O faro de Chico Viola

SÉRIE: NOEL E SEUS INTÉRPRETES

Nosso blog abre uma nova frente de análise, mostrando Noel Rosa relacionado à obra de seus amigos, mais especificamente de seus amigos intérpretes. Os principais responsáveis por torná-lo conhecido do grande público, com a gravação de muitas de suas canções. São cantores e cantoras que vivenciaram o período da gravação elétrica – segunda grande evolução tecnológica após a invenção do disco, da possibilidade de registro de áudio. Um período de modernização da música no Brasil.

O FARO DE CHICO VIOLA

Francisco Alves, o "rei da voz" (Ilustração Luquefar)

Vinte e cinco anos depois do lançamento do primeiro disco comercial no país, naquele 1902, o brasileiro esbarra com a novidade da gravação feita com microfone e amplificador valvulado! Uma diferença magnífica na qualidade do som comparado ao processo de gravação mecânica, onde músicos se postam em círculo diante de um cone e o cantor se vê praticamente obrigado a esticar o nariz dentro dele. Somente intérpretes de voz possante ousam gravar.

Francisco Alves (o Chico Viola, como também é chamado) inicia a carreira ainda na fase primitiva da fonografia no Brasil. Em 1919 com 21 anos participa de três gravações pelo selo Popular, de músicas do mais popular ainda Sinhô: “O pé de anjo”, “Fala, meu louro” e “Alivia estes olhos”. Chega com a voz possante, indispensável aos cantores da época. Mas também com afinação precisa, timbre aveludado e presença mais natural, sem o modo operístico de interpretar, muito comum então.

E, não vamos esquecer, com um faro indiscutível para gravar sucessos! O que o eleva à categoria de “o rei da voz” e traz-lhe também a ambição. Nos anos 1930, já no tempo da gravação elétrica, está à frente do processo de profissionalização do músico, sendo um dos primeiros a conseguir juntar dinheiro com a profissão. Por vezes, exige parceria nas composições em troca da sua gravação e é atendido pelos compositores. Seus registros tornam-se, quase sempre, garantia de êxito.

Francisco Alves acompanha toda a carreira de Noel Rosa. Chega a gravar mais de 10% de sua obra (28 canções) e, sem dúvida, contribui muito para o reconhecimento do poeta de Vila Isabel. Impossível não ligar Noel e Chico Viola à evolução da música brasileira. Dois nomes de indiscutível qualidade artística. No auge de sua carreira e popularidade, em 1952, morre em acidente de carro na Via Dutra, deixando cerca de mil registros, imortalizando centenas de canções.

Próxima edição, domingo, 7 de novembro: O CANTO FALADO DE MÁRIO REIS
A série NOEL ROSA – 100 CANÇÕES PARA O CENTENÁRIO já se completou e você pode acompanhá-la nos artigos anteriores

Músicas relacionadas

RETIRO DA SAUDADE (Noel Rosa-Nássara)

Marcha – primeira gravação em 1934 com Francisco Alves e Carmem Miranda (78 rpm, selo Victor nº 33.827A)

Quando li o seu recado
Por ti assinado
Encontrei no seu cartão
Minha desilusão
Retirei saudosamente
Pra mostrar a essa gente
Que não tenho coração

Quando por amor suspiro
A saudade vem então
Encontrar o seu retiro
Encontrar o seu retiro
Dentro do meu coração

Dentro do seu coração
Não me diga que não
Só existe falsidade
É a pura verdade
Eu já fiz um trocadilho
Pra cantar com estribilho
No retiro da saudade

Quando por amor suspiro
A saudade vem então
Encontrar o seu retiro
Encontrar o seu retiro
Dentro do meu coração

Nássara – Antônio Gabriel Nássara (11/11/1910 – 11/12/1996) do Rio de Janeiro, RJ. Compositor e caricaturista. Passou a adolescência no mesmo bairro de Noel Rosa, convivendo com o saudável clima musical que por lá aflorava. Grande nome do carnaval carioca, Nássara tornou-se um dos principais compositores do gênero. É o autor da conhecidíssima “Alalaó”. “Retiro da saudade” é sua primeira parceria com o poeta da Vila. Mas além compositor, mostrou grande habilidade no desenho e como caricaturista, realizou trabalho precioso. Seu traço, inconfundível, influenciou desenhistas de várias gerações.

Francisco Alves foi citado também no artigo “Prá ninguém zombar de mim”

Sobre Carmem Miranda – v. artigo “Sem humor não tem graça”

NEM É BOM FALAR (Ismael Silva-Nilton Bastos-Francisco Alves)

Samba – primeira gravação em 1930 com Francisco Alves (78 rpm, selo Odeon nº 10745A)

Nem tudo que se diz se faz
Eu digo e serei capaz
De não resistir
Nem é bom falar
Se a orgia se acabar

Tu, falas muito, meu bem
E precisas deixar
Tu falas muito, meu bem
E precisas deixar
Senão eu acabo
Dando pra gritar na rua
Eu quero uma mulher bem nua

Nem tudo que se diz se faz
Eu digo e serei capaz
De não resistir
Nem é bom falar
Se a orgia se acabar

Mas esta vida
Não há quem me faça deixar
Mas esta vida
Não há quem me faça deixar
Por falares tanto
A polícia quer saber
Se eu dou meu dinheiro todo a você

Nem tudo que se diz se faz
Eu digo e serei capaz
De não resistir
Nem é bom falar
Se a orgia se acabar

Até que enfim
Eu agora estou descansado
Até que enfim
Eu agora estou descansado
Ela deu o fora
Foi morar lá na Favela
E eu não quero saber mais dela

Ismael Silva foi citado também nos artigos “Dona Maria, Seu João e outros”, “Tipos da Cidade” e “A evolução da raiz”

Nílton Bastos (12/7/1899 – 8/9/1931) do Rio de Janeiro, RJ. Compositor. Outro sambista contemporâneo de Noel Rosa que foi levado cedo pela tuberculose, aos 33 anos. Fez quase todos os seus sambas em parceria com Ismael.

Coro especial – Nesta gravação compõem o coro Ismael Silva e Noel Rosa. Os dois sempre grandes amigos e parceiros.

ADEUS ou CINCO LETRAS QUE CHORAM (Silvino Neto)

Samba-canção – primeira gravação em 1947 com Francisco Alves (78 rpm, selo Odeon nº 12.783-A Matriz 8189 – música de 1946)

Adeus, adeus, adeus
Cinco letras que choram
Num soluço de dor

Adeus, adeus, adeus
É como o fim de uma estrada
Cortando a encruzilhada
Ponto final de um romance de amor

Quem parte tem os olhos rasos d’água
Ao sentir a grande mágoa
Por se despedir de alguém
Quem fica, também fica chorando
Com o coração penando
Querendo partir também

Silvino Neto – Silvério Silvino Neto (21/7/1913 – 10/6/1991) de São Paulo – SP. Compositor, cantor e radialista. Atuou com o pseudônimo de Pablo Gonzales. Teve intensa participação em rádios de São Paulo e do Rio de Janeiro. Autor de dezenas de composições, possui com “Adeus” uma das mais conceituadas canções do repertório brasileiro.

Belíssima: Vale ressaltar a excelente orquestração do maestro Lyrio Panicali nesta gravação de Francisco Alves.

