Marília Batista: com Noel no pensamento

SÉRIE: NOEL E SEUS INTÉRPRETES

A nova fase do Blog mostra Noel Rosa relacionado à obra de seus amigos, mais especificamente de seus amigos intérpretes. Os principais responsáveis por torná-lo conhecido do grande público, com a gravação de muitas de suas canções. A série original NOEL ROSA – 100 CANÇÕES PARA O CENTENÁRIO já se completou e você pode acompanhá-la integralmente clicando artigos anteriores a 31 de outubro de 2010.

MARÍLIA BATISTA: COM NOEL NO PENSAMENTO

Dueto Noel Rosa e Marília Batista (Ilustração Luquefar)

O nome Noel Rosa retoma seu caminho no início dos anos 1950. Depois de um período no ostracismo, o lançamento pela “Continental” de dois álbuns com seus sambas interpretados por Aracy de Almeida faz do poeta a novidade. Tanto é assim, que para a “Rádio”, gravadora que se apresenta ao mercado, é Noel a estrela de seu disco número um: o primeiro vinil da indústria fonográfica brasileira! Sambas de Noel na voz de Marília Batista, que também relança ali sua carreira de cantora.

A mesma Marília que, ainda com 14 anos de idade, teve a sorte de apresentar-se num salão de festas como amadora e assistir à exibição de Noel Rosa. Isto em 1932. Dois anos mais tarde, já atuando profissionalmente, vai se aproximar do compositor de Vila Isabel. Mais dois anos de convivência e estará formada uma nova dupla do samba carioca: Noel e Marília Batista. Serão seis sambas divinamente gravados, com muita graça e molejo e o devido reconhecimento público.

Com carreira promissora pela frente, Marília tem gênio diverso de sua concorrente direta na “disputa” como melhor intérprete de Noel, entre as queridas do poeta. Mais recatada que Aracy, é mais caseira. Continua gravando, mesmo depois da morte de Noel, com menor freqüência que sua rival e, anos mais tarde, abandona a carreira artística em nome do casamento. O convite da gravadora “Rádio” em 1952 e o lançamento do LP “Poeta da Vila” abrem-lhe boas oportunidades.

Em 1954 lança um segundo LP, incluindo nele mais duas de Noel (inclusive a inédita “Remorso”), além de canções de sua própria autoria, com o parceiro e irmão Henrique Batista. Em 1963 envolve-se com um projeto audacioso, mas mal executado do selo “Nilser”, registrando 80 músicas do poeta, em dois discos, com pout-pourris longos e arranjos lineares. Mantém-se, entretanto, ligada ao nome de Noel Rosa e dedicada à sua divulgação, com contribuição significativa nesta tarefa.

Próxima edição, domingo, 28 de novembro: NOEL POR NOEL

Músicas relacionadas

FEITIO DE ORAÇÃO (Noel Rosa-Vadico)


Samba. Em 1952 por Marília Batista (música de 1933. LP10”33⅓ rpm, selo Rádio 0001)

Quem acha vive se perdendo
Por isso agora eu vou me defendendo
Da dor tão cruel desta saudade
Que, por infelicidade
Meu pobre peito invade

O samba é um privilégio
Ninguém aprende samba no colégio
Sambar é chorar de alegria
É sorrir de nostalgia
Dentro da melodia

Por isso agora lá na Penha
Vou mandar o meu moreno
Pra cantar com satisfação
E com harmonia
Esta triste melodia
Que é meu samba em feito de oração

O samba na realidade não vem do morro
Nem lá da cidade
E quem suportar uma paixão
Sentirá que o samba então
Nasce do coração.

“Poeta da Vila – sambas de Noel Rosa” – LP da gravadora “Rádio” que inaugurou um novo tempo da fonografia brasileira com o disco de vinil. Marília Batista é a intérprete das canções de Noel, bem arranjadas para orquestra por Aldo Taranto.

Marília Batista e Vadico foram também citados no artigo “Eu ando sem l’argente toujours

Dueto Noel e Marília – Você acompanha a dupla em artigos anteriores do blog nas gravações: De bababo e Cem mil-réis (“Eu ando sem l’argente toujours”); Quem ri melhor (“A arte da dor”); Provei (“Amor tom de cinza”); Quantos beijos (“O fado dos mestres”); Silêncio de um minuto (“A saudade não tem cor”); e Você vai se quiser (“Foi negócio, foi divertimento”). Marília canta “Tipo zero” no artigo “Tipos da cidade”.

