possa dar-te o amor
Sem mais pensar na ilusão

Daí, então
Dar-te eu irei
O beijo puro na catedral do amor
Dos sonhos meus
Bem junto aos teus
Para fugir das aflições da dor

Jura, jura, jura
Pelo Senhor
Jura pela imagem
Da santa cruz do redentor
(Prá ter valor a tua…)

Jura, jura, jura
De coração
Para que um dia
Eu possa dar-te o meu amor
Sem mais pensar na ilusão

Sinhô – José Barbosa da Silva (08/09/1888 – 04/08/1930) Rio de Janeiro-RJ. Compositor, pianista, violonista, cavaquinista e flautista. Intitulado o “rei do samba” foi responsável pelo elo entre a fase primitiva e a “Época de Ouro” – de Noel e Ismael – de consolidação do samba atual. “Jura” tornou-se o maior sucesso da carreira de Mário Reis, que deu à música uma interpretação intimista, revolucionária para a época; é um bom exemplo do samba “amaxixado” de Sinhô, estilo dominante no cenário musical do Rio de Janeiro dos anos 1920.

Ídolo de Noel Rosa – O livro “Noel Rosa, uma biografia” relata sobre o encontro de Noel, ainda no princípio de carreira, com seu maior ídolo na música, Sinhô. Acanhado, dirige-se até sua casa e fica espantado com a precária condição de vida. Naquela época, de fato, músicos não recebiam o valor merecido. Pergunta-lhe então sobre o piano, que não havia visto (Sinhô trabalhava na Casa Édson tocando piano para os clientes). E o artista estende sobre a mesa uma faixa, com o desenho das teclas, onde treinava a execução e, muitas vezes, compunha suas canções!

GOSTO QUE ME ENROSCO (Sinhô)

Samba – primeira gravação em 1928 com Mário Reis.

Não se deve amar sem ser amado
É melhor morrer crucificado
Deus nos livre das mulheres de hoje em dia!
Desprezam um homem só por causa da orgia

Gosto que me enrosco de ouvir dizer
Que a parte mais fraca é a mulher
Mas o homem com toda a fortaleza
Desce da nobreza e faz o que ela quer

Dizem que a mulher é parte fraca
Nisto é que eu não posso acreditar
Entre beijos e abraços e carinhos
O homem não tendo é bem capaz de roubar

Gosto que me enrosco de ouvir dizer
Que a parte mais fraca é a mulher
Mas o homem com toda a fortaleza
Desce da nobreza e faz o que ela quer

Instrumentista talentoso – nesta gravação histórica, com voz e violão, Mário Reis é acompanhado pelo próprio Sinhô, que demonstra habilidade com o instrumento. A composição foi classificada pelo compositor como samba, mas mantém as características de um autêntico maxixe.

“Rei dos meus sambas” – A melodia de “Gosto que me enrosco” foi reivindicada por Heitor dos Prazeres, como sendo sua, numa famosa polêmica com Sinhô (v. artigo “Cronosta da arte e da canção”).

AGORA É CINZA (Bide-Marçal)
Samba – primeira gravação em 1934 com Mário Reis

Você partiu
Saudades me deixou
Eu chorei
O nosso amor, foi uma chama
O sopro do passado desfaz
Agora é cinza
Tudo acabado e nada mais!

Você
Partiu de madrugada
E não me disse nada
Isto não se faz
Me deixou cheio de saudades
E paixão
Não me conformo
Com a sua ingratidão
(Chorei porque…)

Você partiu
Saudades me deixou
Eu chorei
O nosso amor, foi uma chama
O sopro do passado desfaz
Agora é cinza
Tudo acabado e nada mais!

Agora desfeito o nosso amor
Eu vou chorar de dor
Não posso esquecer
Vou viver distante dos teus olhos
Ó querida
Nem me deu
Um adeus, por despedida!

Bide Alcebíades Maia Barcelos (25/7/1902 – 18/3/1975), de Niterói, RJ. Compositor, percussionista. Residiu no bairro do Estácio, onde freqüentava rodas de samba e conheceu Ismael Silva, com quem fundou a “Deixa Falar”. Bide foi um dos muitos parceiros de Noel Rosa (v. artigo “O samba mulato”). Marçal – Armando Vieira Marçal (14/10/1902 – 20/6/1947) do Rio de Janeiro, RJ. Compositor e radialista. Trabalhou como lustrador de móveis, apesar das dezenas de sambas geniais que compôs, quase todos com o parceiro Bide. “Pela primeira vez” é outro bom exemplo. A dupla fez história!

Diabos do Céu – Pixinguinha teve atuação destacada também como arranjador e maestro em centenas de gravações. Formou o “Diabos do Céu”, que se reunia para gravar, acompanhando intérpretes, como nesta gravação. É que naquele tempo, sem a fita magnética, quando havia erro, perdia-se o trabalho. Um grupo de craques facilitava tudo.

O melhor samba – Em 1975, um júri de críticos foi convocado pelo produtor Marcus Pereira, da gravadora homônima, para escolher os mais representativos sambas compostos no Brasil. “Agora é cinza” ficou em primeiro lugar!

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5 respostas para O canto falado de Mário Reis

  1. Humberto disse:

    Cada vez que adentro a esses espaços maravilhosos que mantêm a memória de nossa extraordinária, única, ímpar música popular me vem emoções inexplicáveis. Esses homens geniais (mulheres também – Chiquinha, Pepa Delgado, Araci de Almeida, Carmen, etc…) nos faz viver, deleitar-se nesses engenhos da emoção que á a música. Amo a todos eles, que passaram pela vida às vezes de forma incoerente nas formas de viverem e encararem as mesmas, com seus excessos e paixões. Meu Deus, esse país precisa promover a verdadeira arte brasileira, recompletar o ciclo para se retroagir aos formatos do passado, a não renunciar aos padrões estéticos de hoje, mas a reincorporar um pouco, ou muito dos padrões do passado, que são indeléveis, consistentes, literários, retratos de um tempo. Viva Mário Reis, Noel Rosa, Lalá, Braguinha, Ismael, Sinhô, Donga, ALmirante e Cia.

    • toninhocamargos disse:

      Humberto

      São mesmo inúmeros craques que precisam reconhecimento! Na medida em que nosso Brasil evoluir, esperamos todos, poder corrigir esta grande injustiça. Seu depoimento nos emociona, somos gratos.
      Regina / Luiz / Toninho

  2. Sydnei Monteiro disse:

    Nota-se perfeitamente a voz do grande Francisco Alves sobressaindo-se no coro de “Capricho de Rapaz Solteiro”. Noel, Chico, Reis, Ismael, Carmem e Aurora costumavam viajar juntos para apresentações pelo Brasil afora, e mesmo pela Argentina, onde eram muito queridos. Que timaço! Pena que não tenhamos muitas imagens registradas desses “shows” (para não dizer que não temos quase nenhuma).

  3. Sidney Caló disse:

    Ouvi a música ” gosto q m enrosco ” hoje ( 25/ago/2012) na USP FM .. Programa O SAMBA PEDE PASSAGEM ” .. E fui na net buscar!! Achei este blog?!?!!… Enfim parabéns !!! Adoro
    Noel Rosa .. Acabei conhecendo + do Mário Reis!!! Abs

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