ISAURA (Herivelto Martins-Roberto Roberti)

Samba – primeira gravação em 1945 com Francisco Alves (78 rpm, selo Odeon nº 12.530)

Ai, ai, ai, Isaura
Hoje eu não posso ficar
Se eu cair nos seus braços
Não há despertador
Que me faça acordar
(Eu vou trabalhar)

O trabalho é um dever
Todos devem respeitar
Ó, Isaura, me desculpe
No domingo eu vou voltar
Seu carinho é muito bom
Ninguém pode contestar
Se você quiser, eu fico
Mas vai me prejudicar
(Eu vou trabalhar)

Herivelto Martins – Herivelto de Oliveira Martins (30/1/1912 – 17/9/1992) de  Engenheiro Paulo de Frontin, RJ. Cantor, compositor. Um dos grandes nomes da música popular brasileira, autor de sucessos lembrados até hoje. Foi tema de uma série exibida pela Rede Globo, que enfocava a vida de Dalva de Oliveira, sua esposa e também estrela da nossa música. Com as duas formações do Trio de Ouro registrou seus clássicos na MPB.

Roberto Roberti (9/8/1915) do Rio de Janeiro, RJ. Compositor. Teve grande destaque como compositor do carnaval carioca, com obra repleta de sucessos.

De volta o sucesso – Este samba carnavalesco foi regravado no famoso disco branco de João Gilberto em 1973, o que trouxe de volta o sucesso de Herivelto. Aliás, o João regravou outra grande marca de Chico Viola: “Bahia com H” de Denis Brean.

BOA NOITE, AMOR (José Maria de Abreu-Francisco Mattoso)

Valsa – primeira gravação em 1936 com Francisco Alves (78 rpm, selo Victor nº 34052)

Quando a noite descer
Insinuando
Um triste adeus
Olhando nos olhos teus
Hei de beijando
Teus dedos dizer:

Boa noite, amor
Meu grande amor
Contigo eu sonharei
E a minha dor
Esquecerei
Se eu souber que o sonho teu
Foi o mesmo sonho meu

Boa noite, amor
E sonha, enfim
Pensando sempre em mim
Na carícia de um beijo
Que ficou no desejo
Boa noite
Meu grande amor

Sobre José Maria de Abreu – v. artigo “A morada do samba”

Sobre Francisco Mattoso – v. artigo “Cronista da arte e da canção”

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Nássara
–  Comemoraremos os 100 anos de nascimento de Nássara na próxima semana. Alguém ouviu falar no assunto? O Brasil precisa evoluir, como já está, também para acabar com este “silêncio” cultural inexplicável! Viva Nássara!

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Para sempre, Noel!

Noel de Medeiros Rosa (Ilustração Luquefar)

Através de 20 pequenas crônicas temáticas, mostramos um pouco do significado da obra de Noel de Medeiros Rosa  para diversas gerações. O convívio com o poeta, com seu pensamento, com seu mundo, presente em sua música e sua criação. Mesmo nos deixando cedo, com 26 anos, em 1937, continua presente. É praticamente impossível desconhecê-lo nos nossos dias!

Será inverossímil algum crítico especializado em música no Brasil desprezá-lo. Ou considerá-lo antigo. Talvez nenhum se arriscaria… Noel continua atual e por isso vivo. A despeito das grandes gravadoras, grandes redes de rádio e televisão insistirem em desconsiderar o processo histórico e a memória nacional, Noel Rosa continua na “onda”, na boca de muita gente, sempre lembrado. E mais: continua surpreendendo, como antes.

Nestes quase 160 anos de evolução da música brasileira (obras já com identidade e sotaque nacionais) uma safra imensa de compositores se destacou. Os pioneiros nasceram talvez entre 1820 e 1850 e esta lista nunca mais deixou de se renovar. De lá para cá, quantos? Centenas. Nenhum deles tem hoje o merecido apreço da mídia, inclusive Noel Rosa. Apesar disso, o centenário de seu nascimento será muito lembrado e Noel receberá grandes homenagens. O porquê? É difícil explicá-lo.

As 100 músicas aqui retratadas, dentre suas mais de duas centenas, pretenderam, aos poucos, trazer de volta o poeta em nossa alma. Contaram-nos de filosofia e do seu tempo. De um mundo idealizado. De contradições. De paixões exacerbadas. De encantamentos. Da alegria e da tristeza. Choramos com ele. Sorrimos com ele. Noel: o poeta da Vila ou da vida? Vivemos Noel e nos revivemos. Com ele dentro de nós, guardamos sua estrela da manhã, que acende um horizonte repleto de amor. Ao Rosa uma rosa!

Próxima edição, domingo, 31 de outubro: NOEL E SEUS INTÉRPRETES

ROSA DO SAMBA – 1910 (Toninho Camargos)
– Para João Máximo e Carlos Didier

Samba – Gravação em 2010 com Romeu Cosenza e Nathan de Abreu (música de 2002)

A estrela d’alva no céu
Nesse planeta o povo faz um escarcéu
Por quem virá o cometa?
A silhueta do adeus
Será o nosso troféu?
Será a praga de um deus
A condenar filisteus
Com o final da burleta lançado sobre nós?
A luz de um porta-voz anunciando o senhor?
Quem sabe, então, do cometa virá um sonhador?

Vejam no céu o cometa
E quem nos vê lá do céu
Da sua calda, caceta!
Sentado um profeta anuncia o poeta revel
“Será do bem paladino
Esse franzino terá o samba como destino
Poeta traquino ao mundo virá!”
(A estrela)

A estrela d’alva no céu
Nasceu porreta o bamba de Vila Isabel
Por quem virá o poeta?
Sua ironia mordaz e seu humor mais cruel?
Será de tudo capaz
Feliz com tudo que faz
Ou nos dirá: “o poeta foi feito pra sofrer”?
Terá que, então, padecer
E carregar tanta dor?
Será a cruz do poeta sinal libertador?

Ao noelismo reverte
Todo e qualquer bom pagão
Quem reza aqui se converte
Diverte, enternece, divide o seu pão
Reza ao poeta que é prosa
Versa ao poeta bom Deus
Ao som do samba uma rosa
Ao Rosa do samba, a oferta dos teus

Romeu Cosenza (04/09/1959), de Paraguaçu, Minas Gerais. Subiu pela primeira vez aos palcos com 5 anos. Participou de vários corais, do Grupo Cênico Vocal da FEA-BH, da banda Holandez Voador e cantou na noite. Integrou o Quarteto Doce Descascado e fez o “Dom Ratão” do CD Dona Baratinha (Balé infantil do Grupo Corpo 2001).

Nathan de Abreu (01/09/1954), de Dom Cavati, Minas Gerais. Participou de grupos de música gospel na infância e adolescência. Teve passagem por corais de Belo Horizonte (Júlia Pardini, Universidade Newton Paiva e Sesiminas). Fez cover de Ney Matogrosso nos anos 90.

O cometa – Em maio de 1910 o cometa Halley nos visitou, como o faz religiosamente a cada 76 anos. Na época, passou próximo demais da Terra, assustando muitos que temiam um choque fatal, devastando o planeta. Foi um alvoroço em todo o planeta – é o que dizem. Naquele ano, em dezembro, nasceu Noel. Pois bem: esta analogia, meio profética, é uma grande sacada de João Máximo e Carlos Didier, no primeiro capítulo do livro “Noel Rosa – uma biografia”. O livro é uma fonte de inspiração!

Burleta – Tipo de comédia musical

Uma rosa para Noel – A gravação de “Rosa do Samba – 1910” (de Toninho Camargos) foi realizada em setembro/outubro de 2010 especialmente para este Blog. Toda a história foi tramada no Estúdio Giffoni, de Belo Horizonte, e contou com artistas tanto gentis quanto especiais. É a nossa homenagem – do Blog e de todos os que participaram da gravação – ao poeta da Vila.
Intérpretes: Romeu Cosenza e Nathan de Abreu
Arranjo: Flávio Fontenelle
Gravação, Mixagem e Masterização: Fabrício Galvani/Estúdio Giffoni
Violões (6 e 7 cordas): Flávio Fontenelle
Cavaquinho: Branco Moura
Sax soprano e pandeiro: Marco Antônio Brandão (Bigô)
Oboé: Hermínio de Almeida

De volta ao choro – Flavio, Branco, Bigô e Hermínio são alguns dos integrantes do Grupo Naquele Tempo, uma importantíssima experiência da música instrumental e do choro em Minas, nas décadas de 1970-1980, agora reorganizado. O Naquele Tempo acompanhou Cartola, Ivan Lins, MPB4, dentre outros grandes da MPB. Sejam bem vindos de novo!