REMORSO (Noel Rosa)


Samba-canção. Primeira gravação em 1954 por Marília Batista (música de 1934. 33⅓ rpm, selo Musidisc HiFi 2060)

Remorso todos nós temos na vida
Para marcar a quadra dolorida
Que não se pode olvidar
Remorso muitas vezes é saudade
Da felicidade que não se soube aproveitar
Remorso é acompanhar o enterro
De um grande erro
Que não se pode consertar

Remorso é sonhar acordado
É sentir no presente o passado
É ver nas trevas um vulto
Que ameaça descobrir
O segredo mais oculto

Remorso é aquilo que tu sentes
Perto de alguém na hora em que tu mentes
Com sutilizas sem fim
Remorso é veneno em poesia
E eu hoje em dia
Vivo com ódio até de mim
Eu sofro com pena do teu remorso
E muito me esforço
Prá não ter tanta pena assim

“Marília Batista, sua personalidade… sua bossa…” – LP de 1954, o segundo da carreira da cantora, com esta inédita de Noel e a próxima canção do post, dedicada à Vila Isabel. Produzido e gravado por Nilo Sérgio.

VILA DOS MEUS AMORES (Marília Batista-Henrique Batista)


Samba. Primeira gravação em 1954 por Marília Batista (LP 10” 33⅓ rpm, selo Musidisc HiFi 2060)

Vila Isabel
Terra que parece um céu
Onde todo o sofrimento
É transformado em samba
Vila dos meus amores
Onde a teca finda flores
De vários matizes e de todas as cores
Dos bairros desta cidade
És e serás o primeiro
Vila, capital do Rio de Janeiro

Lá toda e qualquer tristeza
Foge com toda presteza
Ouvindo um samba cantado
Por um namorado
Lá há carícia no olhar
Há samba no coração
De cada desengano nasce
Uma nova ilusão
Lá há carícia no olhar
Há samba no coração
De cada desengano nasce
Uma nova ilusão

Henrique Batista (28/09/1908) – Do Rio de Janeiro, RJ. Compositor. Feitas sempre em parceria com a irmã Marília Batista, suas composições foram gravadas desde 1932. Mais recentemente viu seu samba “Moreira na Ópera” registrado por Jards Macalé. Tem cerca de 20 canções gravadas por grandes intérpretes brasileiros.

VERDADE DUVIDOSA (Noel Rosa)


Pout-pourri de sambas – Em 1963 com Marília Batista (33⅓ rpm, selo Nilser nº NS1011 vol. 02, faixa 4)

Deus vê tudo e tudo sabe
Mas não sabe calcular
A hipocrisia que cabe
Dentro deste teu olhar
Nem com meu ciúme nego
Tens razão, estou convencida
Pois tu também vives cego
Às mentiras desta vida

Sofreste por mim cantando
Zombaste de mim chorando
Apenas pra me enganar
Mas vou perguntar aos sábios
Se a mentira nos teus lábios
É verdade em teu olhar

Eu te fito humildemente
Mas meus lábios te censuram
Porque teu olhar desmente
O que os meus lábios juram
Eu por ti sou enganada
Por gostar de me enganar
Por querer ser contemplada

PARA ATENDER A PEDIDO (Noel Rosa)

Para atender a pedido
Tudo o que eu tenho sofrido
Eu preciso esquecer
Pois é preciso esquecer
Pra poder te perdoar
Antes de te visitar

Deves te acostumar
A fazer o que eu mandar
E a me respeitar
Fica estabelecido
Que não mentes nunca mais
Para atender a pedido

Para atender a pedido
Tudo o que eu tenho sofrido
Eu preciso esquecer
Pois é preciso esquecer
Pra poder te perdoar
Antes de te visitar

Antes de esquecer
O teu triste proceder
Que me fez padecer
Eu já tinha me convencido
Que havia de voltar
Para atender a pedido

MEU BARRACÃO (Noel Rosa)