Estúdio Giffoni – Para conhecer o Estúdio Giffoni, onde fizemos a gravação de “Rosa do Samba”, visite myspace.com/estudiogiffoni. Tem acústica bem projetada e com um diferencial: da sala de gravação, uma vista linda da capital mineira. Lá, gravando, a gente se sente em casa.

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Último desejo

“Ninguém pode evitar de se apaixonar por alguém”

 

Noel Rosa: último desejo (Ilustração Luquefar)

 

Aos condenados dá-se o direito ao último desejo. Noel conhece a gravidade de seu estado de saúde e sabe que não lhe resta mais muito tempo. Todas as tentativas de repouso para recuperação em cidades e abrigos de clima ameno, procuradas por orientação médica, são seguidas e mostram-se ineficientes, mas ainda encontra forças para compor, mesmo que já não a tenha para cantar. Agora está magro, muito magro e sente fraqueza geral. Passa em casa seus últimos momentos.

Três de seus melhores sambas são compostos no ano de sua morte: “Eu sei sofrer”, “Prá que mentir” (com música de Vadico) e “Último Desejo”. São obras irretocáveis, de grande beleza estética e vivacidade; recados cruéis e diretos a quem tanto ama. Formam uma mágica trilogia de dor e de coragem. Encerram em si a mais bela pintura psicológica de um ser em luta para exercer dignamente seu direito de vida no tempo que ainda lhe restar. Às 16:30 horas do dia 4 de maio de 1937, dá-se por vencido.

Seu último desejo será mensagem particular e silenciosa, que Ceci levará consigo pela vida.  Em “Fita Amarela”, quando se refere à morte pela primeira vez , utiliza-a como mera força de expressão literária. Já em “Pela décima vez” a tuberculose lhe atormenta e o amor lhe parece um veneno fatal. Aparece o medo. Noel Rosa enfrenta a terrível ameaça com suas armas afiadas: ironia e sarcasmo.

O mestre do samba, do amor, da paixão, também grande na graça, torna-se agora o poeta da morte. Ri de si mesmo para mostrar ao mundo sua nobreza e poder. A força da intuição e criatividade, na fascinante profissão de juntar notas e palavras para transformar sonhos em realidade, e a transfigurá-la em sonho novamente. A arte de fazer chorar e rir, rir e chorar; viver e morrer, morrer e viver em ciclo infinito. A Noel permanentemente vivo, nossa homenagem no seu centenário.

Na próxima edição, domingo, 24 de outubro: PARA SEMPRE, NOEL!

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FITA AMARELA (Noel Rosa)

Samba. Primeira gravação em 1933 com Francisco Alves e Mário Reis (música de 1932)

Quando eu morrer, não quero choro nem vela
Quero uma fita amarela gravada com o nome dela

Se existe alma, se há outra encarnação
Eu queria que a mulata sapateasse no meu caixão

Quando eu morrer, não quero choro nem vela
Quero uma fita amarela gravada com o nome dela

Não quero flores nem coroa com espinho
Só quero choro de flauta, violão e cavaquinho

Quando eu morrer, não quero choro nem vela
Quero uma fita amarela gravada com o nome dela

Estou contente, consolado por saber
Que as morenas tão formosas a terra um dia vai comer.

Quando eu morrer, não quero choro nem vela
Quero uma fita amarela gravada com o nome dela

Não tenho herdeiros, não possuo um só vintém
Eu vivi devendo a todos mas não paguei a ninguém

Quando eu morrer, não quero choro nem vela
Quero uma fita amarela gravada com o nome dela

Meus inimigos que hoje falam mal de mim
Vão dizer que nunca viram uma pessoa tão boa assim.

Sobre Francisco Alves – v. artigo “Prá ninguém zombar de mim”.

Sobre Mário Reis – v. artigo “Prá ninguém zombar de mim”

Versos completos – apresentamos também versos não registrados na primeira gravação da música.

PELA DÉCIMA VEZ (Noel Rosa)

Samba. Primeira gravação em 1947 com Aracy de Almeida (música de 1935)

Jurei não mais amar pela décima vez
Jurei não perdoar o que ela me fez
O costume é a força que fala mais forte do que a natureza
E nos faz dar provas de fraqueza

Joguei meu cigarro no chão e pisei
Sem mais nenhum aquele mesmo apanhei e fumei
Através da fumaça neguei minha raça chorando, a repetir:
Ela é o veneno que eu escolhi para morrer sem sentir

Senti que o meu coração quis parar
Quando voltei e escutei a vizinha falar
Que ela só de pirraça seguiu com um praça ficando lá no xadrez
Pela décima vez ela está inocente nem sabe o que fez

Sobre Aracy de Almeida – v. artigo “Era a lua que tudo assistia”.

ADEUS (Noel Rosa-Ismael Silva)

Samba. Primeira gravação em 1932 com Francisco Alves e Castro Barbosa (música de 1931)

Adeus! Adeus! Adeus!
Palavra que faz chorar
Adeus! Adeus! Adeus!
Não há quem possa suportar

Adeus é bem triste, que não se resiste
Ninguém jamais com adeus pode viver em paz
(Foi o último…)

Adeus! Adeus! Adeus!
Palavra que faz chorar
Adeus! Adeus! Adeus!
Não há quem possa suportar

Prá que foste embora?
Por ti, tudo chora!
Sem teu amor, esta vida não tem mais valor
(Foi o último…)

Sobre Castro Barbosa – v. artigo “Pra ninguém zombar de mim”

ÚLTIMO DESEJO (Noel Rosa) 

Samba. Primeira gravação em 1937 com Aracy de Almeida

Nosso amor que eu não esqueço
E que teve o seu começo
Numa festa de São João
Morre hoje sem foguete
Sem retrato e sem bilhete
Sem luar, sem violão

Perto de você me calo
Tudo penso e nada falo
Tenho medo de chorar
Nunca mais quero o seu beijo
Pois meu último desejo
Você não pode negar

Se alguma pessoa amiga
Pedir que você lhe diga
Se você me quer ou não
Diga que você me adora
Que você lamenta e chora
A nossa separação

Às pessoas que eu detesto
Diga sempre que eu não presto
Que meu lar é o botequim
Que eu arruinei sua vida
Que eu não mereço a comida
Que você pagou prá mim

Meu lar é o botequim – equivocadamente muitos cantores registraram “que o meu lar é um botequim”.

Último desejo – Ceci ganhou este “presente”, semanas antes da morte de Noel Rosa. A música forma com outras duas citadas no texto, o que chamamos de “trilogia de dor e de coragem”. São canções de amor por Ceci: Eu sei sofrer (já apresentada no artigo “A arte da dor”), Prá que mentir? (que está no “A sua melhor mentira”) e esta Último desejo. Compostas nos meses finais da vida do poeta. Vale a pena ouvi-las também!

ATÉ AMANHÃ (Noel Rosa)

Samba. Primeira gravação em 1933 com João Petra de Barros (música de 1932)

Até amanhã se Deus quiser
Se não chover eu volto prá te ver
Oh, mulher!
De ti gosto mais que outra qualquer
Não vou por gosto
O destino é quem quer

Adeus é prá quem deixa a vida
É sempre na certa em que eu jogo
Três palavras vou gritar por despedida:
Até amanhã! Até já! Até logo!

Até amanhã se Deus quiser
Se não chover eu volto prá te ver
Oh, mulher!
De ti gosto mais que outra qualquer
Não vou por gosto
O destino é quem quer

O mundo é um samba em que eu danço
Sem nunca sair do meu trilho
Vou cantando o teu nome sem descanso
Pois do meu samba tu és o estribilho

Sobre João Petra de Barros – v. artigo “O samba mulato”.

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O Brasil de Noel

“Comparo o meu Brasil a uma criança perdulária, que anda sem vintém, mas tem a mãe que é milionária”

Noel Rosa, a cara do Brasil (Ilustração Luquefar)

Alguns estudiosos apresentam Noel de Medeiros Rosa como figura descomprometida politicamente. Até alienada. Se muito, compromissada com a rua. Não é bem assim… Que o moço de Vila Isabel não tem filiação política e não se liga a correntes organizadas de esquerda de sua época é certo. Mas, preocupam-lhe, entretanto, a vida das pessoas e as injustiças flagrantes naquele Brasil de 1930. Se não abraça a bandeira jovem de mudar o mundo, quer dizer ao mundo o que pensa!

Noel não abre mão deste desejo e com isso deixa contribuição preciosa às propostas de transformação. Realiza-a, a seu modo, a seu tempo, com elegância incomum. Seu protesto acontece através da música mostrando a dura realidade brasileira, como poucos profissionais da política fazem e com resultados mesmo interessantes. Na balança política torna-se peso favorável no lado dos mais fracos, por intuição de pensamento. E usa o samba para projetar o seu Brasil.

Para início de conversa, o Brasil de Noel está na voz de Noel. O poeta sabe cantar com gracejo (voz macia), como cantam as pessoas simples, sambistas de alma. Faz questão de cantar quase como se fala, pronunciando palavras sem afetações vocais, então em voga. O Brasil de Noel vive na sua aptidão de escrever com conhecimento de causa sobre assuntos diversos, com ousadia e irreverência: “tudo aquilo que o malandro pronuncia, com voz macia, é brasileiro, já passou de português”, dirá.

O Brasil de Noel se faz na simplicidade e no propósito que o impulsionam a observar e aprender com os cidadãos comuns. Noel se mistura a eles, aos seus jeitos de compor e de falar, e os mistura em sua criação melódica, brejeira e inspirada. O Brasil de Noel, finalmente, persiste no álbum de retratos preto e branco que coleciona com suas canções, imagem verídica de seu âmago e da natureza do mundo que o cerca. O Brasil que Noel deseja é o país que ajudamos hoje idear.

Na próxima edição, domingo, 17 de outubro: ÚLTIMO DESEJO

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SÃO COISAS NOSSAS (Noel Rosa)

Samba. Primeira gravação em 1932 com Noel Rosa

Queria ser pandeiro
Prá sentir o dia inteiro
A tua mão na minha pele a batucar
Saudade do violão e da palhoça
Coisa nossa, coisa nossa
O samba, a prontidão
E outras bossas,
São nossas coisas
São coisas nossas!

Malandro que não bebe
Que não come
Que não abandona o samba
Pois o samba mata a fome
Morena bem bonita lá da roça
Coisa nossa, coisa nossa
O samba, a prontidão
E outras bossas
São nossas coisas
São coisas nossas!

Baleiro, jornaleiro
Motorneiro, condutor e passageiro
Prestamista e vigarista
E o bonde que parece uma carroça
Coisa nossa, muito nossa
O samba, a prontidão
E outras bossas
São nossas coisas
São coisas nossas!

Menina que namora
Na esquina e no portão
Rapaz casado com dez filhos, sem tostão
Se o pai descobre o truque dá uma coça
Coisa nossa, muito nossa
O samba, a prontidão
E outras bossas
São nossas coisas
São coisas nossas!

Prontidão – Novamente Noel citando a falta de dinheiro, como situação generalizada.

Motorneiro – Aquele que dirige o bonde.

Prestamista – O que empresta dinheiro a juros.

SAMBA DA BOA VONTADE (Noel Rosa-João de Barro)

Samba. Primeira gravação em 1931 com Noel Rosa, João de Barro e o Bando de Tangarás

(Campanha da boa vontade)

Viver alegre hoje é preciso
Conserva sempre o teu sorriso
Mesmo que a vida esteja feia
E que vivas na pinimba
Passando a pirão de areia

Gastei o teu dinheiro
Mas não tive compaixão
Porque tenho a certeza
Que ele volta à tua mão
Se ele acaso não voltar
Eu te pago com sorriso
E o recibo hás de passar
(Nesta questão solução sei dar)

Viver alegre hoje é preciso
Conserva sempre o teu sorriso
Mesmo que a vida esteja feia
E que vivas na pinimba
Passando a pirão de areia

Neste Brasil tão grande
Não se deve ser mesquinho
Quem ganha na avareza
Sempre perde no carinho
Não admito ninharia
Pois qualquer economia
Sempre acaba em porcaria
(Minha barriga não está vazia)

Viver alegre hoje é preciso
Conserva sempre o teu sorriso
Mesmo que a vida esteja feia
E que vivas na pinimba
Passando a pirão de areia

Comparo o meu Brasil
A uma criança perdulária
Que anda sem vintém
Mas tem a mãe que é milionária
E que jurou batendo o pé
Que iremos à Europa
Num aterro de café
(Nisto eu sempre tive fé)

Sobre João de Barro – v. artigo “Era a lua que tudo assistia”.

Sobre Bando de Tangarás – v. artigo “Eu ando sem l’argent toujours”.

Pinimba – É coisa funesta, coisa ruim. Na música, miséria mesmo.

QUEM DÁ MAIS? ou LEILÃO DO BRASIL (Noel Rosa)

Samba. Primeira gravação em 1933 com Noel Rosa (78 rpm, selo Odeon nº 10.931-a – música de 1930)

Quem dá mais?

Por uma mulata que é diplomada
Em matéria de samba e de batucada
Com as qualidades de moça formosa
Fiteira, vaidosa e muito mentirosa?
Cinco mil réis, duzentos mil réis, um conto de réis!

Ninguém dá mais de um conto de réis?
O Vasco paga o lote na batata
E em vez de barata
Oferece ao Russinho uma mulata

Quem dá mais?

Por um violão que toca em falsete
Que só não tem braço, fundo e cavalete
Pertenceu a Dom Pedro, morou no palácio
Foi posto no prego por José Bonifácio?
Vinte mil réis, vinte e um e quinhentos, cinqüenta mil réis!

(Ninguém dá mais de cinqüenta mil réis?)
Quem arremata o lote é um judeu
Quem garante sou eu
Prá vendê-lo pelo dobro no museu

Quem dá mais?

Por um samba feito nas regras da arte
Sem introdução e sem segunda parte
Só tem estribilho, nasceu no Salgueiro
E exprime dois terços do Rio de Janeiro?

Quem dá mais? Quem é que dá mais de um conto de réis?
(Quem dá mais? Quem dá mais? Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três!)
Quanto é que vai ganhar o leiloeiro
Que é também brasileiro
E em três lotes vendeu o Brasil inteiro?
Quem dá mais?

Russinho – João Máximo e Carlos Didier na biografia de Noel relatam sobre um concurso nacional em 1930, patrocinado por uma companhia de cigarros, que mexeu com o país e, no qual, o campeão foi Russinho do Vasco da Gama, com mais de 2,9 milhões de votos! O rapaz foi premiado com uma “baratinha” da Chrysler – como eram chamados os carros de corrida da época!

ONDE ESTÁ A HONESTIDADE? (Noel Rosa-Francisco Alves)

Samba. Primeira gravação em 1933 com Noel Rosa

Você tem palacete reluzente
Tem jóias e criados à vontade
Sem ter nenhuma herança, nem parente
Só anda de automóvel na cidade…
E o povo já pergunta com maldade:
Onde está a honestidade?
Onde está a honestidade?