Faz hoje quase um ano
Que eu não vou visitar
Meu barracão lá da Penha
Que me faz sofrer
E até mesmo chorar
Por lembrar a alegria
Com que eu sentia
Um forte laço de amor
Que nos unia

Não há quem tenha
Mais saudades lá da Penha
Do que eu, juro que não
Não há quem possa
Me fazer perder a bossa
Só saudade do barracão

Mas veio lá da Penha
Hoje uma pessoa
Que trouxe uma notícia
Do meu barracão
Que não foi nada boa
Já cansado de esperar
Saiu do lugar
Eu desconfio que ele
Foi me procurar

Não há quem tenha
Mais saudades lá da Penha
Do que eu, juro que não
Não há quem possa
Me fazer perder a bossa
Só saudade do barracão

CARA OU COROA (Noel Rosa-Francisco Matoso)

Vai pra casa depressa
Vai prevenir teu senhor
Que vou cumprir a promessa
Que fiz de possuir teu amor

Não quero ser um covarde
Volta depressa pro teu barracão
Antes que seja bem tarde
Para salvar a tua situação

Quando a mulher desequilibra
Dois malandros que têm fibra
Só há uma solução:
Pra que brigar à-toa?
Basta tirar cara ou coroa
Com um níquel de tostão

Se não basta tirar a sorte
Se o amor falar mais forte
Sou o dono da questão
E ao teu antigo dono
Tu vais dar teu abandono
Dando a mim teu coração

MENTIR (Noel Rosa)

Mentir, mentir
Somente para esconder
A mágoa que ninguém deve saber
Mentir, mentir
Em vez de demonstrar
A nossa dor num gesto ou num olhar

Saber mentir é prova de nobreza
Pra não ferir alguém com a franqueza
Mentira não é crime
É bem sublime o que se diz
Mentindo para fazer alguém feliz

É com a mentira que a gente se sente mais contente
Por não pensar na verdade
O próprio mundo nos mente, ensina a mentir
Chorando ou rindo, sem ter vontade

E se não fosse a mentira, ninguém mais viveria
Por não poder ser feliz
E os homens contra as mulheres na terra
Então viveriam em guerra
Pois no campo do amor
A mulher que não mente não tem valor

“História musical de Noel Rosa por Marília Batista” – Álbum duplo da “Nilser”, de 1963, reunindo 80 das 138 músicas de Noel Rosa até então catalogadas por Jacy Pacheco. Os arranjos, apesar de assinados por Guerra Peixe, grande nome de nossa música erudita, pecam por excessiva linearidade.

Sobre Francisco Mattoso – v. artigo “Cronista da arte e da canção”.

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8 respostas para Marília Batista: com Noel no pensamento

  1. Odette de Almeida Bordadagua disse:

    Muito bom! Gosto muito!

  2. fabiogabrieel disse:

    O Brasil ou uma boa parte dele, esta aqui, parabéns por tentar manter vivo o mome e as obras deste verdadeiro e mais expressivo compositor da nossa musica popular, Noel Rosa.

  3. Valéria Batista dos santos. disse:

    Parabéns pelo foco dado a essa extraordinária artista, Marília Baptista, injustamente esquecida. Gostaria de entender melhor o comentário que fala, ao se referir à música “Moreira na Ópera” mais recentemente, soube que foi registrado por Jards Macalé. O que significaria esse termo “registrado” ?

    • toninhocamargos disse:

      Obrigado, Valéria. Visite outros posts de nosso blog e ajude divulgá-lo. O termo “registrado” no caso aplica-se justamente como: gravado em disco.

      • Valéria Batista dos santos. disse:

        Caro Toninho, apenas uma ressalva: Na letra de Vila dos meus amores (de Marília e Henrique Baptista), o correto é “Vila dos meus amores, onde até capim dá flores”… e não como está escrito: “Vila dos meus amores, onde a teca finda flores {?),,, Abraços

  4. ALDO MIKAELLI disse:

    TONINHO, ESTOU NO AR AOS DOMINOGS DAS 8 AS 10 HRS PELA RADIO CENTRAL DO PARANA DE PONTA GROSSA COM O ALMA BRASILEIRA E O MELHOR DA VELHA GUARDA. BASTA ACESSAR http://WWW.CENTRALDOPARANA.COM.BR-PARABENS PELO SITE.

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