O seu dinheiro nasce de repente
E, embora não se saiba se é verdade
Você acha nas ruas diariamente
Anéis, dinheiro e felicidade…
E o povo já pergunta com maldade:
Onde está a honestidade?
Onde está a honestidade?

Vassoura dos salões da sociedade
Que varre o que encontrar em sua frente
Promove festivais de caridade
Em nome de qualquer defunto ausente…
E o povo já pergunta com maldade:
Onde está a honestidade?
Onde está a honestidade?

Sobre Francisco Alves – v. artigo “Prá ninguém zombar de mim”.

NÃO TEM TRADUÇÃO (Noel Rosa)

Samba. Primeira gravação em 1934 com Francisco Alves (música de 1933)

O cinema falado
É o grande culpado da transformação
Dessa gente que sente
Que um barracão
Prende mais que o xadrez
Lá no morro, seu eu fizer uma falseta
A Risoleta
Desiste logo do francês e do inglês

A gíria que o nosso morro criou
Bem cedo a cidade aceitou e usou
Mais tarde o malandro deixou de sambar, dando pinote
E só querendo dançar o fox-trot

Essa gente hoje em dia
Que tem a mania da exibição
Não se lembra que o samba
Não tem tradução
No idioma francês
Tudo aquilo
Que o malandro pronuncia
Com voz macia é brasileiro
Já passou de português

Amor lá no morro é amor prá chuchu
As rimas do samba não são I love you
E esse negócio de alô
Alô boy, alô Johnny
Só pode ser conversa de telefone

Hello? – Apesar da importancia do idioma francês , de influência mundial, a partir principalmente da década de 30, o inglês começa a se alastrar pelo domínio econômico e tecnológico americano. A novidade do cinema falado é um vetor importante para a proliferação do inglês no Brasil, influenciando nosso modo de comunicação e de expressão. Noel, como sempre magnífico, criativo e com finíssima ironia, trata do assunto. E até Francisco Alves cede, diante da naturalidade dos versos desta “Não tem tradução”, com interpretação “falada”, ao gosto Noel Rosa.

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Foi negócio, foi divertimento

“Cada paixão que eu esqueço é mais um samba que faço”

 

Noel Rosa - amor, negócio e divertimento (livre criação de Luquefar)

“O amor é um vício que fala mais alto do que a natureza”, disse Noel, depois de jurar  não mais amar… pela décima vez… Não conseguimos viver sem esse vício, presente que está em nossas vidas o tempo todo, enchendo a cabeça de tentações e brejeirices que nos estimulam o apetite. Homem e mulher juntos e pronto: perigo à espreita; o braseiro esperta a fervença e o interesse aparece. Vem a paixão e, nas entranhas da confusão, desinquietação, desconfiança e descontentamento. É um Deus-nos-acuda!

Amor bandido ou mal resolvido é, quase sempre, causa de ressentimento. Aparece às vezes como desprazer, mazela, agrura ou amolação. Em outras por aperreação, pesar, dissabor e outros sintomas. Aquela coisa que fica lá dentro, que quem dela padece às vezes nem sabe, mas a gente percebe que tem. O rapaz está lá, triste com a amada que lhe deu o fora. E não quer nem ouvir falar mais da dita cuja. Ficou sabendo, por tanto falatório, poucas e boas da distinta. Tudo dito pela boca de amigos… dela!

O ressentimento se traduz em música e a brasileira está repleta de seus exemplos. Esplêndidos ou de pura breguice. Dor de cotovelo é tema que não falta em épocas distintas e nos variados estilos: fazem a vez de intérpretes e compositores da canção no Brasil. Alguns chegam a ser considerados verdadeiros representantes da temática, como o gaúcho Lupicínio Rodrigues e seu intérprete favorito Jamelão. Onde existir dor de cotovelo, há de se encontrar ressentimento.

Muito natural, portanto, que esteja na obra de Noel Rosa. Um homem que tanto ama, tanto sofre, e com amor se desentende tantas e tantas vezes. No fundo dos desentendimentos fica a mágoa. Ninguém sabe ao certo o seu real significado na vida do compositor, mas está nas entrelinhas de canções, que os versos bem construídos do poeta deixam transparecer: “você não sai do nosso pensamento; você foi negócio, foi divertimento”.

Na próxima edição, domingo, 10 de outubro: O BRASIL DE NOEL

Músicas relacionadas

AMOR DE PARCERIA (Noel Rosa)

Samba-choro. Primeira gravação em 1935 com Aracy de Almeida (78 rpm, selo Victor nº 33.973b – música de 1933)

Saiba primeiro que fulana é minha amiga
E comigo ela não briga com ciúme de você
Você provoca briga entre rivais
Para depois ver nos jornais seu nome e seu clichê
Há muito tempo minha amiga me avisava
Que ela sempre conversava com você no seu jardim
E começou nossa parceria
Eu fui por ela e ela foi por mim

Você pensou que fomos enganadas
Marcando encontro em horas alternadas
E nós fizemos a sua vontade
Dentro daquela escrita eu e ela
Não tivemos prejuízo na sociedade

Quando você se atrasava uma hora
E fingia não saber a razão dessa demora
E muita vez você perdeu a fala
Quando tava sem tostão e eu pedia bala!
Nós aturamos os seus modos irritantes
Mas filamos bons jantares nos melhores restaurantes
Você não sai de nosso pensamento
Você foi negócio e foi divertimento

Sobre Aracy de Almeida – v. artigo “Era a lua que tudo assistia”.

Clichê – No tempo da tipografia, era a peça de metal gravada em relevo para reprodução de ilustrações e fotos nos impressos e jornais.

Sem tostão – é sem dinheiro! (já vimos antes, no segundo artigo).

Pedir bala – é pedir dinheiro!

VOCÊ VAI SE QUISER (Noel Rosa)

Samba. Primeira gravação em 1936 com Noel Rosa e Marília Baptista (78 rpm, selo Odeon nº 11.422b)

(Você vai se quiser)
Você vai se quiser
Pois a mulher
Não se deve obrigar a trabalhar
Mas não vai dizer depois
Que você não tem vestido
Que o jantar não dá prá dois

Todo cargo masculino
Desde o grande ao pequenino
Hoje em dia é prá mulher
E por causa dos palhaços
Ela esquece que tem braços
Nem cozinhar ela quer
(Você vai se quiser)

Você vai se quiser
Pois a mulher
Não se deve obrigar a trabalhar
Mas não vai dizer depois
Que você não tem vestido
Que o jantar não dá prá dois

Os direitos são iguais
Mas até nos tribunais
A mulher faz o que quer
Cada qual que cate o seu
Pois o homem já nasceu
Dando a costela à mulher

(Você vai se quiser)

Sobre Marília Baptista – v. o artigo “Eu ando sem l’argent toujours

ESTAMOS ESPERANDO (Noel Rosa)

Samba. Primeira gravação em 1933 com Francisco Alves e Mário Reis (música de 1932)

Estamos esperando
Vem logo escutar
O samba que fizemos prá te dar
A rua adormeceu
E nós vamos cantar
Aquilo que é só teu
Que nos faz penar!

Da tua voz tirei a melodia
E a harmonia eu fiz com teu olhar
Já estava perdendo a paciência
Quando roubei a cadência
Do teu modo de pisar
(Chega à janela…)

Estamos esperando
Vem logo escutar
O samba que fizemos prá te dar
A rua adormeceu
E nós vamos cantar
Aquilo que é só teu
Que nos faz penar!

E este samba que fiz de parceria
Depois de feito não é dele nem é meu
Escuta o violão que está gemendo
Tuas cordas vão dizendo
Que este samba é só teu!
(Até amanhã…)

Sobre Francisco Alves e Mário Reis – v. o artigo “Prá ninguém zombar de mim”.

Estamos esperando – Almirante conta sobre passagem de Noel e Ismael Silva, sempre requisitados por Francisco Alves para comporem para as suas gravações, algumas lhe rendendo inclusão de seu nome como parceiro. Certa vez, cobrando-lhes pagamento de uma dívida em um encontro com os dois em um bar, o Chico exigiu duas inéditas, que teriam que ser feitas ali mesmo. Ismael compôs “Fica calmo que aparece” e Noel esta: “Estamos esperando”. Puro ressentimento…

SEJA BREVE (Noel Rosa)

Samba-choro. Primeira gravação em 1933 com Luís Barbosa e João Petra de Barros

Seja breve, seja breve
Não percebi por que você se atreve
A prolongar sua conversa mole
Seja breve
Não amole
Senão acabo perdendo o controle
E vou cobrar o tempo que você me deve

Seja breve, seja breve
Não percebi por que você se atreve
A prolongar sua conversa mole
(E não adianta)
Seja breve
(Conversa de teso!)
Não amole
Senão acabo perdendo o controle
E vou cobrar o tempo que você me deve

Eu me ajoelho e fico de mãos postas
Só para ver você virar as costas
E quando vejo que você vai longe
Eu comemoro sua ausência com champanhe
(Deus lhe acompanhe
Vá com Deus)

Seja breve (vê se não volta) Seja breve
Não percebi por que você se atreve
A prolongar sua conversa mole
Seja breve
Não amole
Senão acabo perdendo o controle
E vou cobrar o tempo que você me deve

A sua vida nem você escreve
E além disso você tem mão-leve
Eu só desejo ver você nas grades
Prá te dizer baixinho sem fazer alarde
Deus lhe guarde (Vá com Deus)

Seja breve (ininteligível na gravação)
Seja breve (no caminho)
Não percebi por que você se atreve
A prolongar sua conversa mole
Seja breve
Não amole
Senão acabo perdendo o controle
E vou cobrar o tempo que você me deve

Vou conservar a porta bem fechada
Com um cartaz: é proibida a entrada
E você passa a ser pessoa estranha
Meu bolso fica livre dos ataques seus
Graças a Deus

Luís Barbosa – Luís dos Santos Barbosa (7/7/1910 – 8/10/1938) de Macaé, RJ. Cantor e compositor. Irmão de Castro Barbosa, já citado anteriormente, foi outro artista brasileiro, contemporâneo de Noel, morto pela tuberculose precocemente. No mundo do disco desde 1931, foi autor de canções importantes e teve participação destacada como intérprete. Haja vista esta “Seja Breve”, em dueto com João Petra de Barros (também citado antes – v. artigo “O samba mulato”): um show de ginga e cadência da dupla, com direito à percussão em chapéu de palhinha.

Teso – o sentido do termo na música é sem dinheiro, duro.

Mão-leve – aquele que furta de modo dissimulado, gatuno.

RISO DE CRIANÇA (Noel Rosa)

Samba-choro. Primeira gravação em 1934 com Aracy de Almeida (música de 1930)

Seu riso de criança
Que me enganou
Está num retratinho
Que eu guardo e não dou
Guardei sua aliança
Prá ter a lembrança
Do meu violão
Que você empenhou

E cada morro que passo
Um novo amor eu conheço
Cada paixão que eu esqueço
É mais um samba que faço

Seu riso de criança
Que me enganou
Está num retratinho
Que eu guardo e não dou
Guardei sua aliança
Prá ter a lembrança
Do meu violão
Que você empenhou

Canto agora de passagem
Você ouve bem de longe mas não vê
É a última homenagem
Que eu vou fazer a você

Seu riso de criança
Que me enganou
Está num retratinho
Que eu guardo e não dou
Guardei sua aliança
Prá ter a lembrança
Do meu violão
Que você empenhou

Eu nascendo pobre e feio
Ia ser triste o meu fim
Mas crescendo a bossa veio
Deus teve pena de mim

Auto-retrato – a última estrofe não foi gravada. O texto é apresentado em “Noel Rosa – uma biografia” como sendo da criação original.

Bossa – Noel utilizou algumas vezes esta palavra (muito antes da bossa nova). O dicionário dá como significado para este caso “talento cultivado, maestria, perícia”. Dos versos da estrofe tira-se uma conclusão: o poeta podia não ter em mente a importância que sua obra ganharia no tempo e no espaço, mas tinha consciência de sua capacidade criativa.

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A ilustração da semana é uma livre criação de Luquefar em cima de um trabalho de autor desconhecido, provavelmente da década de 1930.

 

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Cronista da arte e da canção

“É assim que eu faço as minhas coisas. Com situações, episódios, emoções, aspectos colhidos da vida real.”

Noel Rosa-Cronista Musical

Noel Rosa-Cronista Musical (Ilustração de Luquefar)

Ordem cronológica é lista sequencial. Cronologia vem de khrónos, vocábulo grego que significa ciência da medida do tempo. Do latim, veio a palavra que hoje conhecemos como crônica e que já foi utilizada fielmente como relato cronológico de fatos reais. Isto foi num tempo distante. A crônica passou a mostrar o cotidiano, com sotaque literário, com sua utilização em jornais. Essa história da crônica vai nos ajudar a compreender melhor nossa música.

O desenvolvimento literário do texto que acompanha nossas canções encontra reconhecimento até nos tratados acadêmicos, inclusive de estrangeiros especializados em nossos assuntos. Em pelo menos dois terços da produção nos 160 anos de existência da música popular no Brasil, o texto se mostra presente com grande evidência. E a crônica emoldura o propósito com um toque de sofisticação e bom gosto. O samba e Noel Rosa se encontram aí.

Nossos autores, ao escreverem para a música, entusiasmam-se com a “fala” do amor. O amor vem por princípio, mas também há os que tomam gosto pelo registro do cotidiano. Na evolução do samba é marcante esta tendência. Para o brasileiro, que normalmente não podia ler jornais, crônicas musicadas tornam-se oportunas. A música com letra faz sucesso, principalmente após o advento do disco e do rádio. Toma o gosto popular e ganha o olhar interessado dos autores.

Pois, ninguém melhor que Noel, faz crônica de si mesmo e de seu tempo. Mostra-se um especialista perspicaz. E traz, em seus quase sete anos de composição, novidades ao texto musical, imprimindo-lhe tom absolutamente moderno e coloquial, influenciando muitos, sambistas ou não, em épocas distintas. Com habilidade literária e oportunismo, traz humor e delicadeza, real sentimento e, sobretudo, qualidade à música popular.

Na próxima edição, domingo, 3 de outubro: FOI NEGÓCIO, FOI DIVERTIMENTO

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RAPAZ FOLGADO (Noel Rosa)

Samba. Primeira gravação em 1938 com Aracy de Almeida (78 rpm, selo Victor nº 34.368-b – música de 1933).

Deixa de arrastar o teu tamanco
Pois tamanco nunca foi sandália
E tira do pescoço o lenço branco
Compra sapato e gravata
Joga fora esta navalha que te atrapalha

Com chapéu do lado deste rata
Da polícia quero que escapes
Fazendo um samba-canção
Já te dei papel e lápis
Arranja um amor e um violão

Malandro é palavra derrotista
Que só serve prá tirar
Todo o valor do sambista
Proponho ao povo civilizado
Não te chamar de malandro
E sim de rapaz folgado

Sobre Aracy de Almeida – v. artigo “Era a lua que tudo assistia”.

Polêmica – Esta canção “Rapaz Folgado” abre a polêmica com Wilson Batista, com alfinetadas diretas à sua “Lenço no Pescoço”. A disputa ocorreu basicamente no métier do samba, já que a canção que provocou a polêmica só foi gravada após a morte de Noel. Compõem a polêmica: “Mocinho da Vila”, “Palpite Infeliz”, “Frankenstein da Vila”, “Feitiço da Vila”, dentre outras. Todas com lances de respostas e ataques de um lado e de outro.

Deste rata – Dar rata é dar mancada, cometer uma gafe, um ato inconveniente.

CONVERSA DE BOTEQUIM (Noel Rosa-Vadico)

Samba. Primeira gravação em 1935 com Noel Rosa (78 rpm, selo Odeon nº 11.257-b)

Seu garçom faça o favor de me trazer depressa
Uma boa média que não seja requentada
Um pão bem quente com manteiga à beça
Um guardanapo e um copo d’água bem gelada
Feche a porta da direita com muito cuidado
Que não estou disposto a ficar exposto ao sol
Vá perguntar ao seu freguês do lado
Qual foi o resultado do futebol

Se você ficar limpando a mesa
Não me levanto nem pago a despesa
Vá pedir ao seu patrão
Uma caneta, um tinteiro
Um envelope e um cartão
Não se esqueça de me dar palitos
E um cigarro prá espantar mosquitos
Vá dizer ao charuteiro
Que me empreste umas revistas
Um isqueiro e um cinzeiro

Seu garçom faça o favor de me trazer depressa
Uma boa média que não seja requentada
Um pão bem quente com manteiga à beça
Um guardanapo e um copo d’água bem gelada
Feche a porta da direita com muito cuidado
Que não estou disposto a ficar exposto ao sol
Vá perguntar ao seu freguês do lado
Qual foi o resultado do futebol

Telefone ao menos uma vez
Para três, quatro, quatro, três, três, três
E ordene ao seu Osório
Que me mande um guarda-chuva
Aqui pro nosso escritório
Seu garçom me empresta algum dinheiro
Que eu deixei o meu com o bicheiro
Vá dizer ao seu gerente
Que pendure esta despesa
No cabide ali em frente

Sobre Vadico – v. artigo “Eu ando sem l’argent toujours!”

Tinteiro – Antes da invenção da esferográfica, este compartimento de guardar a tinta que abastecia as canetas de pena era fundamental para a escrita.

PIERROT APAIXONADO (Noel Rosa-Heitor dos Prazeres)

Marcha. Primeira gravação em 1936 com Joel e Gaúcho (78 rpm, selo Victor nº 34.012ª – música de 1935)

Um pierrot apaixonado
Que vivia só cantando
Por causa de uma colombina
Acabou chorando, acabou chorando

A colombina entrou num botequim
Bebeu, bebeu, saiu assim, assim
Dizendo: pierrot cacete
Vai tomar sorvete com o arlequim

Um pierrot apaixonado
Que vivia só cantando
Por causa de uma colombina
Acabou chorando, acabou chorando

Um grande amor tem sempre um triste fim
Com o pierrot aconteceu assim
Levando esse grande shoot
Foi tomar vermouth com amendoim

Heitor dos Prazeres – (23/9/1898 – 4/10/1966) do Rio de Janeiro, RJ. Compositor, instrumentista e pintor. Despontou ainda na década de 1920; amigo de Ismael, Bidê e Paulo da Portela. Em 1928 abre polêmica com o compositor Sinhô (renomado “rei do samba”), acusando-o de roubo de “Ora, vejam só” e “Cassino Maxixe”, esta última gravada com o título “Gosto que me enrosco”. Heitor gostava de ironizar seu desafeto: “rei dos meus sambas!”. E Sinhô: “samba é como passarinho. É de quem pegar primeiro!”. Mas, assim como Sinhô, Heitor dos Prazeres deixou obra fabulosa no mundo do samba, além de grande contribuição para as artes plásticas com sua pintura primitivista.

Joel e Gaúcho – Joel de Almeida (1913 – 1993) de Rio de Janeiro, RJ e Gaúcho, sobre o qual já escrevemos no artigo “Era a lua que tudo assistia”, formaram uma das mais conceituadas duplas vocais de samba – muito em voga nos anos de 1930 e 1940. Esta gravação marca a estréia da dupla no mundo do disco, que apresenta história extensa, com dezenas de sucessos, até o início da década de 1950.

Estrangeirismos – Os termos pierrot, shoot e vermouth, como outros, foram depois aportuguesados em suas escritas para pierrô, chute e vermute.

Cacete – A irreverência marca a obra de Noel, como neste pierrô “cacete”: chato, inconveniente.

ESQUINA DA VIDA (Noel Rosa-Francisco Mattoso)

Samba. Primeira gravação em 1933 com Mário Reis

É na esquina da vida
Que assisto à descida de quem subiu
Faço o confronto
Entre o malandro pronto
E o otário que nasceu prá milionário

E na esquina da vida observo o valor
Que o homem dá à mulher e ao amor
E é por isso que ela em qualquer situação
Zomba da gente, sempre cheia de razão

É na esquina da vida
Que espero ver você estendendo a mão
E implorando já desiludida
O meu perdão
Para eu dizer que não

E na esquina da vida observo o valor
Que o homem dá à mulher e ao amor
E é por isso que ela em qualquer situação
Zomba da gente, sempre cheia de razão

Francisco Mattoso – Francisco de Queirós Mattoso (8/4/1913 – 18/12/1941) de Petrópolis, RJ. Compositor e pianista, foi o autor de três músicas muito conhecidas do grande público: “Eu sonhei que tu estavas tão linda” (parceria com Lamartine Babo), “Boa noite, amor” e “Pegando fogo” (as duas com José Maria de Abreu, que foi seu parceiro mais constante). Nos anos 1980 “Pegando Fogo”, regravada por Gal Costa, voltou para as paradas de sucesso! Como Noel, morreu cedo, com 28 anos, vitimado pela tuberculose, marcando seu nome na história da MPB.

Sobre Mário Reis – v. artigo “Pra ninguém zombar de mim”

A MELHOR DO PLANETA (Noel Rosa-Almirante)

Samba. Primeira gravação em 1955 com Aracy de Almeida (LP Continental-LPP 10” – música de 1934)

Tu pensas que tu é que és
A melhor mulher do planeta
Mas eu é que não vou fazer
Tudo o que te der na veneta

Tu foste marcar dois por quatro
Batendo teus pés lá no chão do teatro
Não entendo a opereta
Fizeste a careta
Pior do planeta

Tu pensas que tu é que és
A melhor mulher do planeta
Mas eu é que não vou fazer
Tudo o que te der na veneta

Tu foste dançar par constante
Num baile de um clube da Liga Barbante
Tu abafaste a orquestra
Dizendo: “sou mestra!”
Pior pro Palestra!

Sobre Almirante – v. artigo “Dona Maria, Seu João e outros”

Clube da Liga Barbante – clube sem expressão. “Liga Barbante” é como ficou conhecida a “Associação de Football do Rio de Janeiro”, fundada pelo Botafogo em 1912, por ser formada por clubes que, à época, eram de pouca expressividade na Capital Federal (segundo o site da Federação de Futebol do Rio de Janeiro).

Palestra – palavra vinda do grego, ligada a disputas, ao esporte. Na música pode ser referência a “Palestra-Itália”, clubes de futebol formados por imigrantes e descendentes de italianos, em várias cidades brasileiras. Em São Paulo e em Belo Horizonte estas agremiações originaram o Palmeiras e o Cruzeiro respectivamente (em 1934, suposto ano da composição, Noel ainda não havia conhecido a capital mineira).

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A morada do samba

“O samba na realidade não vem do morro, nem lá da cidade. Nasce do coração”

Noel Rosa e a morada do samba (Ilustração Luquefar)

Onde mora nosso samba? Será que se acomoda nos cantos do coração? O samba brinca com os sonhos de amor da morena sereia e vagueia na alma de João Ninguém, que vive num vão de escada e goza  de felicidade que muita gente não tem. O samba em movimento, faz dançar os galhos do arvoredo e faz a lua nascer mais cedo. Lá no morro da Mangueira foi o samba se ajeitar defronte à ribanceira. Sua morada é também a cidade de sonho, que guarda a riqueza da terra e do mar.

O samba conhece a lua triste que ilumina minha rua e desdenha a Julieta, que prefere carícias de papel. Permanece no orvalho que cai, como no choro do pierrô apaixonado. Na mentira sublime e no falso beijo, na ironia de uma ilustre visita ou de um capricho de mulher. E na pele do pandeiro, sente a mão batucar, com saudades do violão e da palhoça! O samba está presente na conversa de botequim e em tudo aquilo que o malandro pronuncia, com voz macia, que é brasileiro, já passou de português.

Mora o samba na fumaça do cigarro que joguei ao chão e apanhei prá fumar. Na fumaça do cachimbo de Maria, ou do carro de praça que partiu com destino ignorado. Desceu o samba feliz do Estácio, Salgueiro, Mangueira, Oswaldo Cruz e Matriz, e ficou triste na melodia em feitio de oração. O coração de sambista(malandro que não come porque o samba mata a fome) foi morar na cidade independente, que tira samba mas não quer tirar patente. Tem saudades do barracão, que cansado de esperar, saiu do lugar.

Onde o samba me encanta? Onde o samba resiste? Em qual quebrada, qual barraco, em qual sonho? Na intriga de um café pequeno que se toma para ver quem vai pagar. No braço habilidoso de um malandro que é medroso. Nos meus olhos com ciúmes. No costume de sofrer que Deus me deu. Na voz da alegria que passa. No feitiço sem farofa, sem vela e sem vintém, que nos faz bem. E onde mais o samba tem graça? Em Vila Isabel, no botequim, na cachaça, no bangalô de Noel.

Na próxima edição, domingo, 26 de setembro: CRONISTA DA ARTE E DA CANÇÃO

Músicas relacionadas

MEU BARRACÃO (Noel Rosa)

Samba. Primeira gravação em 1933 com Mário Reis

Faz hoje quase um ano
Que eu não vou visitar
Meu barracão lá da Penha
Que me faz sofrer
E até mesmo chorar
Por lembrar a alegria
Com que eu sentia
O forte laço de amor
Que nos prendia

Não há quem tenha
Mais saudades lá da Penha
Do que eu, juro que não
Não há quem possa
Me fazer perder a bossa
Só a saudade do barracão

Mas veio lá da Penha
Hoje uma pessoa
Que trouxe uma notícia
Do meu barracão
Que não foi nada boa
Já cansado de esperar
Saiu do lugar
Eu desconfio
Que ele foi me procurar

Não há quem tenha
Mais saudades lá da Penha
Do que eu, juro que não
Não há quem possa
Me fazer perder a bossa
Só a saudade do barracão

Sobre Mário Reis – v. o artigo “Prá ninguém zombar de mim”

VAI HAVER BARULHO NO CHÂTEAU (Noel Rosa-Walfrido Silva)

Samba. Primeira gravação em 1933 com Mário Reis (78 rpm, selo Odeon n° 10.977-a)

Vai haver barulho no chatô
Porque minha morena falsa me enganou
Se eu ficar detido
Por favor, vá me soltar
Tenho o coração ferido
Quero me desabafar

Quase sempre eu evito
Bate-boca em nosso lar
Pois não quero ir pro Distrito
Por questão particular

Vai haver barulho no chatô
Porque minha morena falsa me enganou
Se eu ficar detido
Por favor, vá me soltar
Tenho o coração ferido
Quero me desabafar

Desta vez é impossível
Tenho que desacatar
Parece uma coisa incrível
Não ter quem queira me soltar

Walfrido Silva – Valfrido Pereira da Silva (12/8/1904 – 6/1/1972) do Rio de Janeiro, RJ. Compositor e baterista, foi considerado um dos melhores do instrumento na Época de Ouro, sempre requisitado por Pixinguinha para o “Diabos do Céu”, grupo que acompanhou dezenas de intérpretes nos estúdios de gravação. Foi autor de grandes sucessos, como o “Tic-tac do meu coração”, que fez com Alcyr Pires Vermelho para Carmen Miranda.

Chatô –do francês Château=castelo Apesar do significado “grandioso, chatô era uma gíria usada para se referir a simples moradia.

PRÁ ESQUECER (Noel Rosa)

Samba. Primeira gravação em 1934 com Francisco Alves (música de 1933 – 78 rotações, selo Odeon n° 13.290-b)

Naquele tempo
Em que você era pobre
E eu vivia como nobre
A gastar meu vil metal
E por minha vontade
Você foi para a cidade
Esquecendo a solidão
E a miséria daquele barracão

Tudo passou tão depressa
Fiquei sem nada de meu
Esquecendo a promessa
Você me esqueceu
E partiu com o primeiro que apareceu
Não querendo ser pobre como eu

E hoje em dia
Quando por mim você passa
Bebo mais uma cachaça
Com meu último tostão
Prá esquecer a desgraça
Tiro mais uma fumaça
Do cigarro que filei
De um ex-amigo
Que outrora sustentei

Tudo passou tão depressa
Fiquei sem nada de meu
Esquecendo a promessa
Você me esqueceu
E partiu com o primeiro que apareceu
Não querendo ser pobre como eu

Sobre Francisco Alves – v. o artigo “Prá ninguém zombar de mim”

Vil metal – forma desdenhosa de se referir ao dinheiro.

JULIETA (Noel Rosa-Eratóstenes Frazão)

Fox. Primeira gravação em 1933 com Castro Barbosa (música de 1931)

Julieta
Não és mais um anjo de bondade
Como outrora sonhava o teu Romeu
Julieta tens a volúpia da infidelidade
E quem te paga as dívidas sou eu

Julieta
Tu não ouves meu grito de esperança
Que afinal, de tão fraco não alcança
As alturas do teu arranha-céu
Tu decretaste a morte aos madrigais
E constróis um castelo de ideais
No formato elegante de um chapéu

Julieta
Nem falar em Romeu tu hoje queres
Borboleta sem asas, tu preferes
Que te façam carícias de papel
Nos teus anseios loucos, delirantes
Em lugar de canções queres brilhantes
Em lugar de Romeu, um coronel!

Eratóstenes Frazão – Erastótenes Alves Frazão (17/1/1901 – 17/4/1977) do Rio de Janeiro, RJ. Flautista, compositor, jornalista e radialista, deixou extensa obra na música brasileira, tendo sido parceiro de nomes destacados como Roberto Martins, Nássara, Marino Pinto, Benedito Lacerda ou Haroldo Lobo. Foi produtor do Programa Casé e trabalhou na redação de “O País”.

Sobre Castro Barbosa – v. o artigo “Prá ninguém zombar de mim”

Volúpia – desejo descontrolado de prazer sexual.

Coronel – a figura do “coronel”, poderoso político, constante na crítica noelina.

MORENA SEREIA (Noel Rosa-José Maria de Abreu)

Samba. Primeira gravação em 1962 com Marília Baptista (música de 1936)

Morena sereia
Que à beira-mar não passeia
Que senta na praia e deixa a praia cheia
De lindos castelos de areia

Cuidado criança
Que qualquer dia um tufão
Derruba estes teus castelos de esperança
E enche de areia o teu coração

Se algum dia tu souberes
Que o teu nome eu escrevi
Entre mais de dez nomes de mulheres
Terás certeza que te amei mas te esqueci

José Maria de Abreu – (7/2/1911 – 11/5/1966) de Jacareí, SP. Compositor, multi-instrumentista e regente. Forma o primeiro time da música popular brasileira, com obra sempre lembrada pela qualidade melódica. Filho de músicos – seu pai era regente e sua mãe pianista – escreveu para diferentes gêneros da música popular, tornando-se parceiro de grandes nomes, como João de Barro, Alberto Ribeiro, Francisco Matoso e Lamartine Babo.

Sobre Marília Baptista – v. o artigo “Eu ando sem l’argent toujours

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